Misses
Misso de Amar
Marriage Make Up
Penny Jordan




Abby Howard estava decidida a impedir que Sam, seu ex-marido, comparecesse ao casamento de Cathy. Afinal, seria uma ocasio muito especial, pois eram as bodas de 
sua filha! Nada poderia ameaar a felicidade desse momento to especial nem mesmo o desejo da noiva de convidar o pai para a cerimnia.
Ainda que tivesse abandonado a esposa antes de ela dar  luz, Sam desejava o perdo de Abby. Por isso, ele estaria presente no casamento de Cathy e aproveitaria 
a ocasio para esclarecer com Abby assuntos h muitos anos mantidos em silncio!

Digitalizao e Reviso: 
Crysty

Penny Jordan
Escreve para a Harlequin h 30 anos e j publicou mais de 165 ttulos, incluindo a Saga dos Crighton, um dos seus maiores sucessos. Quando descobriu os romances 
Harlequin, Penny se apaixonou imediatamente pelas histrias. No entanto, o sonho de se tomar escritora veio depois, e hoje Pentiy admite que escrever  uma necessidade 
bsica, como respirar. A escritora vive em Cheshire, no Reino Unido.


Traduo Celina Romeu

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V/S..r.1.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.
Ttulo original: MISSION: MAKE-OVER
Copyright (c) 1997 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 1997 por Mills & Boon Presents
Ttulo original: MARRIAGE MAKE UP
Copyright (c) 1998 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 1998 por Mills & Boon Presents
Arte-final de capa: Isabelle Paiva
Editorao Eletrnica:
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Aos cuidados de Virgnia Rivera
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Capitulo Um
       
       - Me...
       Abbie Howard franziu a testa quando a voz ligeiramente hesitante de sua filha de 22 anos interrompeu sua concentrao na contabilidade em que trabalhava. 
Prometera aos contadores que entregaria o trabalho at o fim da semana, mas tanta coisa havia acontecido desde que a filha tinha anunciado o noivado, no fim de semana 
anterior, que agora estava muito atrasada.
       No que se incomodasse que Cathy a interrompesse. As duas sempre tinham sido extremamente ligadas, e todos sabiam o quanto a filha significava para ela. At 
demais, diziam algumas pessoas de vez em quando.
       - No vai acreditar nisso - disse Cathy, sentando-se no canto da escrivaninha da me e balanando uma longa perna, ainda bronzeada pelas ferias de vero.
       As pessoas sempre comentavam como me e filha eram diferentes na aparncia. Abbie era pequena, tinha apenas l,58m de altura e parecia muito frgil, com ossos 
delicados e uma aparncia de vulnerabilidade que atraia homens como flores atraem abelhas... apenas para deix-los atnitos e aborrecidos quando ela deixava claro 
que a ltima coisa de que precisava ou que queria era fazer papel de mulher indefesa para homens grandes e fortes.
       Seus cabelos lisos e sedosos eram naturalmente louros, os olhos um profundo azul-esverdeado, e aos 43 anos podia facilmente dizer que no tinha mais do que 
33, todos acreditariam. No apenas os homens, mas as mulheres tambm. No que tivesse a inteno de fazer isso. No tinha problemas com a idade nem com o fato de 
ter uma filha adulta.
       Cathy, ao contrrio, embora tivesse os mesmos atraentes olhos azul-esverdeados da me, era alta, com ossos longos e uma bela cabeleira de cachos escuros. 
Quando criana, era desajeitada. At mesmo passara por uma fase em que secretamente desejara ser como a me, quase odiando o corpo mais alto e forte, at que Abbie 
percebera o que estava acontecendo e rapidamente acabara com aquilo, garantindo que a filha, em vez de rejeitar o corpo, passasse a gostar dele.
       - Mas eu me pareo com papai... voc mesma me disse quando me mostrou o retrato dele.
       Abbie se lembrou que tinha dito isso, mas tambm se lembrou de como ficara abalada quando Cathy lhe dissera que no achava que tinha um pai porque nunca havia 
visto um retrato dele. Abbie ento lhe mostrara algumas fotos de Sam e que no destrura, odiando v-las por causa das lembranas, de toda a tristeza que evocavam.
       Cathy continuou a protestar:
       - E ele foi horrvel e voc o detesta...
       - Mas voc no  horrvel e no a detesto - Abbie a consolara, abraando-a e beijando-a. - Amo voc. E embora tenha herdado a estrutura ssea e a pele de 
seu pai, voc  voc mesma, Cathy, e lhe prometo que quando crescer vai adorar ser to alta e elegante.
       - Mas na escola me chamam de varapau - reclamara Cathy, chorando.
       - Quando estava na escola, me chamavam de anzinha - contou-lhe Abbie. - Mas no se importe com o que as pessoas dizem ou pensam, minha querida. Eu lhe garanto 
que quando crescer voc vai ficar muito satisfeita em ser voc...
       E Abbie estava certa; Cathy era agora a primeira pessoa a reconhecer. Sempre estivera certa... ou quase sempre. Havia algumas coisas...
       Rapidamente Cathy sufocou o pensamento incmodo que comeava a se formar. Como a me reagiria ao que precisava dizer a ela? Tinha sido maravilhosa quando 
ela e Stuart lhe contaram que estavam noivos, insistindo apenas em fazer as coisas do jeito dela, como me da noiva.
       Stuart se mostrara mais do que disposto a concordar. Era de uma famlia grande e se sentia muito bem com a idia de um grande casamento.
       E apesar da infelicidade e do trauma do prprio casamento, sua me jamais tentara impedir seu casamento, reconhecia Cathy. No que fizesse diferena. Apaixonara-se 
por Stuart praticamente no momento em que o conhecera, e ele por ela, como ele afirmara mais tarde.
       - O que h de errado? - perguntou Abbie  filha, afastando os papis em que estava trabalhando e se voltando para olhar para ela.
       - Sei que no vai acreditar - respondeu Cathy, nervosa. - Mas... acho... acho... - Olhou para baixo, mexendo nos cadaros das botas. - Acho que...
       - Sim, continue... Voc acha o qu? - encorajou Abbie, observando-a.
       - Acho que vi papai hoje...
       Quando terminou de falar, ergueu a cabea para olhar cautelosamente nos olhos da me.
       O choque foi idntico ao de acreditar que estava atravessando uma rua completamente vazia e de repente perceber que um caminho de 10 toneladas se aproximava 
em alta velocidade. Abbie podia sentir a adrenalina repelir o susto que acabara de levar.
       - Voc est certa - concordou arrasada, quando achava que tinha controle sobre sua voz. - No acredito em voc, Cathy.  impossvel que seu pai esteja aqui 
- acrescentou mais gentilmente quando viu a filha virar a cabea e morder o lbio. - Seu pai est na Austrlia, emigrou logo depois... logo depois que voc nasceu, 
e no h motivo... - Parou de falar.
       Mas Cathy retomou sua frase inacabada e a terminou, a voz spera:
       - No h motivo para o qu? No h motivo para meu pai voltar? No h motivo para ele querer me ver... me conhecer?
       Abbie podia sentir o n se formando na garganta. Doa insuportavelmente saber que ela, que aprendera a ser to dura e protetora da filha, que pensara ter 
agido to bem ao se tornar independente, em sustentar as duas, em dar  preciosa filha todo o amor e segurana que podia, havia, de alguma forma, fracassado.
       Sabia o que era,  claro. Agora que Cathy e Stuart estavam planejando se casar, agora que vira de perto como os pais de Stuart eram felizes no casamento, 
como se relacionavam bem um com o outro e com os filhos, agora que, sem dvida, estava pensando sobre o futuro e os filhos que teria, sua curiosidade natural sobre 
o pai aflorara. Fazia-a ter vontade de saber mais sobre ele e, sem dvida, queria que ele se sentisse do mesmo jeito em relao a ela.
       Quando Cathy ainda era beb, Abbie havia prometido a si mesma ser sempre honesta sobre o pai, nunca mentir sobre ele ou sobre o que ele havia feito, mas, 
ao mesmo tempo, tambm prometera a si mesma fazer tudo o que pudesse para proteg-la da mgoa que certamente sentiria quando fosse adulta para compreender a verdade.
       E cumprira a promessa, mesmo quando, algumas vezes, fora muito difcil, e quanto mais velha Cathy ficava, mais consciente se tornava da situao e mais difcil 
era proteg-la do que a inteligncia e as emoes da filha lhe diziam sobre o pai.
       Como poderia ela... como poderia qualquer pessoa proteger a filha da dor de saber que o pai no a quis?
       Fizera o melhor que pudera para compensar Cathy, e ficara to orgulhosa quando as pessoas comentavam como a filha era bem-ajustada, como parecia sempre feliz, 
mas agora se perguntava se havia se congratulado consigo mesma cedo demais.
       Por causa disso, por causa do medo de que no tinha sido o bastante e que Cathy ainda ansiava pelo pai que nunca tivera, foi menos compreensiva do que poderia 
ter sido, dizendo para a filha, quase que de forma spera:
       - Esquea seu pai, Cathy, ele no tem lugar na sua vida, nunca teve. Compreendo como se sente, mas...
       - No, no compreende. Como poderia? - Interrompeu-a Cathy apaixonadamente. - Como poderia compreender? - Repetiu, as lgrimas lhe enchendo os olhos. - Vov 
e vov sempre a amaram. Vov nunca, jamais, disse a vov que voc no era filha dele, que no queria voc... Nunca foi  escola e ouviu todos os outros alunos falando 
sobre os pais deles. No precisou andar pela nave da igreja sem... - Cathy parou e sussurrou: - Desculpe, me no quis... Sei que no  sua culpa...  s que...
       Abbie se levantou da cadeira. Com Cathy sentada sobre a escrivaninha e ela em p diante dela, tinham quase a mesma altura. Passou os braos em torno da filha, 
abraando-a com fora, confortando-a exatamente como fizera quando era uma menininha, e, pelo que parecia a milionsima vez, amaldioou o homem que lhes causara 
tanta infelicidade.
       Sam voltara...? Como ele ousara... no depois do que fizera. Deixara claro para ele da ltima vez que o vira que, a partir daquele momento, no queria mais 
nada com ele, que podia manter seu nome, seu dinheiro, sua casa e qualquer outra maldita coisa que lhe dera... menos sua filhai A filha que se recusara a aceitar 
como dele, a filha que agora reclamava apenas para si mesma e que nunca, jamais, permitiria que ele visse.
       Ele a acusara de fazer sexo com outro homem, de conceber um filho de outro homem; tivera at o desplante de culpar o pobre Lloyd. Lloyd, que nunca...
       Comeara a dizer alguma coisa, mas no o deixara terminar, empurrando-o e se preparando para deixar a casa que partilhou com ele por um curto espao de tempo.
       Isso tinha sido logo depois que ela descobrira que estava grvida, e nunca mais o vira.
       Algum tempo depois, Abbie sorriu feliz quando terminou de somar a ltima coluna e fechou o livro de contabilidade, colocando-o sobre a pilha de outros papis 
que preparara para seus contadores.
       Sabia como muitos de seus amigos tiveram dvidas tantos anos antes... dez anos..., quando anunciara que estava estabelecendo sua prpria agncia de emprego, 
mas depois de 15 anos de experincia de trabalho na indstria de hotis e de fornecimento de refeies, fazendo tudo, desde servir mesas e arrumar quartos, at aceitar 
a responsabilidade de organizar conferncias, aprendera o bastante para dar um passo to grande, e, mais importante, pelo menos para ela mesma, tinha contatos dos 
dois lados do negcio e assim podia confiar no sucesso.
       E mostrou que estava certa; alguns membros da equipe que comeara com ela ainda estavam em sua agncia. Sua reputao crescera sem publicidade, apenas pela 
recomendao de clientes, que elogiavam sua honestidade e lealdade  equipe. Era conhecida por nunca fornecer funcionrios para clientes que poderiam abusar de sua 
posio de autoridade para tirar vantagem.
       Seus honorrios eram altos; quando reclamavam, explicava com firmeza que, pelo preo que cobrava, fornecia o que havia de melhor e pagava a eles de acordo.
       Abbie podia fornecer pessoal em qualquer posio, desde um mordomo para dar gravitas at um jantar formal a um cheff francs para ocupar uma vaga de ltima 
hora; fornecer um buf para 500 pessoas numa conveno importante, e tudo mais que fosse necessrio.
       Cathy, assim que tivera idade suficiente, fora encorajada a ganhar seu dinheiro extra, servindo mesas e atrs de balces de bares, exatamente como a me fizera. 
Mesmo podendo pagar com facilidade os estudos da filha na universidade, Abbie quisera que Cathy tivesse a independncia e o orgulho de saber que podia ganhar dinheiro 
por si mesma. Claro que desde que o trabalho de meio expediente no prejudicasse seus estudos.
       Os pais de Abbie tinham se oferecido a ajud-la quando seu casamento fracassara e lhe imploraram que voltasse a morar com eles, mas ela insistira teimosamente 
em se sustentar, e agora estava feliz por ter feito isso, por ter construdo uma vida independente para si mesma nesta cidade de tamanho mdio na Inglaterra, para 
onde Sam a levara assim que haviam se casado. Na ocasio, tinham planejado construir seu futuro aqui. Sam como professor universitrio, com planos de, mais tarde, 
se tornar um escritor, e Abbie tambm trabalhando na universidade, no departamento de arquivo.
       Abbie olhou o relgio. Prometera a uma amiga, que organizava vendas de garagem, que faria uma busca no sto para ver se encontrava alguma coisa de que quisesse 
se desfazer, Tinha o tempo suficiente, se fosse rpida, de fazer isso antes de sua reunio  noite com o gerente do novo e luxuoso centro de conferncias, que havia 
sido aberto recentemente como extenso de um hotel local.
       Abbie fora convidada a ocupar o cargo de administradora do centro, mas recusara. Preferia ser sua prpria chefa, estar no comando da prpria vida. Algumas 
vezes isso podia ser bem solitrio, mas era muito mais seguro. E segurana, no que dizia respeito a seus relacionamentos profissionais ou pessoais, era uma coisa 
muito, muito importante para ela.
       Nem mesmo suas melhores amigas podiam chegar perto demais, para evitar que a magoassem de alguma forma, e no que se referia a homens...
       No odiava os homens, dizia a si mesma enquanto subia a escada estreita que levava ao sto, no importava o que alguns deles pensassem. Mas por ter sido 
bastante ferida uma vez, ter sido chamada de mentirosa e coisas piores, no tinha a menor vontade de dar a outro homem a oportunidade de lhe causar o mesmo sofrimento, 
uma segunda vez.
       Por que daria? S se fosse idiota, o que no era. Isso no significava que no houvera momentos... homens por quem se sentira atrada, mas a lembrana da 
dor que Sam lhe infligira sempre a fazia recuar. Ele lhe dissera que a amava, que sempre a amaria, que nunca a magoaria, mas era tudo mentira, e ela acreditara nele! 
Como podia se permitir confiar em outro homem depois disso? E no apenas por si mesma, para sua proteo, mas tambm por Cathy. Permitir ser ferida uma vez era uma 
coisa... era adulta, capaz de fazer as prprias escolhas e pagar o preo por elas, mas Cathy corria um risco maior. Sua filha precisava de amor e segurana.
       Abbie abriu a porta do sto, franzindo o nariz com o cheiro abafado e por causa da poeira. No subia ao sto desde que Cathy sara de casa para ir para 
a universidade. Foi l que conhecera Stuart, que fazia um curso de ps-graduao, e por algum tempo, nos estgios iniciais do relacionamento, Abbie temera que a 
histria estivesse se repetindo.
       Fora Fran, uma de suas melhores e mais antigas amigas, que a advertira de que estava se arriscando a afastar Cathy e prejudicando a relao que tinha com 
ela, ao se tornar quase paranica convencida de que Stuart magoaria a filha, da mesma forma como Sam a magoara.
       - Stuart no  como Sam - dissera Fran, ignorando a recusa de Abbie de discutir o assunto. - E, mesmo se fosse - acrescentara gravemente -, Cathy tem o direito 
de cometer seus prprios erros e fazer as prprias escolhas. Algumas vezes, a coisa mais difcil para uma me  deixar a filha viver a prpria vida - acrescentara. 
- Compreendo como voc se sente com relao a Cathy, todos ns compreendemos, mas ela  adulta agora, Abbie, e est apaixonada...
       - Ela acha que est apaixonada - interrompera Abbie, zangada. - S o conhece h alguns meses e j est falando em se mudar para o apartamento dele e...
       - D a ela uma chance - aconselhara Fran. - D a eles uma chance.
       - E fcil para voc falar - resmungara Abbie. - Suas duas filhas ainda so adolescentes...
       - E voc acha que isso torna as coisas mais fceis? - Fran virou os olhos de forma teatral. - Lloyd e Susie no conversaram Um com o outro a semana toda. 
Lloyd a pegou num beijo apaixonado na porta da frente e, como era de se prever, tornou-se de repente um pai protetor e indignado. E,  claro, Susie est na idade 
em que pensa que  adulta o bastante para tomar suas decises... embora no seja, e ento teve que tornar as coisas piores e disse a Lloyd que fora ela que beijara 
Luke, no o contrrio.
       - Hmm... - Momentaneamente Abbie se esqueceu dos prprios problemas.
       Susie, a filha mais velha de Lloyd e de Fran, era sua afilhada e, na poca, uma voluntariosa menina de 14 anos. Como Michelle, a caula de Fran e Lloyd, herdara 
os belos cabelos vermelhos do pai, e certamente no havia qualquer semelhana, mesmo remota, entre elas e Cathy; se Sam tivesse ficado por perto tempo suficiente, 
seria obrigado a retirar a acusao de que Lloyd era o pai de Cathy.
       Pobre Lloyd! Ainda no conhecia Fran quando ela e Sam se separaram, e tinha sido um amigo maravilhoso nos primeiros meses em que ela ficara sozinha. Chegara 
at mesmo a sugerir, um tanto hesitante, que talvez devessem se casar. Ela recusara,  claro, sabia que no havia amor entre eles, s amizade, mesmo se todos os 
considerassem um casal antes de Sam aparecer na vida dela.
       Ajoelhando-se com dificuldade no nico espao vago que encontrou em meio s pilhas de coisas que cobriam todo o cho, Abbie comeou a tirar objetos da frente 
para chegar s caixas onde havia guardado algumas peas que pretendia entregar  amiga para sua venda de garagem.
       Quando mexeu nos objetos, derrubou uma pilha de livros para crianas. Parou para arrum-los, os olhos se enchendo de lgrimas inesperadas quando reconheceu 
os primeiros livros de leitura de Cathy.
       Como se lembrava bem da emoo maravilhada e da excitao que sentira quando Cathy conseguiu ler a primeira palavra, a primeira frase. Como ficara orgulhosa, 
como tivera a certeza de que sua filha era a menina mais inteligente, mais bonita que j existira, como se sentira humilde por saber que dera  luz aquela criana 
especial, mgica, perfeita, que havia se recusado a jantar e mais tarde fizera birra no supermercado at ficar com o rosto azul!
       O sorriso de Abbie desapareceu quando tambm se lembrou de como era no ter ningum com quem partilhar aqueles momentos especiais, de ter que esperar at 
poder telefonar aos pais para lhes contar as faanhas maravilhosas de Cathy.
       Com firmeza, resistiu  tentao de se entregar  nostalgia. Era uma profissional ocupada, com uma agenda cheia e muito pouco tempo livre; a sonhadora que 
ficava emocionada e com os olhos cheios de lagrimas por causa de cada pequeno incidente de sua vida tinha sido firmemente eliminada e controlada. Outra Abbie tivera 
que se desenvolver e se firmar. Uma Abbie a quem as pessoas respeitavam e, algumas vezes, achavam at um pouco assustadora, uma Abbie que aprendera, por si mesma 
e para si mesma, a lidar com a vida e com todos os seus pequenos e mltiplos problemas...
       Uma Abbie que poderia e iria, se necessrio, lutar como uma tigresa para proteger a filha, uma Abbie que no precisava de sentimentos ou remorsos relacionado 
ao passado, que certamente no precisava de um homem em sua vida para desconfiar dela e mago-la. Engatinhou pelo cho at onde achava que as caixas estavam, praguejando 
quando a poeira a fazia tossir e quando tentava ignorar os sons de pequenas patas que se arrastavam nas telhas acima dela. Pssaros, era tudo... nada com o que se 
preocupar. Alcanou as caixas e puxou a primeira, estendendo a mo para a que estava atrs. Mas a caixa no se moveu, parecia estar presa a alguma coisa. Cerrando 
os dentes, Abbie estendeu mais a mo, at que os dedos se fecharam num pedao de tecido. Soube imediatamente o que era, mas embora a cautela lhe dissesse que o deixasse 
ali e o ignorasse, por alguma razo no o fez. Em vez disso, com os dedos trmulos, puxou com mais fora o tecido, cerrando os dentes quando o ouviu rasgar, at 
que a trouxa de tecido de um branco-acinzentado se libertou do pequeno espao onde o havia guardado.
       Havia sido totalmente branco, os minsculos cristais bordados brilhando tanto quanto o diamante de seu anel de noivado, enquanto danava no provador, se virando 
de um lado e outro, a pele do rosto um rosa delicado, feliz, enquanto esperava que sua me o admirasse.
       Fora uma noiva de contos de fada, ou assim dissera o jornal local, seu vestido de noiva, o sonho de toda menina... e de moas tambm... pelo menos naquela 
poca. Sentira-se uma princesa... uma rainha... quando andara orgulhosamente pela nave da igreja de brao dado com o pai. E quando finalmente Sam erguera seu vu 
depois que o pastor os havia casado, e ela vira a expresso nos olhos dele, sentira-se como se... como se... se sentira imortal, lembrou-se. Adorada, protegida, 
amada... E nunca lhe ocorrera que chegaria um dia em que se sentiria de outra forma, quando Sam no a olhasse mais com aquela mistura de adorao e desejo.
       Como fora ingnua... como... como... fora estpida.
       Sua me, seus pais tinham tentado adverti-la de que estava se casando depressa demais, que ela e Sam mal se conheciam, mas no os ouvira. Eram velhos; haviam 
esquecido como era ser jovem e apaixonada, como era ser desejada, como era querer tanto estar com aquela pessoa nica e especial, que at doa se no estivesse.
       Ela e Sam haviam se encontrado por acidente... literalmente. Ela estava passando de bicicleta por uma parte do campus da universidade, proibida aos estudantes, 
pegando um atalho para chegar a tempo em uma conferncia.
       A princpio, quando batera em Sam, quase o derrubando, presumira que era um estudante... embora no o tivesse reconhecido como aluno de seu curso de histria 
poltica... embora bem mais velho do que ela. E quando rira e ruborizara enquanto pedia desculpas, seu constrangimento no se devia ao fato de que quase o derrubara, 
e certamente no ao fato de que estava fazendo uma coisa proibida, mas pela forma como ele a fizera se sentir, pela forma como seu corpo e suas emoes reagiram 
a ele, pela onda sbita de sensaes que lhe tomaram a mente e o corpo.
       Mais tarde, admitiu a ele que, se a tomasse ali e naquela hora, no meio do quadrado de grama recm-cortada, duvidava que fizesse qualquer tentativa para impedi-lo. 
Este era o tipo de efeito que causara nela, embora na poca fosse ainda virgem e sua experincia com o sexo masculino se limitasse s carcias e aos beijos castos 
de Lloyd.
       Quando descobrira que Sam no era, como presumira, um estudante, mas um recm-contratado conferencista dos clssicos, que acabara de terminar seu doutorado 
em Harvard, ficara completamente envergonhada e chocada.
       Ele lhe fizera um suave sermo sobre andar de bicicleta numa rea proibida e depois a deixara seguir seu caminho, e ela pensara que nunca mais o veria.
       Apenas dois dias depois, ele aparecera em seu alojamento, levando um livro que ela deixara cair da cesta da bicicleta. Lembrava-se de como ficara constrangida 
pelo fato de que ele a encontrara quase chorando por causa de um artigo que estava lendo num jornal.
       O artigo era acompanhado por fotos extremamente comoventes de crianas de olhos srios do Terceiro Mundo, quase mortas de fome, o que levara Abbie a dizer 
apaixonadamente, depois que ele descobrira o motivo das lgrimas, que nunca poderia trazer uma criana ao mundo onde tantas, tantas crianas passavam por necessidades 
to profundas.
       - Acho que voc deve pensar que sou emotiva demais, no ? - perguntara, muito consciente de si mesma quando finalmente conseguiu se controlar, mas ele balanou 
a cabea.
       - No, no acho - disse ele, a expresso sombria. - Por falar nisso...
       Ele nunca terminara o que ia dizer por que uma das colegas de quarto de Abbie entrara correndo para pedir a ajuda dela na procura de um livro que havia perdido.
       Sam recusara seu oferecimento de uma xcara de caf, mas as frias de vero estavam prximas, e para seu assombro, duas semanas depois, quando estava deitada 
no jardim da casa dos pais tomando banho de sol, ele aparecera e a convidara para sair.
       Explicara mais tarde que no se sentira  vontade para convid-la para sair antes, j que ela era estudante e ele conferencista. Quando lhe explicara como 
se sentia desconfortvel em ser considerado o tipo de conferencista que tirava vantagem de sua posio para forar jovens estudantes a ter um relacionamento sexual 
com ele, ela se apaixonara ainda mais por ele. Era to direto, to honesto, to moralista... moralista demais de vez em quando, como na ocasio em que se recusara 
a lev-la para os alojamentos dele e fazer amor com ela.
       - Voc no me quer - acusara ela, chorosa.
       Como resposta, Sam tomara-lhe a mo e a pusera sobre o seu corpo. A rigidez e o tamanho de sua ereo a haviam chocado e excitado, e quando ele vira o modo 
como ficara ruborizada e se recusara a olh-lo nos olhos, rira e depois suspirara, erguendo-lhe a mo gentilmente enquanto lhe dizia, carinhosamente:
       - Compreende,  cedo demais e voc ...
       - No ouse dizer que sou jovem demais - Abbie interrompera, apaixonadamente. - Tenho 20 anos... quase...
       - E eu tenho 26 anos... quase - dissera ele.
       - E uma diferena de apenas seis anos - ela protestara.
       - Voc ainda  virgem, eu no sou - dissera ele, implacvel. - Voc ainda no sabe nada, j eu...
       - Posso aprender. Voc pode me ensinar... - dissera ela intensamente. - Voc...
       Ele fechou os olhos e ento a tomou nos braos.
       - Oh, Deus!, no me tente assim - sussurrara, e sua voz tremia. .. no com uma risada, como ela suspeitara a princpio, mas com um misto de emoes to potencialmente 
assustadoras que ela tambm estremecera de excitao s de pensar nelas.
       Tremera tambm quando a beijara de verdade pela primeira vez, e depois disso, muitas, muitas vezes. Mas no era apenas sexo... desejo entre eles... Abbie 
fechou os olhos enquanto as lembranas ainda dolorosas a engolfavam.
       A primeira vez que Sam beijou Abbie de verdade fora no segundo encontro. Ela mencionara que gostaria de ver a pea de Shakespeare, Sonhos de uma Noite de 
Vero, que estava sendo apresentada tradicionalmente em Stratford, sem pretender insinuar, e certamente sem esperar que ele a convidasse para ir. A pea recebera 
excelentes crticas e ela esperava que seus pais se oferecessem para lev-la, como um presente especial.
       Quando Sam telefonara e lhe dissera que tinha duas entradas e lhe perguntara se queria ir com ele, Abbie ficara sem flego de tanta excitao, ao pensar que 
o veria novamente, que no conseguiu coordenar os pensamentos e lhe fazer qualquer tipo de pergunta lgica ou prtica. Assim, quando ele chegara para apanh-la, 
felizmente um pouco antes da hora, vestido com a elegncia formal de um smoking, ela abriu a boca com um suave 'Oh!' de surpresa, enquanto os olhos registravam a 
plena e feminina aprovao de sua elegncia sensualmente masculina.
       - Pensei que poderamos ir jantar em algum lugar depois da pea - sugerira, tanto para os pais dela como para ela, que percebera, observando enquanto sua 
me sorria, aprovando, e o pai tossia e murmurava alguma coisa sobre ter certeza de que podia confiar que Sam a levaria de volta para casa numa hora decente.
       Felizmente, vestidos de algodo longos, de saias amplas, estavam na moda naquele ano e serviam para tudo, desde uma sada casual para uma bebida at ocasies 
mais formais. O dela era novo, uma suave mistura de tons de verde que acentuavam sua pele clara e os cabelos louros e combinavam com seus olhos de uma forma espetacular... 
ou, pelo menos, fora isso que a vendedora da loja lhe dissera. Tinha um decote redondo alto, sem mangas, e um corte nas costas, o algodo macio caindo numa saia 
leve em forma de A.
       A bonita echarpe de seda branca, que a me fora buscar depressa no quarto para lhe emprestar, dera ao vestido uma aparncia mais formal e elegante, e Abbie 
se lembrou de como ficara ruborizada at as pontas das orelhas e encolhera os dedos nos sapatos quando sentia a perigosa reao de seu corpo ao modo como Sam olhara, 
oh!, to rapidamente, para seu corpo, de tal maneira que a fez sentir que sabia que, sob o algodo fino do vestido, seus seios estavam nus, seus mamilos estavam 
endurecendo e empurrando suavemente o tecido fino...
       Era mais de uma hora de viagem de carro at Stratford, e na primeira meia hora Abbie apenas ficara sentada num silncio maravilhado, excitada e encantada 
demais com a proximidade de Sam para tentar conversar.
       Mais tarde, conseguira relaxar bastante para comentar que aquele fora um lindo dia, e Sam respondera, igualmente srio, que sim, tinha sido, e que, no resto 
da semana, o tempo prometia ser igualmente bom. E lhe perguntara, de forma casual, se ela havia tomado banho de sol.
       - Sim - respondera, acrescentando que precisava ter muito cuidado ao tomar sol, porque sua pele era muito clara e sensvel. Nunca, admitira com tristeza, 
teria aquele maravilhoso bronzeado que outras moas pareciam adquirir com tanta facilidade e que estava na moda.
       Naquele momento eles estavam num trecho deserto da estrada, e Sam a olhara gravemente antes de reduzir a velocidade do carro, estender a mo e passar gentilmente 
a ponta dos dedos por todo o seu brao nu.
       Foi um gesto que a deixou trmula de prazer mesmo antes de ele lhe circular o pulso com os dedos e ergu-lo at os lbios para acariciar o sensvel lado interno, 
onde a pulsao rpida era visvel bem sob a pele.
       - Sua pele, como voc,  perfeita do jeito que  - dissera ele, a voz rouca, o olhar de novo nos seios dela por um breve momento, e ela tivera uma viso chocantemente 
viva da cabea morena curvada sobre sua nudez, enquanto a boca sugava um dos mamilos sensveis e depois o outro.
       Desviara os olhos dele rapidamente, um pouco temerosa de que se o olhasse nos olhos ele pudesse ler seus pensamentos.
       A intensidade de seu desejo por ele ainda era uma coisa com a qual ela no se sentia confortvel. Por consentimento mtuo, ela e Lloyd haviam concordado que, 
embora continuassem amigos, amigos era o que ambos queriam ser; ainda saam juntos de vez em quando e gostavam muito da companhia um do outro, mas no precisara 
de provas para admitir para si mesma que, por mais que gostasse de Lloyd como pessoa, teria sido um erro para ambos se tornarem amantes, o que os prenderia num relacionamento 
que no chegaria a lugar nenhum.
       Descobrira isso pela forma como se sentia com relao a Sam. Nada a preparara para sua reao fsica to intensa a um homem, ou sua crescente dependncia 
emocional dele.
       J sentia um pouco de medo por estar correndo o risco de se apaixonar por ele. O que mais poderia explicar sua imediata e irresistvel atrao por ele?
       Fora uma perfeita noite de vero, o ar doce e fresco, e a sensao do brao de Sam em sua pele nua, quando a ajudara com a echarpe e caminharam do carro para 
o teatro, era deliciosamente excitante e sensual.
       Muito consciente dos olhares interessados e apreciativos que Sam atraa da metade feminina ds outros casais que tambm se dirigiam para o teatro, Abbie se 
sentira orgulhosa e exultante por ele a ter escolhido para aquele encontro, assim como um pouco temerosa de que alguma outra mulher pudesse tentar afast-lo dela. 
Era, afinal, um homem extraordinariamente atraente: alto, os ombros largos, a indicao de msculos bem delineados sob o smoking de corte perfeito, os cabelos escuros 
espessos e saudveis, seus brilhantes olhos azuis alegres, calorosos e cheios de mensagens silenciosas que ela tivera um pouco de medo de interpretar.
       A descoberta de que havia comprado um camarote para eles fez Abbie olhar para ele com assombrada maravilha.
       - Pedi champanhe para ns - sussurrou Sam quando foram levados at o camarote. - Espero que goste...
       - Adoro - mentiu Abbie, sem querer admitir que as nicas vezes em que havia provado a bebida fora em casamentos, e apenas meia taa.
       Seus pais a princpio haviam ficado bem inquietos quando, pouco depois de fazer 18 anos, Abbie arranjara um emprego em um hotel local, servindo as mesas no 
restaurante, mas ela insistira que queria a independncia de sentir que estava contribuindo para a prpria manuteno, embora soubesse que os pais tinham dinheiro 
e estavam mais do que dispostos a sustent-la durante a faculdade.
       Quando safra de casa para fazer sua graduao, no lhes contara que trabalhara meio expediente em um pequeno bar local, sentindo que eles ficariam preocupados.
       Agora sabiam, mas tambm sabiam que Abbie evitava bebidas alcolicas. Por um lado, era muito caro, por outro, no suportava bem a bebida. Mas morreria antes 
de confessar a Sam que o champanhe que ele lhe servira pouco antes do comeo da pea era seco demais para seu paladar ainda pouco educado e que j estava fazendo 
sua cabea girar levemente.
       Durante o intervalo, ele lhe tomara a mo e lhe perguntara se estava gostando, e depois acrescentara, de forma um pouco spera:
       - Eu no devia estar fazendo isso. Voc compreende, no ? Ela no sabia exatamente o que ele queria dizer at ouvir a explicao:
       - Voc no devia entrar em minha vida assim, no agora...  cedo demais e no estou preparado, mas como, meu Deus, algum pode estar preparado para...? Voc 
ainda  to jovem! - gemeu, enquanto removia a taa de champanhe das mos trmulas de Abbie e a abraava.
       - E a ltima coisa de que preciso  da espcie de confuso que me apaixonar por voc vai trazer para a minha vida. Planejei tudo com tanto cuidado! - sussurrou 
contra os lbios dela, enquanto a acariciava gentilmente com a boca, atormentando-a com leves, delicados beijos que, por algum motivo, fizeram-lhe o sangue correr 
mais depressa sob a pele, e o aperto das mos de Sam em seus pulsos enquanto a mantinha afastada do corpo dele se tornou to forte que quase a machucou.
       - Desculpe, desculpe - ele sussurrou, cheio de remorso, enquanto erguia cada pulso at a boca e os beijava com delicadeza. -  culpa sua eu estar me sentindo 
assim... me comportando assim. Sempre me considerei um homem sensato, de cabea fria, cauteloso e lgico demais para me envolver em... Voc me fez compreender que 
no me conheo nem um pouco.
       - Voc no pode estar apaixonado por mim - ela protestou, trmula, mas seus olhos revelaram seus sentimentos e viram a forma como os dele refletiam esse conhecimento.
       - No, no posso, posso? - disse ele, com um pouco de rejeio a si mesmo na voz. - Afinal, mal a conheo... voc mal me conhece, e no fomos para a cama 
ainda. Como posso estar apaixonado?
       Enquanto olhava para ele, as inibies esquecidas pelo champanhe que bebera e pela fora das prprias emoes, disse-lhe:
       - Nunca... nunca fui para a cama com ningum. Mas... mas sei que quero ir para a cama com voc, Sam... quero que seja com voc, Sam... quero que seja voc 
- terminou, a voz suave e trmula.
       E foi ento que ele a beijou de verdade pela primeira vez, dentro do camarote. Beijou-a com os braos  volta dela, apertando-a, o corpo pressionado no dela, 
a boca firme e quente sobre a dela, a lngua acariciando-lhe os lbios, exigindo que se abrissem para ele enquanto ela estremecia de emoo e excitao, ansiosa 
para lhe dar qualquer coisa, tudo, apenas para ele nunca mais afastar a boca da dela.
       Mais tarde, no se lembrara do resto da pea nem da ceia, apenas sabia que tudo isso acontecera. Tudo de que se lembrara era do quanto queria estar a ss 
com Sam, do quanto ansiava por ele; como se sentira quando gentilmente a convencera a saborear a sobremesa que pedira e que ento se sentira incapaz de comer; como 
erguera a colher para a sua boca, observando-lhe os lbios quando ela os abrira, e o rosto ficara ruborizado enquanto seu corpo e seus sentidos reconheciam a sensualidade, 
a sexualidade do que ele estava fazendo, embora ainda no conhecesse uma intimidade to intensa.
       Naquela noite, e nas noites que se seguiram, ele a levara diretamente para casa, mas ento, na quinta-feira, perguntara-lhe como seus pais se sentiriam se 
a convidasse para passar o fim de semana com ele...
       - Quando? - perguntara apenas, sem flego.
       - Eu a pegarei amanh de manh.
       O telefone tocou, mas, embora ouvisse, Abbie estava ainda perdida no passado, e no se moveu para atender. No queria se lembrar de tudo isso, disse a si 
mesma, angustiada, no queria reviver tudo... experimentar de novo toda a dor. Nem mesmo com a distncia segura dos anos e do conhecimento que a separavam dele. 
Mas era tarde demais para sufocar as lembranas, tarde demais para impedir a mar poderosa que a envolvia.
       Por favor, no, protestou silenciosamente, mas sabia que no adiantava. J se permitira lembrar demais, e agora teria que suportar o que ela mesma comeara. 
Com o corpo trmulo, fechou os olhos e se entregou.
       
       
       
     Captulo Dois
       
       
       - No posso acreditar neste clima maravilhoso, e a meteorologia diz que a onda de calor vai durar pelo menos mais uma semana...
       Quando Sam virou a cabea para olhar para ela, Abbie percebeu, indignada, que ele estava rindo dela. Ele a apanhara em casa meia hora antes, recusando-se 
com firmeza a lhe contar para onde estavam indo enquanto guardava a mala dela no porta-malas do carro.
       Tivera uma sensao um pouco estranha ao ver sua mala ao lado da dele, o corao excitado falhando uma batida.
       - Por que est to nervosa? - perguntara Sam ento.
       - No estou nervosa - negara Abbie, mentindo.
       - Oh, sim, voc est. Sempre fala sobre o clima quando est nervosa...
       - No, no falo - protestara Abbie, e ento olhou para ele e o corao desmanchou, junto com seus nervos e as dvidas de ltima hora sobre o que estava fazendo.
       - No tenha medo - dissera Sam gentilmente, o riso desaparecendo dos olhos, substitudo por uma emoo que fizera o corao dela bater apressado. - Ningum 
vai obrigar voc a fazer nada que no queira...
       - Mas eu quero - dissera Abbie, ento ruborizara fortemente e tentara corajosamente corresponder a seu olhar quando ele a olhou diretamente nos olhos, rezando 
para que no a atormentasse mais perguntando o que voc quer? Ele no o fez, mas o olhar que lhe dirigira era mais explcito e excitante do que qualquer palavra.
       Ainda no podia acreditar que ele a quisesse tanto... que estava, como lhe dissera, perigosa e completamente apaixonado por ela.
       Uma vez, durante a viagem, quando se voltara para olhar para ele, seus olhos se abriram muito ao ver a forma como as mos dele apertavam o volante, enquanto 
ele dizia, rouco, implorava:
       - Por favor, no fique me olhando assim. Se continuar, vou ter que parar o carro e tom-la nos braos e beij-la at faz-la desmaiar, e quando eu comear...
       Abbie sentira todo o corpo e o rosto comearem a queimar com o calor do que estava sentindo. Pudera sentir, ver como ele estava perigosamente perto de perder 
o controle, e, ao lado da sua sensao instintiva de deslumbramento e medo virginal, tambm experimentara uma onda intensa de poder e prazer feminino, ao compreender 
que podia ter um efeito assim to grande sobre ele.
       Ento ele dissera:
       - A primeira vez que fizermos amor, quero que seja perfeito para voc, numa cama alta, com colches macios e travesseiros de pena, num quarto que tenha o 
perfume de rosas e de vero. Quero ver a luz do sol no seu corpo, no alto de um torreo, em algum lugar onde possamos ficar completamente sozinhos, tendo apenas 
os sons da natureza e do universo vivo, respirando, em torno de ns, chegando a ns atravs de janelas estreitas de trelia. Bem, bem abaixo de ns haver um rio, 
largo e lento, a gua mansa e clara, e no poo que o rio forma nadaremos juntos sob a luz da lua, e ento faremos amor de novo, na margem gramada, ainda quente do 
sol. A luz da lua transformar seu corpo em prata. Seguirei o caminho dele com minhas mos e com meus lbios. Seu corpo receber o meu com uma doce mistura de inocncia 
paga e da sabedoria que existe em todas as mulheres, um dom, mas especialmente em seu corpo. Sua pele ser fresca e sedosa como seda, e apenas a coruja que caa 
e o cu noturno nos ouviro quando gritarmos com o xtase quase insuportvel da nossa necessidade mtua.
       - Pare... pare... - sussurrara Abbie, trmula. Todo o seu corpo estava em fogo de excitao e desejo por ele, e ela teve um impulso louco e urgente de lhe 
pedir para parar o carro e fazer amor com ela ali mesmo.
       Sentira uma necessidade dolorosa dele bem no interior do corpo, uma pulsao que levara uma onda quente de cor  sua pele. A que distncia ficava o hotel 
para onde ele a levava? Quanto tempo at... ?
       - Est com fome? Gostaria de parar em algum lugar para uma bebida e alguma coisa para comer? - perguntara Sam dez minutos depois.
       A pergunta prosaica, depois da seduo sensual de suas palavras, desconcertou Abbie. Balanou a cabea em sinal de negao, sem confiar em si mesma, sabendo 
que se sentia incapaz de falar. Certamente ele sabia, tinha que saber, que o nico alimento de que ela precisava era ele; s tinha apetite por ele.
       Tais pensamentos loucos e abandonados ainda lhe eram desconhecidos e se sentiu tmida, segurando o flego e evitando olhar diretamente para ele.
       Ento a estrada comeara a subir; o campo mudava. Estavam, reconheceu Abbie, passando pelas fronteiras de Gales, uma parte selvagem, quase paga, do campo 
que ele sempre achara incrivelmente romntica.
       Aqui nesta terra, antigamente chamada Fronteiras Galesas, que ainda guarda as cicatrizes visveis de sua histria medieval em seus castelos antigos, no era 
difcil visualizar os cavaleiros em armadura que uma vez patrulharam estas fronteiras, nem imaginar que se podia ouvir o distante som de ao contra ao, os gritos 
misturados dos feridos e dos vitoriosos, imaginar, enquanto o carro passava, as fendas estreitas e arruinadas dos castelos nos quais quase se podia ver um rosto 
plido, feminino, com uma touca larga, vigiando ansiosamente.
       - Este  um daqueles lugares onde o passado parece muito, muito prximo, no ? - comentou Sam, a voz baixa, ecoando to de perto seus pensamentos que estremeceu, 
consciente de como estavam conectados, de quanto pareciam partilhar alm e acima da urgncia de seu desejo sexual um pelo outro.
       Era ainda jovem demais para se apaixonar completamente e para sempre, para se comprometer com um homem, com um relacionamento para toda a vida, mas suspeitava 
que era exatamente isso que acontecera. No era tarde demais para mudar de idia, para fazer parar o que estava acontecendo, confortara-se; ainda havia tempo.
       - Estamos quase chegando - dissera Sam.
       O hotel era uma coisa sada de um conto de fadas, construdo num vale arborizado quase magicamente perfeito, as paredes de pedra creme, no estilo eduardiano 
de manses, to irresistvel como o castelo da Bela Adormecida, de Walt Disney. Uma jia de tirar o flego, com seus torrees de pedra creme claro e telhados recortados 
de tijolos cobertos de lquen verde, contra um cenrio de impressionantes e suaves colinas protetoras, cobertas de rvores verdes, cercado por gramados imaculados 
e canteiros de flores que desciam em patamares at o rio que corria no fundo do vale. Tiveram que atravessar uma ponte sobre o rio para chegar aos portes principais 
do hotel e depois subiram um caminho em curva, calado de pedras de cor creme. O hotel s se tornou completamente visvel no ltimo minuto, e Abbie apenas viu partes 
dele enquanto a estrada para o vale descia em curvas pelas colinas em torno.
       - ... ... - Ela olhara para Sam quando ele parar o carro no estacionamento discretamente escondido nos fundos do hotel, que evidentemente fora uma casa 
particular no passado.
       Enquanto olhara os delicados torrees, Abbie se lembrara de como ele havia descrito a primeira vez em que fariam amor. Pensara ento que estava apenas usando 
a imaginao, mas agora...
       - Um dos conferencistas me falou sobre este hotel - ouvira-o dizer suavemente, respondendo  pergunta silenciosa. - Ele trouxe a esposa aqui para festejar 
suas bodas de prata.
       Ficou em silncio por alguns segundos e continuou:
       - A casa foi construda por uma rica herdeira como um esconderijo onde podia se encontrar com o amante. Ela era de famlia nobre, com ligaes com a famlia 
real, e destinada a um casamento arranjado. Seu amante era de um crculo social diferente, nunca teriam permisso para se casar, mas todos os veres ela vinha para 
c para ficar com ele. Quando ele morreu, ela fechou a casa, incapaz de suportar viver aqui sem ele. Deixou a casa de herana para a famlia dele.
       - Que coisa horrvel - protestou Abbie. - Duas pessoas se amarem assim por toda a vida e, no entanto, jamais poderem ficar juntas, partilharem seu amor, sempre 
mant-lo em segredo... - Ela estremeceu de repente.
       - O que  que est errado? - perguntou Sam, preocupado.
       - Nada - ela mentiu.
       Como poderia lhe dizer que a histria que contara lanara uma pequena e fria sombra sobre sua felicidade, que sentia que, de algum modo, o lugar, apesar de 
belo, era assombrado pela infelicidade de uma mulher obrigada a ocultar seu amor e neg-lo publicamente?
       Era como se, de alguma forma, a infelicidade dela ameaasse sua alegria... como se seu amor florescente estivesse em perigo.
       Seus pensamentos eram ridculos, dissera a si mesma com severidade, especialmente quando Sam tivera tanto trabalho para tornar seus primeiros dias juntos 
to especiais e memorveis.
       - Estaria certa se dissesse que voc reservou um quarto num dos torrees para ns? - brincara, tentando eliminar a sensao de tristeza e inquietao e sorrindo 
alegremente para ele.
       - Por que voc pensaria isso? - brincara ele de volta, enquanto tirava as malas do porta-malas e o trancava.
       No fora apenas um quarto que reservara para eles, descobriu Abbie dez minutos depois, era uma sute completa, com dois quartos.
       Quando olhou para ele, uma pergunta nos olhos depois que o carregador deixara a sute, explicara com calma:
       - No quis que voc se sentisse pressionada de modo algum.
       - No me sinto - dissera Abbie com igual seriedade, seus temores anteriores completamente esquecidos, quando a excitao de estar com ele a dominara e seu 
corpo comeara a reagir com familiaridade  proximidade dele.
       - Quero que sejamos amantes, Sam - dissera, a voz trmula. - Quero isso mais do que... quero voc mais do que imaginara que algum dia pudesse querer um homem. 
Eu o quero tanto que di... aqui - dissera sem flego, tocando o pequeno monte de seu osso pbico. - Aqui, onde...
       Deixara escapar um pequeno arquejo meio de protesto quando o resto do que ia dizer foi sufocado pela forte presso do beijo de Sam.
       Abbie comeara a tremer e a se arrepiar de prazer enquanto seu corpo respondia  paixo dele. Segurou-se nos ombros dele, os olhos opacos e o rosto vermelho 
com a intensidade de seu desejo, to forte quanto o dele.
       Sam afastou a boca da dela para olh-la nos olhos, a mo emoldurando-lhe o rosto, o toque abenoadamente frio contra a pele quente. Os sentidos de Abbie eram 
estranhamente sintonizados nele, e quase pudera ouvir a batida forte do corao de Sam, assim como ver o rpido movimento de seu peito enquanto respirava. Sentira 
o calor que emanava do corpo dele ir embora, ao contrrio do dela, no to obviamente visvel, apenas uma onda de cor em sua face e o cheiro quente, almiscarado, 
de sua excitao.
       Abbie se perguntara, tonta, se a prpria pele, o prprio corpo, tinha o mesmo cheiro tambm sexualmente estimulante para ele. Respiraria ele o cheiro que 
seu desejo criara, ansiaria para pressionar os lbios, a boca aberta, em seu pescoo, seus seios, seu ventre... suas coxas?
       Um pequeno som, meio protesto, meio xtase, prendera-se na garganta de Abbie, levando Sam a lhe acariciar o rosto ternamente e acalm-la, dizendo-lhe suavemente:
       - Est tudo bem, prometo que no h nada a temer. Tentarei no fazer nada depressa demais...
       - No estou com medo - interrompera Abbie, o corpo tremendo tanto quanto a voz. - Pelo menos, no de voc... - Os olhos haviam escurecido, a boca tremia ligeiramente 
enquanto continuara, rouca: - Tenho medo do que sinto, Sam, de como me sinto. Do quanto... de quo intensamente. Estou com medo de perder o controle sobre mim mesma 
e me perder no que sinto... de querer voc tanto...
       - Eu sei, eu sei - gemera Sam, tomando-a nos braos, a cabea dela repousando em seu peito enquanto a balanava gentilmente. - Sinto da mesma forma, e ainda 
mais. Tenho medo de no ser capaz de lhe dar o prazer que quero lhe dar, de no conseguir me controlar, de ficar to excitado a ponto de no poder me controlar...
       - Voc gostaria que eu no fosse virgem? - perguntara Abbie, trmula.
       Sentira-o se mover enquanto lhe emoldurava o rosto novamente e olhava para ela.
       - Por que diabos voc pensa isso? - perguntara, rouco. - Sabe o quanto adoro o fato de que tenha me escolhido para ser seu primeiro amante? Mesmo quando me 
sinto meio apavorado de desapont-la. De forma egosta, gosto de saber que voc no est me comparando, querendo, talvez, que eu seja outro homem.
       Impedira o protesto que Abbie estivera prestes a fazer e dissera, advertindo-a:
       - Sou um homem, Abbie, com tudo o que isso implica... possessivo, at ciumento de vez em quando, e quero que minha mulher seja exclusivamente minha. Sei... 
sei que, depois que for minha, jamais aceitarei que outro homem a toque... a ame. Depois que for minha... Tenho 26 anos e tenho experincia sexual, mas quando se 
trata de amor, quando se trata de amor, sou to virgem como voc, minha doura. Isso afasta voc de mim?
       Os olhos brilhantes de Abbie haviam lhe dado a resposta.
       - Deus, no olhe pata mim assim - gemera. - No agora, no ainda. Planejei um passeio pelos jardins. O hotel  famoso por eles, e vamos tomar ch  tarde 
no gramado, um comeo relaxante de noite juntos, jantar com champanhe e...
       Abbie lhe puxou a camisa com impacincia e ergueu a boca para a dele.
       - Beije-me, Sam - implorara, rouca. - Por favor, por favor, me beije.
       Dez minutos depois, deitados na cama, as roupas dela... as roupas deles... jogadas por todo o quarto, Abbie o olhara ansiosamente, enquanto ele observara 
o corpo nu dela. Esta fora a primeira vez que a vira sem todas as roupas, e ela tivera que suprimir um impulso instintivo de cruzar os braos sobre os seios e de 
se virar de costas.
       Ele tambm estava nu, mesmo quando tivera que parar de sussurrar instrues a ela e terminar a tarefa ele mesmo. Seu corpo a emocionara e excitara, e at 
mesmo a maravilhara, lembrando-a que, aos 26 anos, Sam no era um menino, mas um homem.
       Vira Lloyd usando sunga para nadar vezes incontveis durante os anos, vira o corpo dele se desenvolver, do de um adolescente desajeitado para um musculoso 
rapaz de 19 anos, mas o corpo dele no se parecia com o de Sam. De modo algum se parecia com Sam, que tinha ombros to largos e o ventre achatado, e pelos no peito 
que eram...
       Abbie pudera sentir o calor aumentando em seu corpo enquanto reconhecia o que aquela suave cobertura de pelos escuros fazia com ela. Queria estender a mo 
e toc-los com as pontas dos dedos, acarici-los, esconder neles o rosto e respirar seu cheiro, lamber e beijar a pele que cobriam e, se tivesse coragem suficiente, 
deixar a mo e os lbios passearem ao longo do caminho reto e escuro at seu destino final. Perguntara-se se Sam gostaria ou ficaria chocado com seu abandono, com 
seu desejo de tocar e sentir q sabor da essncia puramente masculina dele.
       Mas percebera que naquele exato momento era Sam quem .i observava, estudava, tocava, e sentiu uma forte contrao em m:u pescoo quando as pontas dos dedos 
dele afastaram os longos cabelos e traaram a forma delicada de sua omoplata.
       Para seu desconforto, vira e sentira que seus mamilos j estavam rijos e altos, doendo, os seios, geralmente pequenos e macios, subitamente muito, muito mais 
endurecidos e cheios.
       Perguntara-se se Sam gostava deles. Pensaria que eram pequenos demais, os mamilos infantis demais... rosados e macios, ainda os de uma virgem e no os de 
uma mulher?
       Tinha experincia sexual, dissera, e...
       Ficara um pouco tensa quando ele tomara um seio na mo, e ento erguera a cabea para observar, insegura, a expresso nos olhos dele.
       - So perfeitos - dissera ele, a voz grossa e indistinta como mel, respondendo  pergunta que ela no fizera.
       - Eles so perfeitos - repetira, a voz ainda mais rouca enquanto abaixava a cabea e beijava suavemente o mamilo rijo, quente, abrigado por sua mo, e ento 
o beijara de novo, com muito menos suavidade, muito, muito menos gentilmente, mas, oh, oh, dando-lhe tanto prazer, reconhecera Abbie enquanto ele lentamente puxava 
o mamilo rijo para dentro da boca e ento o sugava, devagar, roando-o com a lngua, fazendo-a sentir... fazendo-a querer.
       Gemendo suavemente, ela se comprimira contra ele, querendo que ele repetisse a carcia, querendo sentir novamente aquela onda quente de prazer que o gesto 
lhe causara e que se irradiara do centro do seio para seu ventre, seu tero, seus quadris e para aquele lugar secreto, especial, que havia explorado de leve nos 
anos do incio de seu despertar sexual, intrigada e, no entanto, atemorizada pela conscincia levemente sentida de sua capacidade para o prazer.
       Instintivamente, erguera a mo para segurar a cabea de Sam contra o seio, arquejando com nova excitao quando o sentiu acariciando-lhe o ventre, o toque 
abalando-lhe as terminaes nervosas, atormentando-a, fazendo-a segurar a respirao e se perguntar se ousaria estender a mo e empurrar a dele para baixo, ou se... 
E ento ele se moveu ligeiramente, um brao sob ela para ergu-la, a outra roando de modo displicente nos pelos macios e louros que lhe cobriam o sexo.
       Ficara tensa imediatamente, o corpo rgido pela onda quente de prazer que a invadira. Vira Sam congelar e soube que estava olhando para ela. Quando erguera 
os olhos para ele, vira-o estremecer, todo o corpo enrijecido enquanto respirava fundo e perguntava, rouco:
       - J... voc j me quer?
       Ela no precisara responder. A mo dele, as pontas de seus dedos hbeis e, oh!, to gentilmente atormentadoras, tocando-a, abrindo os grandes lbios de seu 
sexo, acariciando-a, sentindo a quente umidade do corpo dela  espera do dele, e a forma ansiosa como se pressionava contra a mo dele, implorando silenciosamente 
que a tocasse mais intimamente, que eliminasse a dor que ele mesmo causara dentro dela com a carcia rtmica que seu corpo desejava com tal urgncia.
       Quando no o fizera, sentira seus dentes rangendo. A mo dele ainda lhe cobria o sexo protetoramente, mas no era isso que queria. O que queria era...
       Deixara escapar um pequeno gemido de protesto quando a soltara, estendendo a mo para um dos travesseiros e colocando-o sob seus quadris.
       - Isso tornar tudo mais fcil, melhor - dissera ele, suavemente.
       Ela percebera que as mos dele tremiam, e a parte mais sensvel do corpo dele estava rija e ereta. Quando a viu, quisera estender a mo e passar os dedos 
amorosamente por toda a superfcie de pele esticada. A viso do sexo dele, a viso dele, dera-lhe uma deliciosa, perigosa sensao de prazer.
       - Dobre os joelhos - instrura Sam, mostrando-lhe o que queria ao se ajoelhar entre suas coxas abertas e, antes que ela percebesse o que ele pretendia fazer, 
abaixara a cabea e delicadamente roara o rosto contra seu sexo macio.
       A sensao da lngua se movendo de forma a acarici-la, fizera um grito lhe subir involuntariamente  garganta. Automaticamente, Abbie tentara sufoc-lo, 
mas no fim tivera que dar voz  sua ex-citao sexual e ao seu prazer, enquanto Sam continuara delicadamente a acariciar o centro mais ntimo de seu corpo, movendo-se 
cada vez para mais perto do pequeno boto de carne que j estava pulsando e doendo de forma to atormentadora. Precisava senti-lo profundamente dentro dela, movendo-se 
dentro dela, lentamente, a princpio, e ento...
       - Sam... Sam - protestara, engasgada. - No posso... no... por favor... agora... eu... quero voc. Quero voc dentro de mim... bem profundamente dentro de 
mim. Agora, agora... agora. Quero voc agora... sempre e para sempre. Quero...
       Abbie arquejara quando o cntico do seu desejo fora subitamente interrompido pela presso da boca de Sam na dela, a lngua penetrando-a e se retirando dos 
lbios dela, enquanto as mos a seguravam, guiavam-na, amenizavam os movimentos frenticos do seu corpo, enquanto ela se arqueava para encontrar e receber a invaso 
cuidadosamente protegida de seu corpo.
       Fora exatamente como ela desejara, de forma lenta e doce. Um prazer longo, langoroso, o corpo embriagado de prazer sensual, os sentidos mergulhados no calor 
e na sensao dele dentro dela, de como at o modo como a tenso dele se ajustava dentro dela era um prazer fsico adicional, enquanto o exortava a mergulhar mais 
profundamente, cada vez mais profundamente, encontrando, de alguma forma, o conhecimento de envolver as pernas em torno dele e segur-lo, mover-se junto com ele.
       Tivera um orgasmo antes dele, gritando de prazer, e ento mais tarde chorando nos braos dele, quando o total impacto emocional do que acontecera a dominara.
       Haviam passado quase todo o fim de semana fazendo amor, no quarto e, como lhe sussurrara no carro a caminho do hotel, na margem gramada do rio, ao luar.
       Quando o fim de semana chegou ao fim, ambos souberam que no havia como recuar, que o amor que sentiam um pelo outro era mais poderoso do que qualquer coisa 
que haviam experimentado antes, era poderoso demais para ser ignorado ou controlado.
       - No queria que fosse assim - dissera-lhe Sam. - Voc  to jovem... jovem demais...
       - Podemos ser apenas amantes e... - comeara Abbie, mas ele a interrompera imediatamente
       - No... - dissera de forma spera, e, ento, com mais suavidade: - No  isso que quero; voc sabe, Abbie, isso no  apenas sexo.  sobre... sobre encontrar 
a mulher com quem quero passar o resto da minha vida.  sobre amar voc to intensamente para sempre querer voc ao meu lado e nunca deixar que v embora.
        Um amor assim pode no ter sido o que planejamos, mas...
       - Leve-me de volta para a cama - sussurrara, a voz trmula de desejo. - Ainda temos tempo antes de viajar...
       
       Casaram-se trs meses depois, apesar dos apelos dos pais dela para esperar e da afirmao dogmtica de Lloyd de que ela era uma idiota por se amarrar to 
jovem. Lloyd e Sam no gostavam um do outro. Lloyd sentira que Sam estava apressando-a a se casar e Sam, para divertido e secreto prazer de Abbie, tinha intenso 
cime de Lloyd, e parecia incapaz de acreditar que nunca acontecera nada entre eles a no ser a mais inocente afeio de um rapaz por uma moa.
       - Voc diz isso agora, mas ele a ama e voc deve ter sentido alguma coisa por ele, de outra forma no teria sado com ele por tanto tempo.
       - Somos amigos,  tudo - dissera Abbie, olhando-o amorosamente.
       Mas vira que ele no ficara totalmente convencido.
       Quatro meses depois de se conhecerem, estavam casados, e dois meses depois Abbie descobrira que estava grvida.
       Alguns meses de felicidade... uma felicidade to intensa que Abbie, tola, acreditara que nada poderia abal-la ou destru-la. Mas estava enganada, e a dor 
que sofrera por causa desse equvoco fora muito, muito mais intensa do que o prazer que o precedera.
       Deixara-a marcada e danificada, incapaz de se arriscar a confiar de novo em um homem, e detestando o ex-marido com um dio que ainda queimava nela hoje com 
a mesma intensidade com que a queimara tantos anos atrs, quando ele a olhara atravs da cozinha da bonita casa que comprara para eles perto da universidade e lhe 
dissera rispidamente:
       - Voc est grvida? Mas no pode estar,  impossvel.
       
       
       
     Captulo Trs
       
       
       - Impossvel. .. o... que... o que quer dizer? - gaguejara Abbie, o rosto plido com o choque e a incredulidade.
       Ficara to feliz quando o mdico confirmara o que secretamente j suspeitava: havia concebido um filho de Sam. Ainda no haviam conversado sobre constituir 
uma famlia, mas naturalmente esperara que tivessem filhos.
       Se suas contas estivessem certas, teria tempo suficiente para terminar a faculdade antes do nascimento do beb. Rira alto quando sara do consultrio, o rosto 
brilhando de amor e -alegria enquanto guardava o prazer da notcia para si mesma.
       Mal podia esperar para contar a Sam. Ele seria um pai maravilhoso. Podia v-lo agora, suas grandes mos segurando o filho deles. Esperava que fosse um menino... 
pelo menos o primeiro.
       Podiam transformar um dos quatro quartos no quarto do beb. Tudo bem, ela talvez no comeasse a carreira que planejara, mas Sam ganhava mais do que o suficiente 
para sustentar os dois... todos eles, consertara, e pelo menos teria seu diploma.
       Enquanto o beb, os bebs, fossem pequenos, queria ficar em casa para cuidar deles, mas mais tarde, embora ela estivesse positivamente velha, perto dos 30 
anos, poderia, se quisesse, comear uma carreira... mas apenas se no interferisse na vida familiar. Seu marido e seus filhos sempre estariam em primeiro lugar.
       Sentira-se to feliz que temera explodir. Quisera ir at Sam na mesma hora para lhe dar a maravilhosa notcia, mas ele estaria bem no meio de uma conferncia 
e, alm disso, quisera t-lo s para ela quando...
       Grvida... um beb... o beb de Sam. Era a mulher de mais sorte do mundo inteiro!
       De repente, sentiu-se faminta. Sardinhas... sardinhas com torrada; era o que queria... sim, e ento uma enorme barra de chocolate.
       Naturalmente, teria que comear a comer com muito cuidado. Agora tinha que pensar no beb, advertira a si mesma com severidade, mas agora, hoje, podia se 
dar ao luxo de ser indulgente consigo mesma... exatamente como quando o beb fora concebido. Deu uma risada. Quando o mdico lhe perguntara se tinha alguma idia 
de quando a concepo ocorrera, ela franzira o cenho.
       - Qual foi a ltima vez que fez sexo? - ele perguntara, paciente.
       - Esta manh - respondera prontamente, e ento ruborizara, quando percebeu o que ele queria saber.
       - Er... no tenho certeza. Pode ter sido... minha menstruao no veio h trs semanas, na data em que esperava...
       Estava tomando a plula, mas estivera to ocupada que esquecera de tomar por duas noites consecutivas. O beb estava destinado a ser concebido... exatamente 
da maneira como ela e Sam haviam se encontrado... exatamente como o amor deles. Oh!, Deus, se sentira to feliz... to, mas to feliz...
       - Quero dizer que  impossvel que voc esteja grvida... pelo menos no de um filho meu - dissera Sam, a voz cheia de raiva.
       Abbie olhara para ele em muda incredulidade. Seu rosto, que estivera ruborizado de excitao e felicidade, agora estava completamente branco. O de Sam, por 
outro lado, demonstrava toda a raiva dele na cor escura que lhe manchava a face e no queixo contrado.
       - O que quer dizer, no de seu filho? Isso  alguma espcie de brincadeira? - sussurrara Abbie, confusa.
       No soubera o que Sam quisera dizer; no pudera compreender o que ele dissera. Como podia seu beb, o beb deles, no ser dele.  claro que era dele... deles. 
Que diabos estaria tentando lhe dizer? Se isso era alguma espcie de jogo...
       Ansiosamente estudara-lhe o rosto, mas no vira sinais de bom humor ou de diverso, pelo contrrio.
       - Uma brincadeira? Meu Deus, gostaria que fosse - dissera Sam rispidamente. - Voc no pode estar esperando um filho meu, Abbie, porque no posso lhe dar 
um filho. Fiz vasectomia.
       - Voc fez o qu? No pode ter feito. No sem me contar. Nem sem...
       - Fiz h muitos anos, quando estava na ndia com o VSO1. Estava trabalhando numa pequena aldeia; um jovem da minha idade que conheci l, o filho do chefe 
da aldeia, que decidira cuidar de mim, me disse que pretendia fazer uma vasectomia. Fiquei chocado a princpio, me perguntando por que diabos pensaria numa coisa 
dessas, mas ento ele me levou para um passeio em Bombaim e me mostrou a quantidade de crianas abandonadas, porque seus pais no tinham condies de aliment-las. 
Explicou-me a economia bsica do que acontecia no mundo com bocas demais para alimentar, quando a prpria Terra no podia sustent-las. Ento me perguntou: "O que 
 melhor? Impedir a concepo agora, ou esperar at ter um, quatro, sete filhos... e v-los morrer lentamente de desnutrio?" O que ele me disse, o que me mostrou, 
me chocou, me fez compreender que gerar uma criana, quando havia tantas, tantas crianas no mundo passando as necessidades mais bsicas, era um ato de egosmo que 
apenas prejudicaria ainda mais aquelas crianas pobres, ento decidi tambm fazer a vasectomia.
       Abbie olhou-o fixamente.
       - Voc est mentindo - disse, a voz sem expresso.
       - No - negou Sam. -  voc quem est mentindo, Abbie, quando alega estar grvida de um filho meu.
       Abbie passara a lngua nos lbios, nervosa. No conseguira acreditar que isso estivesse acontecendo. Como poderia? Como poderia no estar grvida do filho 
de Sam quando ele... ? Lgrimas lhe encheram os olhos, um misto de angstia, raiva e pnico explodindo dentro dela.
       - Voc devia saber que eu gostaria de ter filhos e, no entanto, se casou comigo sem me contar que no podia me dar nenhum. Por qu? Por que...?
       - Acreditaria em mim se dissesse que estava to apaixonado por voc... Queria voc to desesperadamente que o pensamento de filhos ou qualquer outra coisa 
que no fosse nosso amor simplesmente no me ocorreu? E, para sua informao, eu no sabia que voc queria filhos. Pensei que talvez partilhasse dos meus sentimentos, 
sobre o mundo no ser capaz de sustentar as crianas que j existem. Nunca discutimos isso.
       - Porque nunca houve tempo... nunca houve necessidade, mas voc tinha que saber... tinha que ter compreendido...
       - Por qu? - perguntou Sam, mais rspido. - Porque  o que todo mundo faz... todo mundo quer?
       - Voc mentiu para mim... me enganou - chorara Abbie. O olhar que ele lhe lanara era cheio de desprezo amargo.
       - E voc no fez o mesmo comigo? Diga-me uma coisa, Abbie - exigira, enfurecido. - Quanto tempo exatamente depois de eu ter voc, foi para a cama dele? Um 
ms, uma semana... menos?
       - O qu... O que voc quer dizer? No fui... - protestou Abbie, indignada, o rosto vermelho quando compreendera o que ele estava dizendo.
       Como ousava acus-la de dormir com outro homem? Como ousava acus-la de qualquer coisa?
       - Oh, vamos, no banque a inocente.  um papel muito pouco adequado para voc, no acha? Pode ter se imaginado aparentando ser para mim e para o resto do 
mundo uma jovem e inocente madona, mas voc realmente  pouco, muito pouco melhor do que uma prostituta, fingindo que seu bastardo  filho de outro... ou, antes, 
tentando, mas infelizmente para voc, no vai funcionar. Imagino que  dele. O querido e maravilhoso Lloyd? Eu o vi saindo daqui uma noite, logo antes de eu chegar 
em casa. J sabe que est esperando o filho dele? Ele...
       - No estou esperando o filho de Lloyd - negara Abbie, chocada.
       O que estava Sam tentando insinuar? Ela e Lloyd nunca tinham sido amantes. S de pensar em ter um relacionamento sexual com ele provocava o mesmo horror que 
sentiria se fosse, na verdade, seu irmo. Ela e Lloyd eram grandes amigos, sim, no havia nenhum interesse sexual entre eles. Lloyd simplesmente a visitara para 
conversar sobre alguns problemas que tinha na universidade. Demorara-se mais do que pretendia e ento tivera que correr, sem esperar para cumprimentar Sam.
       Que Sam ou qualquer outra pessoa considerasse, mesmo remotamente, que ela e Lloyd tinham um caso e que, ainda pior, estava tentando fazer passar o filho dele 
como filho do marido, era uma idia to ridcula que na mesma hora, mais uma vez, se perguntara se Sam estava tentando fazer algum tipo de brincadeira bizarra com 
ela.
       Ele gostava de implicar com ela de vez em quando, sabia, porque, ou assim ele dissera, adorava ver a cor rosada que lhe tomava o rosto quando o fazia. Mas 
at agora certamente no mostrara nenhuma inclinao para fazer com ela o tipo de brincadeira sem graa, elaborada e cruel, como negar o prprio beb. Tinha certeza 
de que jamais faria alguma coisa desse tipo, no combinava com ele. Mas, na verdade, no o conhecera por muito tempo. E, assim como presumira que teriam filhos, 
confiara cegamente em sua gentileza e ausncia de qualquer trao de crueldade ou malcia.
       Mas, certamente, saberia, sentiria, adivinharia se...
       Mas no soubera que ele tinha feito uma vasectomia, no ? E se ele achara que no precisava lhe dar uma informao to vital sobre si mesmo, que outras informaes 
vitais tambm poderia estar escondendo?
       - V... voc no pode acreditar que Lloyd e eu sejamos outra coisa que no amigos - gaguejara, engasgada. - Eu lhe disse...
       - Por que no? Algum tem que ser o pai dessa criana que voc pensou que poderia fazer passar por minha...
       - Mas voc  o nico homem com quem j dormi... - O nico homem que j amei, podia ter acrescentado. Mas por alguma razo evitara dizer aquelas palavras. 
Falar de amor naquelas circunstncias no seria apenas extremamente doloroso, seria quase um sacrilgio.
       - Sei como voc  quente na cama... afinal, tive provas mais do que suficientes disso - acrescentou, cruelmente..- Mas se eu no a satisfazia, devia ter dito...
       - Sam, por favor, no - interrompera Abbie, a voz fugindo enquanto lhe estendia a mo, mas ele recuara, uma reao to intensa de frio desprezo nos olhos 
dele a afastou fisicamente.
       - Pensei que voc fosse perfeita, maravilhosa, um sonho que se transformara em realidade. Disse a mim mesmo que era o homem mais sortudo do mundo... perguntava-me 
o que fizera para merecer tanta sorte. Mas todo o tempo voc era uma miragem... uma falsificao.
       Enquanto o ouvia, Abbie subitamente sentira que estava olhando para um estranho, um estranho que no se parecia em nada com o homem com quem se casara, o 
homem que ela amava. Aquele Sam tinha sido caloroso e gentil, compassivo e amoroso. Este Sam era cruel e frio, furiosamente indiferente a seus sentimentos. .. indiferente 
a tudo que no fosse aquilo em que decidira acreditar. Acusara-a de mentir para ele, mas, enfurecida, Abbie decidira que fora ele quem a enganara.
       Como ousava falar com ela em termos sexualmente to desdenhosos? E se fora sexualmente ansiosa, bem, isso tinha sido simplesmente porque... porque o amara 
demais.
       Amara-o..?
       Enquanto Abbie o olhara atravs do espao que os separava, um sentimento intenso de dor e raiva a dominou.
       - No me importo com o que diz, Sam - dissera com calma. - Nunca fui infiel a voc.
       - No,  claro que no - desdenhara. -  claro que a criana que est esperando  minha...
       - No - dissera Abbie suavemente. - No, Sam. A criana no  sua. O beb... meu beb  exatamente isso... meu.
       Quando ela se virara e caminhara em direo  porta, ele exigira:
       - O que est fazendo? Para onde est indo?
       - Vou subir para fazer as malas - dissera com corajosa dignidade -, e vou embora.
       - Abbie...
       - O qu? Voc lamenta? Retira tudo o que disse?  tarde demais, Sam. Compreenda, mesmo se me dissesse agora que no queria dizer nada daquelas coisas horrveis 
que acabou de dizer, mesmo se jurasse que me ama, que me quer e quer nosso... meu beb, no acreditaria em voc. Saberia que est mentindo, me enganando... exatamente 
como me enganou por omisso sobre sua vasectomia. No foi apenas o direito de nosso beb ao seu amor e proteo como pai que voc destruiu, Sam, foi tudo. Minha 
confiana, minha f, meu amor. Mas sabe o que di mais? - perguntara, os olhos brilhando de lgrimas, as quais Abbie era orgulhosa demais para deixar rolar. - O 
que di mais no foram as coisas cruis que me disse sobre mim... as mentiras... o que di mais  que voc nunca parou para se perguntar se podia estar errado... 
se podia ter se enganado... se haveria alguma forma...
       - Porque eu sei que  impossvel - interrompera ele asperamente. - No  possvel que voc tenha concebido um filho meu.
       - No? No  isso que meu corpo diz - dissera ela com calma. - Mas no precisa se preocupar com isso, Sam. Na verdade, prefiro que no se preocupe. A partir 
de agora, quero que fique fora da minha vida, como pretendo ficar fora da sua. A partir de agora, no que me diz respeito, voc simplesmente no existe. Bem apropriado, 
no acha? Quando nosso beb... meu beb... perguntar sobre o pai, apenas direi que ele no existe.
       - Abbie...
       Ela pudera ouvir a nota de apelo desesperado sob a raiva na voz dele, mas no lhe dera ouvidos. Acabara... chegara ao fim... Como poderia ser de outra forma?
       Colocara a mo sobre o ventre enquanto se afastava dele e sussurrara suavemente:
       - No se preocupe, meu precioso beb. Eu amo voc... sempre amarei voc.
       Contara  famlia e aos amigos que no queria nada mais com Sam, nada mais com seu casamento. Dissera a todo mundo, com um calmo distanciamento, que, sabia, 
surpreendera e desconcertara um pouco aqueles que pensavam que a conheciam, que seu beb e a segurana dele, o futuro dele, era tudo com que se preocuparia agora. 
Sua antiga personalidade amvel, ansiosa por agradar, parecera ter mudado da noite para o dia, e se tornara forte, gelada.
       O calor e a paixo, a intensidade, que haviam sido parte to intrnseca de sua natureza amorosa, emotiva, foram firmemente abolidos enquanto assumia o novo 
papel que a natureza... e Sam... lhe haviam imposto.
       Quando Sam tentara falar com ela para "conversar sobre as coisas", recusara-se a v-lo. Informara aos pais que no queria nada dele. A casa, a moblia, os 
presentes de casamento... no queria nada daquilo.
       Seus pais, preocupados, perguntaram como ela se arranjaria. Sozinha, com um beb... Naturalmente, teria a ajuda deles, seu apoio, mas...
       - Descobrirei um jeito - dissera ela, determinada.
       Sam quisera lhe dar uma penso, mas ela recusara e dissera a seu advogado:
       - No quero a caridade dele, no quero nada dele.
       - Mas voc est esperando o filho dele - lembrara o advogado gentilmente.
       - No - negara Abbie, a voz sem emoo. - Esta criana  minha, s minha.
       Nada, nem ningum conseguiu persuadi-la a mudar de idia. Seus pais ficaram chocados pelo trao implacvel de determinao revelado em sua filha at ento 
gentilmente malevel.
       Nem para eles, nem para ningum poderia confessar que, durante aquela terrvel briga com Sam, quando a acusara de esperar o filho de outro homem, de ser infiel 
a ele e de romper no s seus votos matrimoniais, mas os votos de amor que fizera nos braos dele naquela primeira noite que haviam passado juntos, alguma coisa 
dentro dela havia sido destruda, simplesmente parar de funcionar... havia sido quebrada e jamais poderia ser consertada.
       Jamais quisera que fosse consertada, porque no queria nunca mais sofrer uma dor como a que Sam lhe infligira. Jamais...
       No incio fora difcil, e seus pais ficaram horrorizados quando ela insistira em continuar a trabalhar num bar local at o ltimo ms da gestao enquanto 
vivia com eles, j que no tinha para onde ir.
       Sam fora ameaado com uma ordem judicial se tentasse v-la. Mais tarde, soubera por meios indiretos que ele pretendia deixar o pas para trabalhar numa universidade 
australiana. Ficara surpresa pela prpria falta de reao  notcia, simplesmente no sentira nada. No fim da gravidez, uma grande sensao de calma a invadiu, uma 
sensao de objetivo, uma necessidade de dirigir sua vida unicamente para a chegada de seu beb.
       Embora at ento nada tivesse dito aos pais, pretendia encontrar, assim que pudesse, um pequeno apartamento em algum lugar, que alugaria para si mesma e para 
o beb. No queria depender dos pais para sempre, embora fossem amorosos e protetores. J conversara com a gerente do bar sobre voltar ao trabalho assim que pudesse 
e trabalhar por mais horas. Sabia que no seria fcil, mas tambm sabia que, de alguma forma, encontraria uma soluo...
       Precisava encontrar, pelo bem do beb.
       Precisava e encontraria.
       - Me, me, onde voc est?
       Abbie levou um pequeno susto ao perceber por quanto tempo ficara sentada n cho empoeirado do sto. O corpo estava frio e com cimbras, a cabea cheia das 
velhas lembranas. Rapidamente escondeu o vestido de casamento no lugar em que o encontrara, encolhendo-se enquanto os msculos enrijecidos protestavam com o movimento, 
e respondeu a Cathy:
       - Estou descendo, Cathy. Coloque a chaleira no fogo, sim, querida?
       
       
       
     Captulo Quatro
       
       
       - Onde voc estava? Liguei duas vezes e ningum respondeu, por isso decidi vir aqui - disse Cathy enquanto Abbie descia depressa para a cozinha.
       - Estava no sto - explicou Abbie. - Por esse motivo no ouvi o telefone.
       - No sto? O qu...? Me, voc est bem? - perguntou Cathy, ansiosa, a preocupao lhe escurecendo os olhos quando se voltou para ver a me.
       -  claro que estou bem - respondeu Abbie. - Por que no estaria?
       - Nenhum motivo, s que... olha, voc no est aborrecida com o que eu disse antes, est? - perguntou Cathy. - No tive a inteno de aborrec-la. Sei... 
sei que no gosta de falar sobre papai...
       - Oh, Cathy,  claro que no estou aborrecida - Abbie respondeu, com remorso, aproximando-se para abraar a filha amorosamente. - Sei como deve ser difcil 
para voc, querida, especialmente agora, quando voc e Stuart esto planejando seu casamento. Sei que no foi fcil para voc crescer sem um pai, sabendo que, o 
seu... que ele... Se fui brusca quando mencionou o nome dele, sem dvida foi apenas porque voc poderia ter pensado que viu algum parecido com ele, mas no pode 
ter sido Sam. Ele jamais voltaria para c. Sabe que eu nunca o perdoaria pelo que fez e sabe que no tem lugar em nossas vidas. Ele desistiu de todos os direitos 
quando negou que voc  filha dele.
       - Sei o quanto ele a magoou, me - ouviu Cathy dizer, numa voz abafada. - Mas deve ter sido um choque para ele tambm, descobrir que voc estava grvida quando 
acreditava que isso no era possvel. Stuart diz que qualquer homem ficaria chocado e...
       - "Stuart diz?" - perguntou Abbie, soltando a filha e recuando um passo para olhar o rosto dela.
       Seu corao doeu quando viu o modo como o olhar de Cathy fugiu do dela, o rosto ligeiramente ruborizado, a expresso defensiva, o que Abbie nunca vira antes.
       - Me, no quero mago-la, mas...
       - Ento vamos esquecer esse assunto - interrompeu Abbie, gentilmente. - O fato de que seu pai no tem lugar em nossas vidas foi escolha dele, lembre-se. De 
qualquer maneira, o que exatamente voc est fazendo aqui? - perguntou com a voz serena. - Pensei que voc e Stuart iam procurar uma casa esta tarde.
       Cathy se mudara para o pequeno apartamento de solteiro de Stuart meses atrs, mas ambos concordavam que queriam comear sua vida de casados numa casa que 
escolhessem juntos. Stuart estava na afortunada posio de ter um bom emprego numa firma local de contabilidade, e os pais dele j haviam anunciado que seu presente 
de casamento seria uma soma substancial para ajud-los a comprar a casa.
       Abbie, embora nada tivesse dito  filha, suspeitava que a famlia de Stuart se surpreendera com sua reao inicial ao noivado, aconselhando o jovem casal 
a no se apressar em se casar.
       Abbie reconhecia que aos olhos deles, e aos olhos da maioria das pessoas, Stuart era um excelente candidato a marido, com seus antecedentes de uma famlia 
estvel e um futuro financeiramente seguro.
       - Sim, ns vamos - concordou Cathy calmamente. - Mas queria ver voc primeiro. Me... - Cathy comeou a falar, mas Abbie a interrompeu, advertindo-a:
       - Parece que  o carro de Stuart, Cathy, e eu tambm tenho que correr. No percebi como me demorei no sto e tenho uma reunio com Dennis Parker dentro de 
uma hora...
       - Onde, no hotel? - perguntou Cathy, ansiosa.
       - Mmm... Cathy, o que ? - perguntou Abbie, mas o telefone comeou a tocar e Stuart j estava batendo na porta dos fundos.
       - Telefone mais tarde e me conte como foi a procura pela casa - disse Abbie, beijando-a amorosamente antes de lhe dar um pequeno empurro na direo da porta 
dos fundos e ento correndo para o hall, para atender o telefone.
       Ainda estava sorrindo para si mesma, ligeiramente triste, meia hora depois, quando saiu do chuveiro e comeou a se enxugar. Cathy era uma jovem to amorosa, 
to carinhosa... todos diziam isso. Era tpico da filha se preocupar em ter aborrecido a me ao falar no assunto do pai.
       Esperava que Stuart e a famlia dele compreendessem a sorte que ele tinha em se casar com ela, e que ele tivesse o cuidado de nunca magoar Cathy, como Sam 
a magoara. 
       O sorriso se transformou num franzir da testa quando se lembrou do que Cathy dissera quando repetira o comentrio de Stuart sobre Sam. Talvez, refletiu Abbie, 
fosse apenas natural que Stuart visse o que acontecera de uma perspectiva masculina... do ponto de vista de Sam. Mas...
       Mas o qu? Mas no gostara de ouvir Cathy repetindo os comentrios de Stuart? Sua filha tinha que crescer e se afastar dela algum dia, lembrou a si mesma, 
no podia continuar a ser uma menina para sempre. Ela e Stuart estavam muito apaixonados, e como qualquer jovem apaixonada, era apenas natural que comeasse tantos 
comentrios com a expresso "Stuart diz", pelo menos por enquanto. Ela, como me de Cathy, precisava aprender a cerrar os dentes e a se segurar em seu senso de humor... 
e nas lembranas de como se sentira quando Cathy fora para a escola pela primeira vez e comeara quase todas as conversas afirmando: "A sra. Johnson diz."
       Esta era a reao que esperava cada me, disse Abbie a si mesma. Talvez mais em casos como o dela, em que, como me solteira, com uma filha s, sabia que 
o relacionamento entre ela e Cathy tinha sido muito prximo.
       Tinha sido.
       Abbie suspirou quando foi para o quarto pegar uma lingerie limpa.
       Antes de ir para a universidade, Cathy freqentemente implicara com ela sobre seu hbito de andar nua pela casa, este era um dos benefcios de viver sozinha 
ou com outra mulher, reconheceu Abbie enquanto pegava uma calcinha branca e a vestia sobre seus quadris invejavelmente esguios. No desperdiava tempo pensando sobre 
seu corpo; desde que fosse saudvel e funcionasse adequadamente, estava satisfeita.
       O pensamento de achar necessrio ser sexualmente atraente a enchera de repugnncia nos primeiros anos depois da traio e desero de Sam, e se sentira tomada 
por uma desconfiana amarga de praticamente todos os homens. Mas, recentemente, isso se tornara alguma coisa que encarava com uma atitude crtica distante, quando 
ouvia as amigas da mesma idade comeando a lamentar o fim da juventude.
       Este era apenas mais um dos benefcios de viver sem um homem; o fato de agora ter mais de 40 anos no causava o menor desconforto a Abbie.
       Quando pessoas comentavam com admirao, como freqentemente faziam, que ela no parecia ter nem de perto a idade que tinha, geralmente respondia que, ao 
contrrio, parecia ter exatamente a idade que tinha e que, se se dessem ao trabalho de olhar em volta e usar os olhos, veriam que a maioria das mulheres de 40 anos 
pareciam exatamente o que eram: seres humanos adultos, no auge da maturidade e freqentemente com muito mais a fazer do que quando eram jovens, no fim da adolescncia 
ou no comeo dos 20 anos. E se o sexo masculino no lhes dava valor, ento o problema era deles.
       Embora, para ser justa, tenha admitido, enquanto vestia uma saia preta justa que chegava no meio da panturrilha e depois um top creme, que os homens estavam 
comeando a perceber que mulheres na casa dos 40 anos ainda eram sexualmente muito atraentes e seres humanos ativos... percebendo demais, no que dizia respeito a 
ela.
       Mais homens tentavam se aproximar dela depois que fizera 40 anos do que na dcada anterior, incluindo alguns que, suspeitava, eram bem mais jovens do que 
ela.
       No que tivesse interesse em algum deles.
       Olhou as horas no relgio de pulso enquanto o colocava. No queria se atrasar para a reunio com Dennis. Tinham estabelecido um bom relacionamento de trabalho 
na poca em que ele era o encarregado do mais prestigiado hotel da cidade e ambos eram, de maneiras diferentes, perfeccionistas no que se referia a trabalho. Abbie 
o considerava estritamente um colega de trabalho, mas, como Fran lhe dissera, brincando, mais de uma vez, Dennis agarraria com as duas mos qualquer oportunidade 
de transformar o relacionamento entre eles em alguma coisa mais pessoal.
       - De jeito nenhum - dissera a Fran, com firmeza.
       - No pode continuar com medo para sempre, Abbie - aconselhara Fran com gentileza.
       - No tenho medo - negara Abbie. - Apenas no vejo razo para me envolver num relacionamento que no quero.
       - Mas, certamente, deve haver momentos em que... - comeara Fran.
       - Em que o qu? - interrompera Abbie. - Em que precise de um ombro amigo para chorar? De um homem em quem possa me apoiar? Sexo? - Sacudira a cabea vigorosamente. 
- No. Nunca. No tenha pena de mim, Fran - advertira, compreendendo corretamente a expresso dela. - Com certeza, no sinto pena de mim mesma. A ltima coisa que 
quero  qualquer tipo de complicao emocional na minha vida.
       - Ele deve ter magoado muito voc... o pai de Cathy - dissera Fran, solidria.
       - No - dissera Abbie, sem emoo. - Eu magoei a mim mesma ao acreditar nele quando ele disse que me amava.
       Enquanto observava o rosto no espelho, verificando se a maquiagem estava bem, Abbie decidiu que, embora outras pessoas pudessem pensar que ela parecia jovem, 
quando se comparava a Cathy certamente podia ver a diferena entre elas.
       Os olhos azul-esverdeados ficaram sombrios por um momento. Cathy mencionara Sam muitas vezes nos ltimos meses, fazendo-lhe perguntas sobre ele, introduzindo 
o nome dele nas conversas... Influncia de Stuart, suspeitava Abbie.
       Nunca fizera segredo dos fatos sobre seu casamento e seu rompimento, respondendo a todas as perguntas que Cathy lhe fazia, amenizando as respostas de acordo 
com a conscincia emocional da idade que tinha quando fazia as perguntas.
       Cathy sabia o que havia acontecido, como Sam virar as costas para elas duas.
       Perturbava-a saber que Cathy pudesse ter imaginado que o vira. Naturalmente, isso era impossvel, mas ficara abalada ao perceber, pelo tom de voz de Cathy, 
que ela pudesse querer t-lo visto.
       Pensara ter tido sucesso em ser me e pai para Cathy at agora, at ver a expresso nos olhos de Cathy quando falara de seu pai... seu pai. Sam nunca fora 
um pai para Cathy.
       - Abbie...
       Abbie sorriu, recuando um pouco quando Dennis se aproximou para cumpriment-la, gentilmente o afastando com a mo estendida para evitar o beijo que ele claramente 
pretendia lhe dar.
       - Voc me disse que queria me falar sobre o pessoal extra de que vai precisar no perodo do Natal e Ano-novo - lembrou ela gentilmente.
       - O qu? Oh, sim... sabe, Abbie - disse ele ansiosamente -, voc  a mulher mais impressionantemente atraente que eu...
       - No a mais, com certeza - brincou Abbie levemente, mas seus olhos enviavam uma mensagem de advertncia, lembrando-lhe que no estava ali para flertar.
       - Est bem - desistiu Dennis. - Ento vamos falar de negcios. Pensei que poderamos conversar durante o jantar, se estiver bem para voc. Temos um novo chefe,...
       - Eu sei - interrompeu Abbie. - Treinado pelos melhores, de acordo com meus informantes. Foi um golpe de sorte...
       - Um golpe dispendioso - concordou Dennis. - Mas h muitos bons restaurantes na regio, e a ltima coisa que queremos  que os hspedes do hotel saiam para 
comer em outro lugar porque no podemos fornecer a eles uma refeio de primeira classe.
       - As pessoas, muitas vezes, acham que restaurantes de hotel no tm a intimidade de um lugar menor.
       - Mmm. Eu sei - concordou Dennis, enquanto a levava do foyer para o restaurante. - Mas tenho esperanas de que, ao oferecer um preo especial para nossos 
jantares danantes nas noites de sbado, possamos atrair mais pessoas e que, depois de provarem a comida de David, elas queiram voltar. Precisa me dizer o que pensa 
da comida. 
       - No se preocupe, direi - riu Abbie. O restaurante estava confortavelmente ocupado para um jantar de meio de semana, mas o hotel tinha mais hspedes durante 
a semana do que nos finais de semana, principalmente homens e mulheres de negcios.
       - Como vai o centro de diverses? - perguntou Abbie enquanto se sentavam e o garom lhes apresentava o cardpio.
       - Muito bem - respondeu Dennis.
       - Voc tem muita competio e seus preos so muito altos comentou Abbie.
       - Sim, mas tambm temos uma instalao melhor, estacionamento grtis e uma certa exclusividade...
       - Mmm, mas voc pode estar cobrando preos acima do mercado - advertiu Abbie enquanto fazia o pedido ao garom.
       Ento Abbie abordou o assunto da reunio:
       - Quantas pessoas a mais acha que vai precisar? - perguntou enquanto esperavam pelo jantar. - E, lembre-se, j que vo trabalhar no Natal e no Ano-novo, e 
especialmente j que a maioria  composta de mulheres jovens, espero que lhes d a garantia de que tero transporte para ir para o trabalho e voltar para casa.
       - Eles tero acesso ao servio gratuito de nibus do nosso pessoal regular.
       Abbie balanou a cabea.
       - Isso no  o bastante, Dennis. No quero que nenhuma das minhas moas tenha que caminhar at os pontos dos nibus e depois voltar andando para casa quando 
descerem na volta. Teriam que andar sozinhas no escuro e tarde da noite. Ter que fazer melhor do que isso; sabe como me sinto sobre esta questo...
       - Certamente eu sei - gemeu Dennis. - Tem alguma idia de quanto custa um servio para pegar cada membro da equipe em casa?
       - Tem alguma idia de quanto custa para uma mulher jovem quando  sexualmente perseguida ou pior? - argumentou Abbie severamente, enquanto balanava a cabea 
e lhe dizia com firmeza:
       - No, Dennis, insisto nisso. No permitirei que nenhum membro da minha equipe trabalhe em turnos noturnos sem a garantia de transporte para casa,
       - S posso fazer isso se lhes oferecer um pagamento menor - advertiu Dennis.
       - Bobagem - denunciou Abbie, provando a comida. - Mmm, isso  bom - disse ela -, e estou feliz por seu chef compreender que o apelo aos olhos no  suficiente 
quando se trata de comida. Admito que estou cansada de pratos artisticamente arrumados de alimentos meio frios e sem gosto, e gostei de ver que voc incluiu no cardpio 
uma boa escolha de pratos vegetarianos, no apenas a obrigatria omelete.
       - Estamos recebendo cada vez mais pedidos desses pratos, e uma das especialidades do novo chefe uma ampla variedade de comida feita com a preocupao pela 
sade. Mas, mudando de assunto, tem planos para o Natal este ano? - perguntou Dennis.
       Abbie sacudiu a cabea, negando.
       - E como est o planejamento para o casamento? - Dennis falou depois que o prato principal foi servido. 
       - No est - admitiu Abbie, aborrecida.
       - Bem, voc sabe que se decidir fazer o caf-da-manh do casamento aqui, podemos oferecer um bom preo.
       - Sim - concordou Abbie.
       A me de Stuart j tinha dito que seria uma boa idia fazer a recepo do casamento em seu grande jardim, e Abbie tivera que reconhecer para si mesma que 
provavelmente ela estava com a razo. O nico problema era que achava que, se tivesse a oportunidade, a me de Stuart, apenas pelos melhores e mais generosos motivos, 
podia querer assumir toda a responsabilidade pela organizao do casamento.
       As duas irms de Stuart j estavam casadas, e Abbie tinha que admitir que a me de Stuart sabia como organizar um casamento perfeito. Mas Cathy era filha 
dela e ela...
       Ela o qu?, perguntou a si mesma, secamente. Sentia cime... afastada... seu lugar usurpado.
       Se pensasse bem, saberia que devia estar mais do que grata aos pais de Stuart por seu oferecimento no s de planejar o casamento, mas de pagar por tudo.
       Certamente, no teria meios para arcar com as despesas de uma ocasio to brilhante e cara como eles poderiam organizar, apesar do sucesso de seu negcio, 
que era modesto em comparao com os recursos financeiros dos pais de Stuart.
       E vira a leve expresso hesitante nos olhos de Cathy quando sugerira organizar a recepo do casamento no hotel.
       - No seria muito frio, annimo? - perguntara Cathy, insegura.
       - Talvez - concordara Abbie, o corao apertando. - Mas vocs ainda tm muito tempo para pensar sobre isso, querida, afinal, ainda no marcaram a dada.
       - No, eu sei, mas a me de Stuart diz que os melhores lugares so reservados com muita antecedncia e que no casamento de Gina tiveram que mudar a data duas 
vezes porque no conseguiram contratar o servio de fornecimento de alimentos que queriam, e ento a florista s a atendeu porque fizera o casamento da prima de 
Gina.
       Cathy fizera uma pausa, a expresso ansiosa:
       - A recepo para ela foi naquele hotel fabuloso. Fica a meia hora de distncia daqui de carro e, pelo que Gina disse,  maravilhoso.  um hotel pequeno, 
que j foi uma residncia particular. Foi construda por uma aristocrata muito rica para se encontrar com o amante...
       Abbie sentira o estmago comear a revirar com uma mistura de choque e espanto, enquanto Cathy continuara a descrio. Sabia exatamente a que hotel Cathy 
se referia, embora, naturalmente, no tivesse contado  filha. Apenas disse, tentando cortar a conversa:
       -  longe demais, Cathy... mais de uma hora de carro e...
       - Apenas meia hora - corrigira Cathy. - A extenso da estrada passa a poucos quilmetros do hotel. Mas voc tem razo,  claro, est fora de questo.  extremamente 
caro.
       - No se preocupe, querida - garantira Abbie, arrependendo-se da reao. - Seu casamento tambm ser especial, prometo a voc.
       - Eu sei, me - concordara Cathy, abraando-a. - Afinal, o que importai com quem vou me casar, o modo como nos sentimos um em relao ao outro.  apenas... 
- franziu o nariz ligeiramente. - Bem, no posso deixar de sentir de vez em quando que a me de Stuart acha que Stuart poderia ter uma noiva melhor. Ela nunca diz 
nada, mas...
       - Bobagem. Stuart  um jovem de muita, muita sorte - dissera Abbie com firmeza.
       - Voc s est dizendo isso porque  minha me - rira Cathy.
       - E a me de Stuart est apenas dizendo o que diz porque  a me dele - afirmara Abbie. - Todas as mes querem o melhor, o melhor de tudo... para seus filhos, 
e isso  apenas natural. Mas nunca se esquea de que voc /a melhor, Cathy. Jamais permita que qualquer um a faa se sentir de outra maneira, e se Stuart no sabe 
disso, se no sabe que voc  melhor do que a melhor, ele no merece voc.
       - Oh, me - fora a resposta meio chorosa de Cathy.
       - Sabe, aquele comentrio que fiz sobre voc mais cedo - murmurou Dennis, invadindo-lhe os pensamentos enquanto se debruava sobre a mesa em direo a ela. 
- Bem, no olhe agora, mas h um homem sentado a uma mesa  sua esquerda que evidentemente pensa exatamente a mesma coisa. No tirou os olhos de voc a noite toda.
       - Acho que isso  um grande exagero - disse Abbie secamente, e obedeceu  advertncia para olhar sem virar muito a cabea, sentindo apenas uma leve curiosidade.
       O homem sentado  mesa que Dennis indicara olhou diretamente para ela, a expresso incompreensvel.
       Abbie sentiu a sala comear a girar perigosamente em torno dela, seu corpo gelado com o choque quando se viu olhando diretamente nos olhos imediatamente reconhecveis 
do ex-marido: o homem que, jurara to recentemente  filha,  filha deles, jamais voltaria. O homem que lhe roubara o amor, partira-lhe o corao e chegara perto 
de lhe destruir a vida.
       Abbie fixou o olhar nele, seu rosto, seu corpo, seus pensamentos transformados em pedra, incapaz de funcionar nem mesmo num nvel bsico, incapaz de desviar 
os olhos, de se mover, de fazer qualquer coisa.
        distncia, ouviu um som levemente familiar, e ento Dennis se levantou, praguejando baixinho enquanto se desculpava.
       - Desculpe, Abbie, algum est me chamando no celular. , melhor eu descobrir o que h de errado. Voltarei o mais depressa possvel. Se quiser o carrinho 
de sobremesas...
       Embora Abbie o ouvisse, estava completamente incapacitada para responder. O choque a erguera numa onda gigantesca de gelo, jogando-a num lugar totalmente 
desconhecido e aliengena. Conhecia o ambiente em que estava e, no entanto, no o conhecia, no sabia como havia sido invadido, conquistado, possudo por aquele 
homem que devia estar do outro lado do mundo.
       - No...
       Quando ouviu a fraca negativa lhe passar pelos lbios, Abbie viu Sam se levantar lentamente e, ainda lhe segurando o olhar, comear a caminhar em sua direo.
       Queria se levantar, correr, escapar antes que fosse tarde demais, mas por alguma razo simplesmente no conseguia se mover.
       -Abbie...
       A voz era grave e familiar, de uma forma que lhe causou dor. Comeou a tremer da cabea aos ps, como se cada parte fsica sua respondesse  rouca ressonncia 
da voz dele. Mas se um dia chegou a tremer de paixo e amor, hoje tremia de choque e raiva.
       Como ousara fazer isso com ela? Como ousara estar ali? Como ousara simplesmente aparecer no meio do mundo dela... da vida dela? E, principalmente, como ousara 
simplesmente caminhai em direo a ela como se... como se...?
       - Abbie...
       Ele quase no mudara, reconheceu, e, no que mudara, fora para melhor. Parecia ainda mais devastadoramente masculino e sensual do que antes. Seus cabelos ainda 
eram densos e quase to escuros como antes, e os pequenos toques de prata que apenas comeavam a aparecer em meio aos cabelos escuros eram mais uma atrao adicional 
para sua beleza masculina e magntica.
       A pele era bronzeada, o corpo sob o terno caro e sofisticado se movia com a mesma facilidade, com a mesma masculinidade de que se lembrava, e seus olhos eram 
exatamente to brilhantes e azuis, sua boca...
       Por favor, Deus, no me deixe desmaiar, rezou Abbie desesperadamente, no aqui, no agora.
       Enquanto lutava contra os sentimentos misturados de pnico e raiva que borbulhavam nela, Abbie o via chegar cada vez mais perto. Perto demais! No podia deixar 
que visse o efeito que lhe causava, ou o quanto a perturbara, a desconcertara. Precisava, a todo custo, parecer calma e indiferente  sua presena. Precisava.
       Ele ergueu uma das mos como se fosse toc-la e, sem perceber o que estava fazendo, Abbie ficou em p, recuando, afastando-se dele enquanto protestava freneticamente:
       - No... no chegue mais perto, no fique perto de mim... no me toque...
       Sabia que as pessoas estavam olhando para eles, que o restaurante ficara estranhamente silencioso, mas isso parecia no ter a menor importncia. No se importava 
com o que as pessoas viam ou pensavam; tudo o que importava era impedir que Sam se aproximasse dela.
       Sentiu o quadril direito entrar em contato doloroso com a quina da mesa enquanto recuava, afastando-se dele; podia ouvir os talheres e os pratos batendo.
       - No tem o direito de estar aqui - ouviu-se sussurrar rispidamente. - Nenhum direito...
       - Abbie, precisamos conversar...
       Como a voz dele parecia controlada e calma em contraste com a dela! Seu crebro registrou estes fatos, mas suas emoes no conseguiam reagir a eles. O fato 
de que quase todo mundo no restaurante estava os observando, um fato que normalmente seria mais do que o suficiente para faz-la cerrar os dentes e se recusar a 
demonstrar qualquer espcie de emoo, apenas parecia no ter importncia.
       Ouvira falar de pessoas que tinham ataques de pnico e nunca entendera o que significava, mas agora, de repente, compreendeu. Enquanto o crebro reconhecia 
que estava reagindo com exagero, que perdera o controle, era-lhe impossvel fazer qualquer outra coisa, dissimular o que estava sentindo.
       - No se aproxime de mim, eu odeio voc - ouviu-se sussurrar enquanto recuperava os movimentos, passava por ele e se dirigia para a porta.
       Mas no era dio que fazia seu corao disparar to freneticamente, nem seu corpo tremer tanto. Nunca sentira tanto medo, tanto choque, tanto pnico.
       Quando chegou tropeando  rea da recepo, viu Dennis andando em direo a ela, a expresso alerta e ansiosa.
       -Abbie, o que ? O que est acontecendo? - ouviu-o perguntar, preocupado.
       Mas ela ignorou a mo que ele estendera para segur-la, sacudindo a cabea e lhe dizendo:
       - Eu... eu no me sinto bem, tenho que ir para casa... eu...
       - Deixe que a leve de carro. Espere aqui at eu peg-lo...
       - No - recusou asperamente. - No, por favor... apenas... ficarei bem quando chegar em casa. Apenas preciso ficar sozinha... - disse, trmula. - Lamento, 
Dennis...
       Incapaz de dizer mais alguma coisa, correu em direo  sada. Seu carro estava no estacionamento, mas sabia que no estava em condies de dirigir. Felizmente 
ainda estava claro, claro o bastante para ela seguir o caminho que passava pelo campo e chegar  trilha que levava a seu pequeno chal.
       O chal era um de um par, originalmente construdos para trabalhadores de fazenda.
       Quando Abbie o comprara, seus amigos pensaram que estava louca de comprar uma casa to longe da cidade e em to mau estado. Agora esses mesmos amigos falavam 
com inveja de sua viso. O chal tinha um grande jardim, que Abbie levara anos cultivando, durante os quais usara muito de seu tempo livre para transform-lo num 
refgio de sonho. A casa havia sido inteligentemente ampliada... O acrscimo mais recente fora um conservatrio bonito, que ela mandara construir no vero anterior.
       Podia quase ouvir a batida frentica do corao enquanto se apressava pelo caminho. De vez em quando, voltava-se para olhar para trs, meio temerosa de que 
ele... de que Sam pudesse t-la seguido.
       O que ele estava fazendo ali? O que queria? Por quanto tempo ficara sentado no restaurante observando-a? No havia nada para ele ali. Nada... e ningum. Ningum... 
exceto... Parou de se mover, o corpo imvel.
       - Acho que vi papai hoje - dissera Cathy. Quase podia ouvir as palavras agora, ver a expresso no rosto da filha.
       - No - sussurrou, inconsciente de que a palavra soava como um grito de desespero, enquanto o vento a pegava e a jogava em direo ao cu. - No. Ela  minha... 
voc no a quis, ela  minha...
       Quando Abbie abriu a porta da frente, ouviu o telefone tocar, mas no conseguiu atender. E se fosse ele... Sam? Mas por que ele lhe telefonaria? Como conseguira 
seu nmero? No podia ter voltado por causa dela ou de Cathy, tentou garantir a si mesma. Era apenas uma horrvel coincidncia, era tudo. Provavelmente, ele ficara 
to chocado ao v-la no restaurante quanto ela.
       Mas ele no parecera chocado. Parecera... Abbie fechou os olhos, sem querer se lembrar de como a observara, seu olhar demorando-se nos olhos dela, na boca, 
no corpo.
       O que pensara quando a vira, agora mulher, no mais uma jovem? Teria olhado para ela e se perguntado por que diabos a havia desejado uma vez?
       Seria capaz de se lembrar de que a desejara, ou houvera tantas mulheres em sua vida que no conseguia mais se lembrar como era abra-la... toc-la...?
       - No - protestou Abbie, sua voz emitiu um som rouco, pouco familiar, de angstia, na sala vazia, enquanto se apoiava na mesa, ansiando para que as lembranas, 
a dor e a mgoa desaparecessem.
       Havia anos que no pensava em como era desejar Sam e ser desejada por ele, e, no entanto, agora, no espao de poucas horas, reviver exatamente como era... 
no uma vez, mas duas.
       E nas duas ocasies, suas lembranas tinham sido to intensas, to vivas, to devastadoras que ainda estava em choque ao perceber como no tinha defesa contra 
elas.
       Por que, se no pensara nele dessa forma em anos, se se recusara deliberadamente a se lembrar daquelas coisas sobre ele, que uma vez lhe deram um prazer fsico 
to intenso - porque eram, afinal, apenas uma fico, uma iluso -, deveria ser capaz de se lembrar to repentina e claramente no s de como era ter a boca de Sam 
acariciando a dela, mas tambm do cheiro, do gosto, de como era sentir a aspereza do queixo sob as pontas de seus dedos, de como ele...?
       Sentiu uma forte dor no peito, que parecia estar sendo comprimido, impedindo-a de respirar, os olhos queimando e doendo. Ergueu a mo para passar neles e 
percebeu para seu horror que a face estava molhada e que estava chorando.
       O que estava acontecendo com ela? Por que reagia daquele jeito? Seria o choque de v-lo logo depois de ter encontrado seu vestido de noiva e se lembrado?
       Ficou tensa ao ouvir um carro parar em frente ao chal. E se fosse ele? E se a tivesse seguido? Mas foram os passos de Cathy que ouviu nas pedras do lado 
de fora, a voz de Cathy tensa de ansiedade que ouviu, chamando-a.
       Estendeu a mo depressa para pegar uma toalha na cozinha e secar o rosto molhado e tentou se controlar, mas j era tarde demais. Cathy entrava correndo na 
cozinha, o rosto sombreado por dor e apreenso.
       - Voc o viu, no viu? Voc viu papai no hotel.
       Abbie olhou fixamente para a filha, observando a cor forte do rosto e a expresso culpada.
       - Voc sabia que ele estava l - sussurrou, incrdula. - Sabia e, no entanto, no disse nada. Mas como, por qu?
       Abbie comeou a chorar de novo.
       - Oh, me, lamento tanto. Eu no... eu nunca...
       Stuart seguira Cathy na sala e agora se aproximara dela, colocando o brao protetoramente em torno da noiva enquanto dizia calmamente a Abbie:
       - Nada disso tem qualquer relao com Cathy, Abbie, pelo menos no diretamente. Ela no  responsvel pela volta do seu ex-marido. Eu sou.
       - Voc? - Abbie olhou para Stuart, confusa.
       - Stuart s me contou hoje o que havia feito, quando mencionei que pensava ter visto papai - disse Cathy, a voz ofegante. - Ele queria que fosse uma surpresa.
       - Querida, por que no me deixa explicar? - perguntou Stuart, beijando Cathy gentilmente antes de se voltar para Abbie. - Sei que Cathy nunca lhe contaria 
isso... ela a ama demais e temia mago-la, mas sei o quanto sempre quis conhecer o pai... o que, como meus pais disseram,  apenas natural. Cathy me disse que sentia 
que seria impossvel para ela tentar entrar em contato com ele, porque temia magoar voc, mas j se passaram mais de 20 anos desde que voc se divorciou dele e eu 
sabia o quanto significava para Cathy conhecer o pai... talvez conseguir que ele viesse para o casamento... e, ento, comecei a fazer algumas perguntas discretas, 
tentando localiz-lo. Tinha planos de ir  Austrlia... conhec-lo, conversar com ele. Mas...
       - Stuart deu de ombros. - Bem, parece que ele tinha idias prprias. Acredite, a ltima coisa que queria que acontecesse era ele aparecer aqui.
       - Quer dizer que voc  o responsvel por ele voltar para c? - perguntou Abbie, os lbios endurecidos enquanto olhava para Stuart.
       - Sim.
       - Sem dvida, tendo discutido este seu plano com seus pais antes? - perguntou Abbie, incrdula.
       Ao lado dela, pde ver Cathy se encolher e tentar protestar, e se sentiu ferida ao ver o modo como a filha se voltava, no para ela, mas para Stuart, em busca 
de apoio, quase como se estivesse realmente com medo da me, quase como se estivessem em lados opostos.
       - Sim, para dizer a verdade, eu conversei com eles - concordou Stuart, o rosto inexpressivo.
       - E eles, sem dvida, acharam que era uma excelente idia. Sua me aprovou plenamente esse plano, imagino. Voc depende demais da aprovao de sua me, no 
, Stuart? - perguntou com severidade.
       Ela viu as pontas das orelhas dele queimando num vermelho-escuro, zangado, e uma voz interna a advertiu para no continuar o assunto, no afastar a filha 
humilhando o homem que ela amava, mas Abbie se recusou a ouvi-la.
       - Bem, sou a me de Cathy, e se achasse que seria bom para ela conhecer o pai, pode ter certeza de que eu tomaria as providncias para isso.
       - Tomaria? - desafiou-a Stuart, com raiva. - Est to cheia do seu dio por ele que no consegue ver o que est bem debaixo do seu nariz. Seus sentimentos 
so to importantes para voc que nunca pensou adequadamente sobre quais poderiam ser os sentimentos de Cathy, sobre o fato de que ela poderia precisar conhecer 
o pai, encontrar-se com ele, conversar com ele. Voc nem consegue perceber que Cathy tem medo demais de mago-la, est ansiosa demais para proteg-la, para lhe dizer 
o quanto quer conhec-lo.
       Abbie se voltou para olhar a filha.
       - Cathy, isso  verdade? - perguntou, dolorosamente.
       A expresso de Cathy lhe deu a resposta.
       - Por que nunca me contou... nunca me disse nada? - sussurrou.
       - Eu... eu no queria magoar voc...
       - Ela sabia que voc no entenderia - disse Stuart brutalmente. - E sabia que voc nem mesmo permitiria que ela tivesse tais sentimentos, curiosidade sobre 
ele, querer conhec-lo... fazer qualquer outra coisa a no ser partilhar sua amargura. Tudo o que sempre contou a Cathy sobre o pai dela foi como ele abandonou vocs 
duas. Como no era adequado para ser o pai dela. Como acha que a fez se sentir... saber o quanto voc odiava algum que  realmente parte dela...?
       - Eu apenas quis proteger voc - sussurrou Abbie para Cathy. - No queria que fosse magoada por ele como... Oh, Cathy... - Abbie estendeu os braos para abraar 
a filha, e ento congelou de choque quando Cathy se afastou dela, voltando para os braos de Stuart.
       - Sinto muito por tudo isso, me - sussurrou -, mas o que Stuart diz  verdade. Quero ver meu pai, me encontrar com ele, conhec-lo... No deve culpar Stuart 
pelo que aconteceu, ele s queria me fazer feliz.
       Ela ergueu o rosto para o noivo e sorriu para ele entre lgrimas.
       - Ele acabou de me contar sobre as tentativas de encontrar meu pai. Queria nos reunir.
       - Voc no tinha o direito de interferir - disse Abbie a Stuart, ainda em choque.
       - Eu tinha todo o direito - contradisse Stuart calmamente. - Amo Cathy e quero que seja feliz, e s encontrar o pai  o que ela quer...
       - Pode ser o que ela quer - interrompeu Abbie -, mas quanto a isso faz-la feliz... - Parou.
       - Sei que durante todos esses anos ele no me quis, que se recusou a acreditar que sou filha dele - disse Cathy com gentileza -, mas os tempos mudam, me, 
as pessoas mudam...
       - Algumas pessoas talvez mudem - concordou Abbie amargamente -, mas eu no sou uma delas, no mudei.
       - Voc o amou uma vez - lembrou Cathy, a voz trmula.
       - Pensei que o amava - corrigiu Abbie asperamente -, e pensei que ele me amava... mas estava enganada. Nas duas coisas.
       
       
       
     Captulo Cinco
       
       
       - Ento me conte novamente o que aconteceu - ordenou Fran.
       - Deus,  em momentos assim que me arrependo de ter parado de fumar... - Suspirou profundamente.
       Abbie olhou para ela, cansada.
       - J lhe contei... duas vezes.
       - Eu sei, mas ainda no consigo acreditar.
       Estavam sentadas  grande mesa no centro da cozinha de Fran, de frente uma para a outra.
       - Quer dizer que Stuart estava tentando fazer algumas perguntas discretas sobre Sam para encontr-lo e ento, de repente, ele apareceu aqui, sem avisar?
       - Parece que sim, se o que Stuart disse  verdade - respondeu Abbie severamente, a expresso ansiosa quando admitiu:
       - Oh, Fran, ainda no consigo absorver tudo isso. Por que, por que Cathy nunca me disse nada sobre querer conhec-lo? - Respirou profundamente ao ver a compaixo 
nos olhos da melhor amiga. - Voc pensa da mesma maneira que Stuart e sua maldita me, no pensa? - Acusou. - Voc pensa que Cathy teve medo demais de me dizer, 
e que eu estava cheia demais dos meus ressentimentos, das minhas necessidades, para perceber o que Cathy poderia querer.
       - No acho que seja to simples assim - disse Fran com gentileza. -  claro que compreendo por que voc se sente desse jeito, Abbie. Qualquer me se sentiria... 
Apenas espere at que Cathy tenha filhos... Mas, logicamente, posso entender por que Cathy ficaria curiosa sobre ele.  um instinto natural numa criana querer conhecer 
os pais. Realmente compreendo como voc se sente, Abbie - disse gentilmente, estendendo a mo para cobrir a da amiga. - No se esquea, naquele momento eu estava 
l... embora apenas  margem dos acontecimentos. Vi o que o rompimento do seu casamento fez com voc, mas...
       - Mas o qu? - desafiou Abbie.
       - Sam tentou mesmo entrar em contato com voc, para vocs conversarem - lembrou a Abbie com delicadeza. - Voc mesma contou, na ocasio, e ele quis estabelecer 
uma penso para vocs duas.
       - Conversar... sobre o qu? - perguntou Abbie. - Sobre como seria impossvel que Cathy fosse filha dele e como estava seguro de que eu estava tendo um caso 
com outro homem?
       - Deve ter sido um choque terrvel para ele, quando lhe contou que estava grvida - sugeriu Fran com gentileza. - Especialmente naquela poca. Hoje sabemos 
muito mais sobre os resultados dessas operaes; sabemos que h um pequeno risco de uma mulher que foi esterilizada engravidar ou de um homem que fez vasectomia 
gerar uma criana. Mas naquela poca... E voc precisa se lembrar de que, no caso de Sam, o choque deve ter sido acompanhado pela culpa. Ver voc to claramente 
excitada e animada com aldeia de ter um filho, quando ele sabia, ou achava, que no podia lhe dar um. Voc mesma disse que nunca conversaram sobre constituir uma 
famlia.
       - Voc acha que eu estava errada, no acha, Fran? Se ele dissesse apenas que no podia compreender como eu havia concebido - explodiu Abbie, suas emoes 
sempre estritamente controladas, agora a dominando -, ento talvez pudssemos discutir o assunto. Mas ele me acusou de ter um caso... e com Lloyd... quando sabia... 
Eu nunca fizera sexo com ningum, a no ser com ele, Fran. - Desviou o olhar da amiga e ento acrescentou, numa voz baixa, relutante: - E ainda no fiz.
       Quando olhou de volta para a amiga, viu que a revelao a surpreendera.
       - O que pensava? - zombou, a voz novamente no tom normal, ligeiramente inseguro. - Que tive uma vida sexual secreta de libertinagem inimaginvel? - Sacudiu 
a cabea. - Nunca senti tanta vontade de fazer sexo a ponto de consider-lo apenas um apetite que pudesse ser satisfeito sem um profundo envolvimento emocional com 
meu parceiro, e no... Desde Sam eu...
       - A vida no  muito justa com nosso sexo, no ? Tecnicamente, temos a liberdade de fazer sexo quando quisermos sem o risco de uma gravidez; sem a necessidade 
de encontrar um parceiro que nos sustente, mas em nove entre dez casos nossas emoes nos dominam o tempo todo.
       Fran franziu a testa e advertiu:
       - Tente no ser dura demais com Stuart e Cathy. Estou certa de que Stuart acredita ter agido pelos melhores motivos. Ele  jovem e est muito apaixonado. 
Provavelmente, no consegue ver alm de seu desejo de fazer Cathy feliz...
       - Seu desejo de fazer Cathy feliz? - perguntou Abbie, cansada. - Ou o desejo da me dele de se intrometer? Oh, lamento muito - desculpou-se, fechando os olhos 
e erguendo a mo para massagear os msculos doloridos do pescoo. - Apenas no sei o que est acontecendo comigo estes dias, Fran, mas desde que Cathy e Stuart ficaram 
noivos, sinto como se... como se...
       - Como se a estivesse perdendo? - sugeriu Fran suavemente.
       Abbie ruborizou de leve e evitou olhar para Fran antes de admitir, de forma seca.
       -  ridculo, eu sei, sentir cime porque minha filha se apaixonou, porque agora h algum na vida dela mais importante do que eu. Fico me dizendo que estou 
reagindo com exagero, lembrando a mim mesma que, para todos os efeitos, Cathy j havia sado de casa quando conheceu Stuart, que  apenas natural que a me de Stuart 
queira ajudar na organizao do casamento, e, no entanto, ao mesmo tempo, bem l no fundo, me sinto magoada e ressentida e, sim, afastada... redundante...
       Abbie se interrompeu, suspirou e continuou:
       - No  apenas que Cathy parea no precisar mais de mim, mas tambm que no me quer...  como se eu fosse uma amolao, uma carga que a impede de comear 
sua nova vida. E a famlia de Stuart pode lhe dar muito mais do que jamais pude, Fran. Cada vez que me encontro com a me de Stuart, quase posso ouvi-la pensando 
que me incapaz eu sou, congratulando-se por ser to superior. E,  claro, como Stuart pensa que ela  maravilhosa, Cathy tambm...
       - Cathy ama voc - interrompeu Fran calmamente. - E se quer minha opinio, a me de Stuart se sente intimidada por voc e pelo que voc conseguiu, Abbie. 
Sim, ela est desempenhando o papel tradicional de matriarca da famlia, mas nunca saiu de casa e provou a si mesma do que  capaz. No estou sendo rude, mas no 
 segredo para ningum que a famlia dela e a do pai de Stuart sempre foram ricas. Materialmente, ela nunca sentiu falta de nada, nunca precisou se preocupar... 
e, certamente, nunca precisou nem pensar em ter que se sustentar. E em relao  vida familiar... bem, ela e eu somos membros do mesmo comit. Ela  a presidente 
e eu sou a menos importante de todas, mas ouvi boatos de que, numa poca, a filha mais velha se rebelou contra o modo exagerado como a me a protegia.
       Fran fez uma pausa, olhou para Abbie e continuou:
       - Acho que o simples fato de que ela tenha at mesmo sugerido cuidar pessoalmente da organizao do casamento mostra uma incrvel falta de tato, mas no  
realmente a me de Stuart que est incomodando voc, ?
       - No - admitiu Abbie. -  Cathy. Ela parece ter mudado tanto desde que ela e Stuart se apaixonaram...
       - Ela est crescendo, Abbie, criando a prpria identidade e independncia, e est esquecendo que o modelo que voc lhe deu, com tudo o que conquistou,  um 
desafio bem duro para ela tentar alcanar, quanto mais igualar.
       - Fiz o que fiz porque precisei, no porque quis - protestou Abbie. - Se pudesse escolher, no h nada que quisesse mais do que ser apenas uma me adequada, 
ficar em casa, ter uma famlia grande, dar a Cathy irmos e irms... um pai... - acrescentou, num sussurro tenso.
       - Voc  uma me adequada - garantiu Fran com firmeza. - Trabalhou tanto, Abbie, para construir sua agncia. Eu me lembro da poca em que teve trs trabalhos 
diferentes de meio expediente para sustentar Cathy e a si prpria, e, no entanto, ainda conseguia passar horas com ela, dar a ela mais tempo do que muitas mes em 
tempo integral conseguem. E como  maternal com todos os que trabalham para voc. Seu instinto materno tem um quilmetro de largura, e se recebesse 1 libra a cada 
vez que minhas duas filhas reclamam que gostariam que eu fosse mais parecida com voc, seria uma mulher muito rica.
       - Por que Sam teve que voltar, Fran? - Abbie voltou ao problema que lhe dominava a mente. - Por que no nos deixou em paz? Estou com tanto medo, Fran. - Estremeceu 
de leve. - Com medo de perder Cathy definitivamente, e, no entanto, no posso, no posso mudar meus sentimentos, como ainda me sinto sobre Sam...
       - Por que no diz a Cathy o que me disse? - sugeriu Fran. - Estou certa de que ela compreenderia...
       - No posso - interrompeu Abbie, angustiada. - Se fizer isso, ela pensar que estou tentando fazer presso emocional sobre ela para no se encontrar com o 
pai, e  evidente que ela quer se encontrar com ele...
       - Sabe o que voc precisa, no sabe? - disse Fran com firmeza. - Voc precisa ter um pouco de interesse romntico em sua vida... um relacionamento.
       - Um relacionamento... por que diabos precisaria disso? No acha que minha vida j tem complicaes demais?
       - Bem, por um lado, se eu estivesse no seu lugar, acharia que seria muito bom para meu ego enfrentar um homem que amei no passado e que me feriu profundamente 
com outro homem a meu lado, para mostrar a ele e ao resto do mundo que ele no tem mais importncia para mim. E, por outro lado... bem, digamos que j passou da 
hora de voc comear a cuidar mais de sua vida e usar as vantagens injustas que tem sobre o resto de ns. Garanto a voc que se eu fosse solteira e tivesse sua aparncia, 
no ficaria sentada sozinha em casa todas as noites.
       - No? - perguntou Abbie secamente. - E onde, me diga, eu encontraria esse homem... esse relacionamento?
       - Bem, sempre posso lhe emprestar Lloyd para praticar - disse Fran, brincando. - Agora, isso jogaria o gato entre os pombos e faria seu Sam se perguntar...
       - Ele no  o meu Sam - corrigiu Abbie. - E quanto a ele se fazer perguntas sobre meus relacionamentos pessoais com homens, ou a falta deles... duvido muito 
que se importe de uma forma ou de outra.
       - Voc quer que ele se importe? - perguntou Fran. Abbie lhe lanou um olhar zangado.
       - No,  claro que no... por que iria querer? A nica coisa que quero de Sam  que ele desaparea.
       Uma hora depois Abbie estava a caminho de casa, tendo parado para pegar seu carro no estacionamento do hotel e garantir a Dennis que sim, estava perfeitamente 
bem e plenamente recuperada, e ento passar no pequeno escritrio que alugava na rua principal e saber de sua assistente se havia algum assunto urgente que precisasse 
de sua ateno.
       O rosto dela ficou um pouco ruborizado quando se lembrou das perguntas preocupadas de Dennis. Embora ele no tivesse testemunhado o que havia acontecido, 
sabia que devia ter ouvido relatos dos que estavam no restaurante no momento. De todas as coisas grandes e pequenas de que se arrependia na vida, seu fracasso em 
esconder o choque de ver Sam na noite anterior era a pior.
       Mas certamente Sam no teria a ousadia de imaginar que sua reao pudesse ter sido decorrente de um corao partido por causa dele, teria? Sem dvida, sabia 
exatamente como se sentia em relao a ele, como era profundo e intenso o dio que sentia por ele. Afinal, ele deixara isso bem claro, tantos anos antes, quando 
tivera a audcia, a enorme incapacidade de adivinhar o que estava fazendo com ela, quando sugerira que se encontrassem para tentar resolver suas diferenas.
       Os pais dela haviam sugerido gentilmente que seria melhor se ela conversasse com ele, e se lembrou como ficara magoada e aborrecida com o fato deles pensarem 
uma coisa dessas.
       Naturalmente, se houvesse dvidas sobre paternidade agora, as coisas teriam sido diferentes: havia testes de DNA que provariam, alm de qualquer dvida, a 
identidade do pai de uma criana. Mas estava satisfeita por esta opo no existir na poca. A ltima coisa que queria era que Sam aceitasse a paternidade de sua 
filha com relutncia.
       Engoliu com fora quando parou o carro em frente a seu chal e desligou o motor. Era uma pena que seus pais estivessem visitando amigos na Frana; eles compreenderiam 
como ela se sentia.
       Pegou a bolsa e a correspondncia que chegara ao escritrio e se dirigiu para a porta dos fundos, as chaves prontas... Mas quando inseriu a chave descobriu 
que a porta j estava destrancada.
       Cerrando o cenho, abriu a porta, preocupada, o corpo ligeiramente tenso, e entrou. Apenas ela e Cathy tinham as chaves de sua casa. Isso significaria que 
a filha talvez estivesse avaliando o que fizera?
       Quando entrou na cozinha, Abbie parou de repente. No era Cathy que estava sentada em uma das cadeiras forradas de bonitas almofadas feitas de retalhos, conversando 
com o gato, que abandonara seu lugar costumeiro perto do fogo e subira nos joelhos dele, mas Sam.
       Gentilmente colocando o gato no cho, ele se levantou, olhando-a sem sorrir. Apertando as cartas e a bolsa com fora contra o corpo, como se fossem um escudo, 
Abbie perguntou, furiosa:
       - O que est fazendo aqui? Como entrou?
       - Cathy me emprestou as chaves dela - disse ele, a voz baixa, e ento acrescentou, num tom calmo, que contrastava com a fria dela, mas muito determinado: 
- Precisamos conversar.
       Em p aqui na cozinha dela, a menos de 1 metro de distncia, ele parecia muito mais alto e maior do que na noite anterior. Mas tambm ela estava usando sapatos 
sem salto, reconheceu Abbie. Irritava-a perceber que ele parecia to calmo e confortvel na casa dela, enquanto ela estava tensa e fora apanhada desprevenida, mas, 
ento, teria feito isso deliberadamente, sabendo que no o esperava, sabendo que o choque que sentia lhe dava uma vantagem sobre ela...
       Concluiu que havia duas maneiras de lidar com a situao: passivamente, recusando-se a dizer ou fazer qualquer coisa, simplesmente se afastando dele; ou agressivamente, 
fazendo-o saber que no havia nada, nada que ele pudesse dizer ou fazer que mudasse seus sentimentos por ele ou sua determinao de mant-lo longe da vida delas. 
Da vida delas...
       A passividade nunca fora sua reao predileta, preferia a ao.
       - Ns precisamos conversar? - perguntou com frieza. - Desde quando voc tem o direito de alegar que sabe o que eu possa precisar ou no, Sam? - Deu-lhe um 
sorriso gelado. - Voc pode querer falar comigo, mas lhe garanto que no tenho a vontade e, certamente, no tenho a necessidade de conversar com voc.
       - Precisamos conversar - repetiu Sam, como se ela no tivesse falado -, no por nossa causa, mas por causa de nossa filha.
       - Nossa filha? - Abbie quase engasgou de fria enquanto olhava para ele. - Voc no tem uma filha; Cathy  minha, s minha. Voc no a quis, negou que pudesse 
t-la gerado... lembra-se?
       - Eu cometi um erro, estava enganado. No compreendi ento...
       Abbie continuou a olhar para ele, o sangue lhe fugindo do rosto enquanto o choque do que ele estava dizendo a fazia estremecer. No percebera at agora o 
quanto dependia de ele rejeitar Cathy pela segunda vez.
       - No - sussurrou, numa voz fraca -, Cathy no  sua filha - negou -, Cathy  minha filha, sempre foi minha. Ela nunca...
       - Ela nunca o qu? Nunca quis saber nada sobre mim, ter nenhuma relao comigo? Ela me odeia tanto quanto voc me odeia? Estes so os seus sentimentos, no 
os de Cathy, Abbie - disse ele severamente, sacudindo a cabea enquanto o corao de Abbie se apertava de angstia com o modo como o nome de Cathy saa facilmente 
de sua boca, como se estivesse acostumado a diz-lo, como se a chamasse de Cathy, a sua Cathy, a Cathy dele desde o dia em que nascera, e no...
       - Cathy entrou em contato comigo, e no eu com ela - lembrou ele, mas Abbie no o deixou continuar.
       - Cathy no entrou em contato com voc, foi Stuart que interferiu, que presumiu que tinha o direito...
       - De fazer o qu? De fazer Cathy feliz? - Olhou para ela com desdm. - Mas voc acha que ningum tem o direito ou a capacidade de fazer Cathy feliz a no 
ser voc, no , Abbie? Na verdade, voc acha que nem a prpria Cathy tem o direito de dizer o que a faz feliz.
       - Isso no  verdade - negou Abbie furiosa, o rosto agora vermelho com a acusao. - Cathy tem 22 anos,  uma adulta e...
       - E o qu? - pressionou Sam.
       Como ela, estava vestido casualmente, mas Abbie estava irritantemente consciente do fato de que, embora leggings e um suter de cachemira de nmero muito 
maior do que o dela pudessem ser confortveis e prticos, no eram nem um pouco to elegantes em seu corpo mido como um jeans desbotado e uma camisa quadriculada 
macia pareciam no corpo magro, musculoso de Sam.
       Era ridculo que um homem da idade dele ainda tivesse aquele corpo to formidavelmente masculino... o ventre achatado e firme, as ndegas, pelo pouco que 
via delas, eram invejavelmente rijas e musculosas Abbie rapidamente desviou o olhar do corpo dele, perguntando-se que diabos estava acontecendo com ela.
       Ndegas masculinas, rijas e musculosas ou no, no lhe despertavam o menor interesse, especialmente as daquele homem, muito especialmente as dele... mesmo 
se agora...
       - E o qu? - perguntou cansada, devolvendo a pergunta a Sam, as mos subindo traioeiramente para o pescoo e os msculos que doam nele e que revelavam a 
tenso crescente que sentia.
       - Cathy  uma mulher - persistiu Sam. - Voc admite isso, mas no a trata como uma mulher. No permite que tenha sentimentos prprios, necessidades prprias, 
no lhe permite nem contar a voc que gostaria de me conhecer...
       - Ela lhe disse? - Abbie engoliu. - Cathy disse isso a voc!
       - No, no com tantas palavras. Mas ela me disse...
       - Voc conversou com ela? - interrompeu Abbie rapidamente.
       - Sim, ela e Stuart foram me ver esta manh. Tivemos uma longa conversa, esclarecemos alguns equvocos...
       - Que equvocos? - exigiu Abbie, uma sensao de advertncia lhe percorrendo o corpo desagradavelmente.
       - Equvocos como o fato de que eu supostamente passei os ltimos 22 anos me recusando a aceitar que tinha uma filha, que no senti culpa ou dor sobre no 
ter inicialmente aceitado que ela fosse minha filha. Equvocos sobre os motivos pelos quais me senti incapaz de fazer contato com ela, embora tivesse ansiado por 
isso muitas, muitas vezes.
       - Voc est mentindo - disse Abbie furiosamente. - Est dizendo isso agora s porque...
       - Por que o qu? - insistiu Sam.
       - Por que veio aqui? O que quer? - exigiu Abbie, mudando de ttica.
       - Vim aqui porque descobri que algum da Inglaterra estava fazendo perguntas sobre mim - contou ele prontamente. - E em relao ao que quero, no acho que 
seja uma boa idia responder a esta pergunta agora. Voc no est em condies de ouvir o que preciso dizer.
       - Eu nunca estarei em condies de ouvir nada do que voc tem a dizer, a no ser adeus - disse Abbie com amargura. - E j ouvi voc dizer isso antes.
       - No, Abbie, no ouviu - corrigiu ele. - Foi voc quem me disse adeus... ou, antes, fugiu de mim.
       Abbie o encarou.
       - Porque voc me acusou de tentar passar como seu o beb de outro homem... porque me enganou ao nunca nem se incomodar de me contar que havia feito uma vasectomia... 
e, por falar nisso, homens que fazem vasectomia ainda podem gerar filhos.
       - Sim, eu sei - concordou Sam. - E tambm sei que quase invariavelmente reagem  notcia de que produziram uma criana exatamente como eu reagi. A maioria 
das parceiras desses homens descobre que eles exigem provas mdicas de que eles so realmente os pais das crianas antes de aceit-las.
       Ele se virou e olhou pela janela.
       - No fui o nico a reagir como reagi, Abbie. Isso no torna correta minha reao, sei disso, e no diminui a dor e o choque que sei que voc sofreu. Mas 
eu tambm senti dor e choque, sabe, o choque e a dor de acreditar que a mulher que eu amava to profundamente, to completamente, me trara com outro homem.
       Fez uma pausa, suspirou e se voltou novamente para Abbie.
       - Aos 26 anos eu podia parecer adulto e maduro para voc, mas no era... no por dentro. Homens no amadurecem to rapidamente como as mulheres, e eu ainda 
era imaturo o suficiente para sentir um cime infernal e me sentir muito, muito inseguro sobre a fora do seu amor por mim. Voc era to jovem...
       - Mas no jovem demais para ser abandonada, quando estava grvida do seu beb - disse Abbie com amargura.
       Imediatamente os olhos de Sam escureceram, seu queixo endureceu, traindo suas emoes.
       - Eu no a abandonei - negou asperamente. - Tentei uma reconciliao... lembra-se? No fui eu que recusei aceitar um centavo, que disse que preferia morrer 
a receber uma penso minha...
       - No queria seu dinheiro - disse Abbie, a voz mostrando toda a sua revolta.
       Estava furiosa por sua aparente incapacidade, mesmo depois de todos esses anos, de compreender como se sentira insultada por ele calmamente oferecer apoio 
financeiro a ela e ao beb que recusava admitir que fosse dele... como se ela fosse alguma... alguma coisa jogada fora... alguma... alguma...
       - Eu queria... - Abbie parou abruptamente, piscando com fora, para dissipar as lgrimas de raiva que sentia se formarem no fundo dos olhos.
       - Voc queria o qu? - pressionou Sam.
       - Nada, no quero nada... - disse Abbie, com veneno na voz. - Apenas ter voc fora da minha vida... das nossas vidas.
       - Voc pode ter decidido aceitar agora que  o pai de Cathy, mas no que me diz respeito...
       - Voc nunca vai me perdoar? - perguntou Sam gravemente.
       Havia uma expresso nos olhos dele que causou em Abbie uma pequena pontada de alarme, uma advertncia de que estava o empurrando para os limites de sua pacincia 
e temperamento. Mas preferiu ignor-la. Por que deveria se incomodar com o" sentimentos dele? Afinal, quando ele havia se incomodado com os dela?
       - Nunca - concordou ela com veemncia, acrescentando, para deixar ainda mais claro: - Voc pode ter conseguido convencer, enganar Cathy, fazendo-a acreditar 
que lamenta o que aconteceu, mas no pode me enganar... no outra vez.
       Respirou fundo e continuou:
       - Quando isso aconteceu, essa mudana de opinio, esta descoberta de que poderia estar errado? - zombou, atormentando-o. - Semana passada... ms passado...? 
Voc abriu os olhos urna manh e, depois de anos de nunca pensar no assunto, subitamente decidiu que queria v-la?
       - No - negou Sam calmamente.
       Havia uma pequena veia batendo sob a pele esticada do pescoo dele, e Abbie descobriu que no conseguia afastar os olhos. Alm do traioeiro enrijecimento 
do queixo e uma certa expresso nos olhos, esse era o nico sinal que dera de que no estava total, calma e completamente no controle de suas emoes e da situao. 
Abbie sentiu prazer em ver que tinha o poder de irrit-lo, de aborrec-lo.
       - Acredite ou no, Abbie, a verdade  que nunca houve um dia, nunca houve uma noite, em que no pensasse sobre... ela. Em que tenha desejado que as coisas 
pudessem ter sido diferentes. No comeo, este desejo era simplesmente de que pudesse haver alguma forma pela qual eu pudesse acreditar que ela era minha filha, mais 
tarde, quando descobri que havia uma possibilidade de que fosse...
       Abbie viu o peito dele se expandir quando ele respirou fundo.
       - No vou alimentar seu desejo de vingana lhe dando os detalhes da culpa e angstia que sofri, o remorso...
       - No - concordou Abbie secamente. - Eu no faria isso se fosse voc. Guarde tudo para algum bastante estpido para acreditar em voc, Sam, porque eu certamente 
no acredito. Se voc realmente sentiu qualquer uma dessas emoes, por que no tentou entrar em contato conosco... com Cathy...?
       - Porque no achei que fosse justo... no senti que tinha esse direito - disse simplesmente. - E alm disso...
       - Alm do qu? - zombou Abbie. Por alguma razo, suas palavras calmas e tristes a magoavam, faziam-na sentir... faziam-na querer... - Alm disso, voc estava 
envolvido demais com sua prpria vida, seus prprios relacionamentos? Voc se casou de novo, Sam?
       - No - disse apenas, desviando o rosto do dela. E ento, olhando-a diretamente nos olhos, acrescentou lentamente. - E no gerei nenhum outro filho tambm, 
porque...
       - Porque voc decidiu agora que quer seus 50 por cento de opo sobre Cathy? - atormentou Abbie.
       - No - disse ele, a voz muito baixa. - O motivo por que voltei, praticamente o nico motivo por que voltei, foi que Cathy quis me conhecer. No tenho direitos 
sobre ela. Minhas emoes, minhas necessidades tero que estar sempre abaixo das dela. Se ela no tivesse feito nenhuma tentativa de entrar em contato comigo, deixaria 
as coisas como estavam, mas como fez...
       - Como Stuart fez - interrompeu Abbie, exaltada. - Foi Stuart quem quis encontrar voc, Sam, no Cathy.
       - De que tem medo, Abbie? - ele desafiou calmamente. - De deixar Cathy descobrir que talvez eu no seja o vilo que voc sempre disse que eu sou? Que meu 
engano, meu erro, foi causado por vulnerabilidade e humanidade, e no por crueldade deliberada, como parece que voc contou a ela?
       - No, isso no  verdade - negou Abbie. - Eu apenas queria proteg-la, impedir que fosse magoada.
       - Dizendo a ela que eu no a quis? Alguma vez contou a ela o quanto eu queria voc, Abbie? - perguntou suavemente, fazendo a pergunta contra a atitude de 
Abbie e mirando diretamente no corao dela, com toda a destreza de um cirurgio com um bisturi.
       Quando a dor a tomou, Abbie deu um pequeno, instintivo grito de protesto, fechando os olhos para no ver a expresso no rosto dele.
       - Voc lhe contou o quanto eu amava voc? O quanto voc me amava, o quanto me queria? - ele pressionou, recusando-se a libert-la da agonia que sentia. - 
Contou a ela como foi concebida... como, quando fazamos amor, voc gritava de prazer e xtase? Como me implorava para preencher voc, possu-la completamente, tomar 
voc e fazer de voc minha para sempre? Contou-lhe qualquer dessas coisas, Abbie, para equilibrar o resto do que sentia necessrio contar a ela?
       - Contei a ela tudo o que precisava saber - disse Abbie asperamente.
       Estava respirando depressa demais e inalando muito pouco ar; seu corao estava batendo bem rpido e suas pernas estavam fracas e trmulas. Queria desesperadamente 
se sentar, mas Sam estava em p entre ela e as cadeiras. Mesmo assim, fez um movimento instintivo em direo a uma delas, com medo de que, se ficasse em p, a fraqueza 
que sentia a ameaando a dominaria completamente. Mas seus movimentos eram lentos e desajeitados, e em vez de passar ao lado de Sam, de alguma forma colidiu com 
ele.
       O impacto inesperado do corpo dele contra o dela lhe roubou o ar dos pulmes, deixando-a em pnico, as mos lhe empurrando o peito para afast-lo dela, embora 
tudo o que ele havia feito fora estender um brao para equilibr-la.
       Abbie o viu franzir o cenho quando olhou para ela. O pnico comeou a explodir dentro dela quando seu corpo comeou a reconhecer o dele e a reagir  familiaridade 
do dele. Para seu horror, Abbie sentiu os seios inchando e endurecendo quando fizeram contato com o calor do peito dele. Sob a mo que estendera para empurr-lo, 
sentia a espessura dos pelos do peito sob a camisa.
       Apavorada com o que estava lhe acontecendo, Abbie congelou.
       Sentia o corao de Sam batendo, seu inesquecvel cheiro masculino, via a sombra em seu queixo onde fizera a barba, o pequeno sinal bem abaixo do colarinho, 
que uma vez ela atormentara, e beijara, e...
       Desesperada, fechou os olhos tentando apag-lo, mas na mesma hora tantas imagens e lembranas chocantes danaram sob suas plpebras fechadas que imediatamente 
as ergueu de novo, a boca formando uma pequena negao de protesto.
       - Me larga - exigiu. - Me...
       -  voc que est me segurando, Abbie - informou Sam, e quando ela olhou para baixo, para onde seus dedos estavam agarrando o tecido da camisa, Abbie percebeu 
que era verdade. Sentiu o sangue quente lhe queimando a pele, cobrindo-lhe todo o corpo com uma onda escarlate de vergonha.
       - Ainda sou um homem - acrescentou ele, advertindo-a enquanto a olhava -, e apesar de mais velho, ainda reajo da mesma forma ao sentir seus seios pressionando 
meu corpo, e a expresso em seus olhos que significa que voc quer que eu a beije... e mais...
       - No - negou Abbie, furiosa. - No, nunca. Eu odeio voc. Eu... - deixou escapar um pequeno grito de protesto quando Sam a segurou contra o corpo dele com 
um brao e ento passou a mo livre ao longo do queixo dela e segurou seus cabelos, virando-lhe o rosto em direo ao dele, no lhe dando tempo de renovar seus ataques 
verbais enquanto abaixava a cabea e lhe cobria a boca meio aberta com a dele.
       No deveria ser possvel que ele despertasse qualquer reao nela. No havia maneira nenhuma de que ela tivesse o mais remoto fiapo de sentimento por ele 
a no ser dio.
       Agora era uma mulher, no uma menina inexperiente, facilmente impressionvel, cujas emoes e sexualidade podiam ser excitadas  vontade por um homem que 
conseguira convenc-la de que a amava e a queria.
       No, no devia ser possvel, de maneira alguma. Ento, por que... por que... em vez de repudi-lo instantaneamente, sua boca, seu corpo, amoleceram imediatamente 
contra o dele? Por que seus lbios se apertavam nos dele, quase implorando? Por que seu corao comeara a bater em excitao frentica  carcia delicada e familiar 
da lngua dele em seus lbios? Por qu? Por qu? Por que estava pressionando o corpo cada vez mais contra o dele, esticando-se, ansiando pela sensao da pele dele 
na dela?
       De uma longa distncia, Abbie ouvia algum gemer suavemente quando a lngua de Sam lhe invadiu a boca, entrando e saindo ritmadamente. A mo dele escorregou 
pelas costas dela, para pressionar-lhe os quadris contra o corpo dele, e quando o movimento da plvis reproduziu as estocadas sensuais de sua lngua, o corpo dela 
amoleceu.
       Tremia dos ps  cabea, incapaz de controlar suas reaes, e reconheceu, chocada, que o gemido que ouvia era dela. A mo de Sam se moveu no corpo dela, acariciando 
delicadamente o lado externo de seu seio. Antes, este era um sinal entre eles de que ele queria toc-la mais intimamente, tirar-lhe a roupa e acariciar e beijar 
seus seios, sugar gentilmente os pequenos mamilos rosados at ela se contorcer freneticamente sob as mos dele e, sem flego, implorar por mais. Sentiu a ponta do 
polegar lhe roando o mamilo e tambm sua reao instantnea e dolorosa a ele.
       Abruptamente, ela congelou. Que diabos estava fazendo?
       - Solte-me - exigiu, furiosa, afastando a boca e o corpo do dele, e ento, num gesto quase infantil, limpando a boca com a mo, como se estivesse tentando 
limpar o gosto dele e a sensao da boca dele na dela, antes de dizer, rouca: - Eu o detesto tanto que...
       - Que quer que eu a leve para a cama, para me provar o quanto me detesta? - sugeriu Sam asperamente.
       Abbie olhou para ele em choque, o corpo se enchendo lentamente de dor.
       - Voc no tinha  direito de me tocar assim - disse ela, fraca, toda a vontade de lutar a abandon-la. - Nenhum direito.
       Ela se voltou e comeou a andar em direo  mesa, enrijecendo quando o ouviu chamar seu nome.
       - Cathy tambm no tinha o direito de lhe dar as chaves - acrescentou, com a voz trmula. - Esta  a minha casa e no quero voc nela.
       - Ela me deu as chaves porque pensou que era a nica maneira de voc concordar em conversar comigo - disse Sam.
       - Conversar? - Abbie se virou para olh-lo de frente, os olhos brilhando de lgrimas furiosas e zangadas que no conseguia esconder. - O que h para conversarmos? 
Voc j disse tudo, cada palavra ferina, destruidora, ofensiva que podia dizer. Voc est certo. No posso impedir Cathy de ver voc, se ela quiser. Esta  a escolha 
e o direito dela. Mas eu tambm tenho direitos e escolhas - disse ela, erguendo o queixo. - E meu direito... minha escolha  que, o que quer que tenha havido entre 
ns, acabou, chegou ao fim, e nunca mais quero ver voc de novo. Por favor, saia.
       Por um momento, pensou que ele discutiria com ela e rezou para manter a fora e o autocontrole at ele sair, mas para seu alvio, depois de uma pequena pausa, 
ele se virou para a porta, parando para olhar longamente para ela antes de sair.
       Apenas depois de ele ter sado ela percebeu que ele ainda tinha as chaves.
       No tinha importncia, consolou-se, sempre podia mudar as fechaduras. As fechaduras da casa, talvez, mas as fechaduras de seu corao...
       Debruou a cabea sobre a mesa e se entregou s lgrimas que no conseguia mais bloquear.
       
       
       
       
       
       
       
     Capitulo Seis
       
       
       - E voc nunca vai acreditar - o rosto de Cathy estava rosado de excitao quando entrou correndo na cozinha, abraando a me distraidamente antes de continuar: 
-Acho que encontramos a casa e papai se ofereceu para pagar o caf-da-manh do casamento. Conversamos sobre isso na noite passada, quando voltamos para o hotel com 
ele. - Fez uma pequena careta. - Ele ainda no encontrou um lugar para alugar, embora diga que, se aceitar essa ctedra que lhe ofereceram na universidade... o que 
acho que aceitar...
       - Que ctedra? - perguntou Abbie, os dentes cerrados enquanto lutava para controlar a surpresa. Sam nada lhe dissera sobre ter sido convidado para trabalhar 
na universidade. - Pensei que a visita dele seria apenas uma coisa temporria...
       - Bem, era - concordou Cathy subitamente parecendo desconfortvel. - Mas... bem, parece que h muito tempo que ele quer voltar para casa... voltar - consertou 
depressa -, e agora que ele e eu... bem... bem, sou toda a famlia que ele tem e...
       - Toda a famlia que ele tem? - interrompeu Abbie, indignada. Cathy era filha dela.
       - Ele  meu pai - disse Cathy se defendendo, os olhos evitando os de Abbie, o brilho de excitao desaparecendo de seus olhos enquanto se movia, tensa, pela 
cozinha.
       J se passara uma semana desde que Abbie vira Sam pela primeira vez no hotel e mandara trocar todas as fechaduras da casa, dizendo significativamente a Cathy 
que no podia dar o novo conjunto de chaves ao pai.
       Dissera a si mesma que teria que simplesmente cerrar os dentes e ignorar a presena de Sam pelo que seria, esperava, uma breve visita; mas agora, ao descobrir 
que ele no s estava se envolvendo nos arranjos para o casamento de Cathy, mas tambm fazendo planos de se mudar permanentemente, sentiu-se tomada por um estado 
confuso de emoes. A principal delas, ou pelo menos foi o que disse a si mesma, era raiva... uma raiva totalmente justificada, dadas as circunstncias.
       - Pensei que voc fosse ficar contente - ouviu Cathy dizer, quase a desafiando. - Oh, no tem jeito - concluiu, amarga. - Stuart disse que voc no compreenderia, 
que voc no superaria seu ressentimento contra o papa...
       - Stuart disse... - ironizou Abbie, ento se forou a respirar fundo antes de comear de novo. - Me fale sobre a casa - convidou, tentando encontrar um tpico 
menos sensvel. Talvez mais tarde, quando se acalmasse um pouco, fosse capaz de conversar com Cathy mais racionalmente sobre o envolvimento de Sam no casamento.
       - Ah,  perfeita - disse Cathy entusiasmada, os olhos brilhando de novo, a voz leve de alvio. - Tem trs quartos e um enorme jardim nos fundos. A cozinha 
e o banheiro so horrveis... - fez uma careta... -, mas papai disse, quando a viu...
       - Seu pai j viu a casa? - interrompeu Abbie.
       - Sim, ns o levamos l a noite passada. Bem, fica no caminho dele para Charlesford. Ele tinha uma reunio na universidade sobre a ctedra que lhe foi oferecida, 
e Stuart o convidou para ver a casa. Stuart e papai se do muito bem - acrescentou Cathy, entusiasmada. - Papai contou a Stuart que o pai dele era contador.
       -  mesmo? Espero que isso seja tudo o que tenham em comum - disse Abbie sem conseguir esconder o tom da voz. Mas se arrependeu do comentrio quase imediatamente, 
quando viu a expresso de distanciamento nos olhos de Cathy. - Eu... sinto muito querida - desculpou-se -  apenas...
       - No tem importncia, me - disse Cathy rapidamente... rapidamente demais? perguntou-se Abbie, sentida, enquanto Cathy, sem lhe dar a oportunidade de s 
explicar ou se desculpar adequadamente, acrescentava:
       - Estou ansiosa para voc ver a casa, mas no posso mostr-la antes do fim de semana. Por falar nisso, est vazia, o que  mais um ponto favorvel. Vamos 
levar papai para conhecer os avs de Stuart amanh  noite, e no dia seguinte  festa de aniversrio da filha de Julia; mame Grimshaw quer reunir toda a famlia...
       - Incluindo seu pai, sem dvida - interrompeu Abbie, os dentes cerrados.
       Cathy lhe lanou um olhar inseguro.
       - Bem, sim, ela o convidou. Mas como voc...
       - Eu...
       - Olha, me, preciso ir - disse Cathy rapidamente. - Mas um dos motivos por que vim aqui  que papai disse que queria, precisava conversar com voc sobre 
a recepo do casamento. Ele disse que provavelmente voc tem idias prprias sobre onde deve ser realizada...
       - Ah, ele disse, no ? - Abbie no conseguiu resistir ao comentrio.
       Depois de outro rpido e inseguro olhar, Cathy continuou:
       - Eu lhe disse que podia encontr-la quase todas as noites, porque voc nunca sai, e ele pareceu surpreendido. - Cathy riu.
       - Ele me perguntou se h algum especial em sua vida... um homem. Eu lhe contei que voc no tem interesse em homens.
       Cathy fez uma pausa e olhou para Abbie, insegura.
       - Escuta, me, quando papai entrar em contato com voc, vai ser... gentil com ele, no vai? Eu realmente compreendo como voc se sente, mas  como Stuart 
disse... vou me casar apenas uma vez e quero tanto que tudo saia bem... E o que torna tudo to especial para mim  ter vocs dois l comigo. - Os olhos dela se encheram 
de lgrimas, e a amargura e raiva de Abbie subitamente desapareceram.
       -  claro que tudo vai sair bem e ser especial, muito, muito especial... exatamente como voc - disse a Cathy, emocionada, abraando-a com fora.
       Afinal, seria um sacrifcio grande demais? Seu orgulho em troca da felicidade da filha num dia to importante? O que significava mais para ela? No havia 
realmente uma disputa, havia?, reconheceu Abbie, o que significava que, quando Sam fizesse contato, teria apenas que se lembrar que eram os sentimentos de Cathy 
que tinham prioridade, no os dela.
       - Abbie.
       Reconheceu a voz dele imediatamente, apesar de ligeiramente distorcida pela linha telefnica: autoritria, constrangedora e ah!, sensualmente perturbadora. 
Podia sentir os macios pelos nos braos se eriando enquanto segurava o aparelho com fora e respondia, bruscamente:
       - Sim, Sam? 
       - Estava pensando se podamos nos encontrar para discutir o casamento de Cathy. Acho que ela mencionou meu...?
       - Ela me contou que voc se ofereceu para pagar a recepo - concordou Abbie, seus sentimentos a dominando quando acrescentou, em voz baixa: - Entre outras 
coisas...
       - Que outras coisas? - perguntou Sam, sua audio melhor do que ela esperava.
       - O fato de que voc aparentemente estar pensando em se mudar para c... para "casa" - enfatizou com profunda ironia.
       - Porque...? 
       - Por que no lhe contei primeiro? - interrompeu Sam, e continuou antes que Abbie pudesse lhe dizer que no era isso que ia dizer. - Voc realmente no me 
deu muita oportunidade, e alm disso...  
       - O que voc faz com sua vida no  da minha conta - Abbie comentou friamente, antes de acrescentar, irritada: - Exatamente como a de Cathy no  da sua.
       Pronto, dissera. As palavras e a hostilidade que revelavam estavam expostas, apesar de sua inteno de no brigar com ele, pelo bem de Cathy.
       - Ela  nossa filha - lembrou Sam com calma, acrescentando- - Olha, no quero brigar com voc sobre isso, Abbie.
       - Voc no quer brigar comigo... Ah, sei disso - concordou Abbie amargamente. - Assim como sei que, se puder, prefere no ter nenhum contato comigo. O que 
voc quer, a pessoa que voc quer,  Cathy, no eu. No pense que no sei disso, Sam. No sou uma idiota completa, sabe... no mais.
       - No, voc est enganada - disse Sam severamente.
       - Estou? Ento por que est to determinado a se intrometer na vida dela? - perguntou Abbie, zombeteira. - E no tente me dizer que no  isso que est fazendo. 
Por que mas se ofereceria para pagar a recepo do casamento dela? Por que mais voltou para c? Por que mais est planejando se mudar de vez? Tem que ser por causa 
de Cathy, Sam. No h outra razo lgica.
       _ Nenhuma outra razo lgica, talvez - concordou Sam, a voz sbita e estranhamente pesada, quase cansada. - Mas no que se refere a emoes, nenhum de ns 
se comporta com lgica, no ?
       Abbie fungou, cheia de suspeitas.
       - O que est tentando dizer? - perguntou.
       - E realmente minha presena na vida de Cathy que lhe desperta tanta contrariedade? - desafiou Sam, suavemente. - Ou tem medo de que, de alguma forma, isso 
me envolva na sua vida? Somos ambos adultos, Abbie, e partilhamos uma responsabilidade para com nossa filha...
       Abbie prendeu a respirao com a reao imediata de raiva diante da clara injustia do comentrio dele.
       Como ele ousava lhe falar sobre responsabilidade? Ele, entre todas as pessoas!
       - Nossos sentimentos particulares no tm importncia - continuou ele com firmeza -, a prioridade so os sentimentos de Cathy. Ela quer que ns dois estejamos 
no casamento dela; quer que ns dois estejamos envolvidos. Ela quer...
       - Eu sei o que Cathy quer - interrompeu Abbie, sucinta.
       - Ento concordar que, pelo bem dela, precisamos nos encontrar... discutir no s o casamento, mas tentar encontrar um campo intermedirio pacfico entre 
ns, pelo menos at depois do casamento.
       Abbie subitamente se sentiu cansada de discutir, e, alm disso, qual era a vantagem? Sabia que ele tinha razo e suspeitava que Cathy jamais a perdoaria se 
no aceitasse sua vontade de ter os dois envolvidos no casamento dela.
       - Se voc estiver livre esta noite, posso busc-la - ouviu Sam dizer, claramente considerando o silncio dela como uma aceitao. - Pensei que seria prefervel 
para ns conversarmos num lugar neutro. A menos...
       - Sim... sim, concordo - cortou Abbie, cansada. - Mas voc no precisa se dar ao trabalho de vir me buscar. Posso encontr-lo.
       - Se voc prefere assim - concordou Sam cordialmente.
       Enquanto combinavam de se encontrar num pequeno bar local que tinha um restaurante excelente, Abbie se perguntou por que esperara que Sam tentasse persuadi-la 
a deix-lo apanh-la, e por que se sentira to inquietantemente desapontada ao no tentar. De fato, a ltima coisa que queria era passar mais tempo na companhia 
dele do que seria absolutamente necessrio?
       - s 20 horas, ento - ouviu-o dizer.
       - Vinte horas - concordou ela.
       Ser que um fino conjunto de suave l creme, com uma blusa de seda, seria uma roupa exagerada para um jantar no meio da semana, no restaurante de um bar? 
Mesmo tendo uma reputao local de ser um dos melhores lugares para comer? Perguntou-se Abbie inquieta enquanto olhava sua imagem no espelho.
       A Abbie de antigamente jamais usaria creme, considerando a cor sem graa e feia. Os anos no lhe haviam dado apenas algumas linhas finas em torno dos olhos 
- reconheceu -, deram-lhe tambm conhecimento e conscincia de si mesma. Hoje, no precisava mais de roupas para mostrar que tinha confiana em si mesma.
       Ficava muito bem em roupas de cor creme. As linhas fluidas do conjunto indicavam com sutileza as curvas de seu corpo, em vez de destac-las, e se a saia, 
que terminava no meio da panturrilha, fizera Cathy franzir o nariz e reclamar que era comprida demais, ento o longo corte que a dividia na parte de trs era mais 
do que suficiente para provar que no havia necessidade nenhuma de esconder as pernas, o que a fizera escolher aquela roupa.
       Brincos simples de ouro... Um presente que se dera no Natal no ano em que Cathy se formara e Abbie fora convidada, pela primeira vez, a se juntar  Cmara 
de Comrcio local, e o mais sutil toque de um novo perfume que comprara numa de suas raras visitas a Londres. Um olhar final no espelho para verificar se a sombra 
dos olhos era imaculadamente discreta e se seu batom no a fazia parecer como algum fazendo beicinho, esperando ser beijada, e ento estava pronta.
       Uma leve, angustiada expresso lhe passou pelo rosto. Houve uma poca em que o conhecimento de que o batom que passava com tanto cuidado desapareceria com 
os beijos de Sam fizera sua mo tremer tanto de excitao - e no apenas a mo, reconheceu - que suas tentativas de passar o batom tinham que ser abandonadas. Ainda 
doa, mesmo agora, lembrar como se sentira feliz, como estava apaixonada. Teria sido por isso que correspondera ao beijo de Sam? Teria ele adivinhado que, em todos 
os anos de separao, ningum... ningum despertara aquele tipo de reao nela? Como ele se sentira quando a tomara nos braos de novo? Teria se lembrado tambm 
de como fora entre eles, ou teria simplesmente se orgulhado ao perceber que ela era incapaz de esconder a reao a ele? Ficara orgulhoso, gratificado, seu ego inflado 
pelo conhecimento de que ainda tinha o poder de excit-la?
       Conseguiria ele... Cathy, qualquer um, realmente saber ou compreender como se sentia, exatamente o esforo que era para ela v-lo... tentar se comportar racionalmente 
e com calma? Cathy realmente compreenderia o que estava lhe pedindo, ou sua filha simplesmente pensava que uma mulher da idade dela no experimentava mais aqueles 
intensos sentimentos e emoes que considerava uma exclusividade dos jovens?
       Emoes... que emoes?, perguntou-se Abbie, irritada. A nica emoo que sentia, ou queria sentir, pelo ex-marido era dio. A nica emoo que ele merecia.
       O dono do bar, que era um dos seus clientes, recebeu-a com um sorriso caloroso quando ela entrou no bar cheio.
       Sam j estava l e Abbie pde v-lo os observando, enquanto Jeff olhava para ela, a apreciao evidente em sua expresso, conversando sobre negcios, como 
colegas, mas os olhos dele lhe dizendo que era uma mulher que considerava muito, muito atraente.
       Sam, que se levantara quando ela entrara, colocou sobre a mesa o copo que estava segurando e andou com determinao na direo deles, deixando Abbie sem opo, 
a no ser apresent-los. Podia ver o interesse especulativo nos olhos de Jeff... e a inveja masculina... e, reconheceu, Sam tambm. Supunha que devia se sentir contente 
por Sam perceber que outros homens a achavam atraente, especialmente depois do que Cathy contara a ele, mas estava tensa e ansiosa demais para querer fazer jogos 
de poder.
       - Gostaria de uma bebida, ou prefere ir diretamente para nossa mesa? - perguntou Sam.
       - Diretamente para a mesa - respondeu Abbie. Quando foram levados para a mesa, Abbie percebeu que, na mesa ao lado, estavam uma das irms de Stuart e o marido. 
Quando os cumprimentou com um sorriso, Abbie disse a si mesma, irritada, que no havia necessidade de apresentar Sam a eles... afinal, ele os encontraria em breve.
       No estava preparada para admitir, mesmo para si mesma, que se sentira magoada ao saber que ele fora convidado para a festa da famlia de Stuart e ela no.
       No que quisesse ser convidada - negou para si mesma. Era muito mais fcil se relacionar com a me de Stuart  distncia, embora no expressasse seu ponto 
de vista sobre a futura sogra de Cathy pelo bem da filha.
       - Voc parece ser muito conhecida aqui - comentou Sam quando se sentaram.
       - Tenho muitos contatos de negcios - concordou Abbie.
       - E um negcio muito bem-sucedido - disse Sam quando o garom lhes entregou o cardpio.
       - Voc acha isso surpreendente? - Abbie no resistiu ao desafio.
       - No surpreendente... - disse ele, fazendo uma pequena pausa e esperando que Abbie terminasse.
       - No surpreendente, mas... mas o qu?
       Por um momento, achou que ele no responderia, mas ento ele fechou o cardpio que estava estudando e se debruou sobre a mesa para lhe dizer suavemente:
       - No surpreendente, mas me faz me sentir humilde. Que voc tenha a capacidade de fazer de sua vida um sucesso no me surpreende. A matria-prima para isso 
sempre existiu, e apesar de todos os meus outros defeitos, espero nunca ter sido a espcie de homem que no reconhece e admira uma mulher inteligente e corajosa 
quando conhece uma.
       Ele a olhou nos olhos e continuou:
       - No, seu sucesso no me surpreende, Abbie, nem o modo como voc se agarrou  sua independncia, criando Cathy sozinha, dando a ela todo o amor e segurana 
que sei que ela teve s de olhar para ela e observ-la. At o modo como voc se agarrou aos seus... sentimentos sobre mim no me surpreende.
       Sam desviou o olhar, engoliu em seco e voltou a contemplar de novo:
       - Tudo isso apenas me fez sentir humilde e, ao mesmo tempo, magoado, porque refora o conhecimento de que eu tornei isso necessrio, que por causa de minha 
fraqueza voc precisou desenvolver sua grande fora. Quando Cathy me disse pela primeira vez que no havia ningum... um homem em sua vida, a princpio me senti 
tentado a no acreditar nela, mas ento percebi que o que ela dissera era provavelmente a verdade... e por qu... O que, afinal, poderia um homem, qualquer homem, 
lhe dar que voc j no tivesse conquistado sozinha?
       Lanou-lhe um olhar irnico.
       - Uma vez, h muito, muito tempo, acreditei que era o mais forte de ns dois, que seria meu papel cuidar de voc e sustent-la financeiramente, emocionalmente, 
de todas as maneiras... Que eu lideraria e voc me seguiria, que teramos uma parceria, mas uma parceria em que eu seria o parceiro principal. Como estava errado 
e iludido...
       Do outro lado da mesa, Abbie descobriu que estava tendo dificuldade de respirar com o n que se formara em sua garganta.
       - Eu no queria que fosse assim - ouviu-se sussurrando, rouca. - No queria ter que deixar Cathy em creches, depender... depender dos meus pais... v-la crescer 
sem as coisas que as outras crianas tinham. Se trabalhei duro, se lutei para ter sucesso comercial, no foi apenas por ambio por mim mesma... Na verdade, no 
queria nada disso para mim; queria para Cathy... Por que est fazendo isso, Sam? - perguntou. - Por que quer me enfraquecer... me fazer sentir...?
       - Fazer voc sentir o qu, Abbie? O que eu a fao sentir?
       Para Abbie fora o bastante. Levantando-se, empurrou a cadeira, combatendo as lgrimas que ameaavam humilh-la enquanto dizia, com a voz cheia de dor:
       - Voc sabe como me faz sentir. Voc me faz sentir que falhei com Cathy... que dei mais importncia aos interesses comerciais, aos ganhos materiais do que 
aos sentimentos dela, suas necessidades... Ah, pode dizer que me admira, que admira o que fiz, mas so apenas palavras e posso sentir o que est realmente dizendo, 
realmente pensando.
       Abbie respirou fundo, piscou para tentar afastar as lgrimas e continuou:
       - Voc est pensando que por causa do que fiz, por causa do que sou, de alguma forma sou menos mulher, menos feminina, menos digna de ser amada... E, sim, 
isso di. Assim como di saber que Cathy... minha Cathy...
       Abbie no conseguiu continuar, e pela segunda vez em duas semanas viu-se saindo de um restaurante, mal conseguindo controlar suas emoes, enquanto em torno 
dela-os ocupantes das outras mesas a observavam com enorme mas discreta curiosidade.
       A mesa onde a irm de Stuart e o marido se sentavam agora estava vazia, observou ela, grata; pelo menos, assim eles no haviam testemunhado sua humilhao.
       Sam a alcanou quando ela chegou ao carro, segurando-lhe o brao com a mo firme e, no entanto, estranhamente gentil, virando-a para olhar para ele, a testa 
enrugada enquanto dizia:
       - Voc no pode realmente acreditar nisso, Abbie... que eu tentaria deliberadamente magoar voc...
       - Por que no? - ela o desafiou, no mais se importando que ele visse as lgrimas que brilhavam em seus olhos. - Afinal, voc j fez isso antes!
       - Oh, Abbie... Abbie...
       Antes que ela pudesse impedi-lo, ele a tomou nos braos como se ela fosse uma menina, abraando-a, embalando-a, acariciando-lhe os cabelos.
       - Jamais quis magoar voc - ouviu-o sussurrar, emocionado. - No naquela poca... no agora... especialmente no agora.
       - No agora...? - Abbie ergueu a cabea para olhar para ele, tentando no pensar como era bom se sentir assim to perto dele e como era apavorante essa constatao. 
- Por causa... de Cathy? - perguntou, a voz cheia de dor.
       Pelo canto do olho ela viu um casal passando por eles, dirigindo-se para um carro a pouca distncia.
       - Fiz o melhor que pude por ela - disse Abbie, rouca, parte dela chocada pela maneira como estava se expondo e mostrando sua vulnerabilidade a ele, a outra 
parte, de uma forma estranha, aceitando isso como inevitvel... como se fosse, de alguma forma, certo... o que lhe causou um conflito de emoes que no ousava analisar.
       - Pelo amor de Deus, Abbie...
       A raiva que ouvia na voz dele a magoou. Comeou a se afastar, perguntando-se que diabos estava fazendo, mas em vez de deix-la ir puxou-a para mais junto 
dele, a mo ainda lhe acariciando os cabelos, apertando-lhe a cabea de leve enquanto a firmava e abaixava a dele em direo  dela.
       Dessa vez no tentou fingir para si mesma que o que estava sentindo era uma aberrao, que o que estava acontecendo era alguma coisa alm do seu controle 
e que realmente no queria. Reagia a ele, beijando-o com uma fome intensa que nem mesmo tentou esconder, reagindo  forte, exigente presso da boca de Sam, de uma 
forma to antiga como o prprio tempo... Querendo-o, precisando dele, amando-o to intensamente que a dor dentro de seu corpo chegava a ser fsica.
       - No devamos estar fazendo isso, no... no est certo - tentou sussurrar em meio aos beijos frenticos, mas agora as duas mos dele lhe seguravam o rosto, 
a boca mordendo de leve, faminta, a dela, enquanto sentia o batimento rpido do corao e a tenso excitada do corpo dele.
       - E claro que est certo - ouviu-o sussurrar de volta, a voz gutural. - O que no est certo  ficarmos aqui como um casal de adolescentes quando... Deixe-me 
ir para casa com voc, Abbie, h tanta coisa que precisamos dizer um para o outro... tanto que precisamos...
       - Quer dizer que ainda no conversamos sobre o casamento de Cathy? - perguntou, tonta.
       Sentia-se fora de si, confusa pela velocidade com que as coisas tinham acontecido. Seu crebro lhe dizia que precisava de tempo, mas seu corpo fazia exigncias 
mais urgentes e se pressionou contra o de Sam, querendo ficar mais perto, sentindo cada movimento, sabendo que ele j estava excitado e que...
       - Esta  uma das coisas que precisamos discutir - concordou Sam, a voz profunda -, mas no o que tenho em mente. Voc compreende, no  - advertiu-a -, que 
se ficarmos aqui por mais tempo, se continuar com voc em meus braos assim, a questo no  se vamos ou no fazer amor, mas onde. E minha preferncia, como talvez 
se lembre, sempre foi por uma cama grande e confortvel e a privacidade para explorar e amar seu corpo, algum lugar onde...
       - Sam, pare com isso - exigiu sem flego. - Voc no pode... no deve. Como isso pode estar acontecendo? - perguntou-se, perplexa. - No ... no quero...
       - Est acontecendo porque no importa o quanto tentemos negar com o crebro, nossos corpos, nossas emoes ainda precisam, ainda querem um ao outro...
       - No - Abbie tentou protestar, mas sabia que estava perdendo tempo. Bem agora, no havia nada... nada que quisesse mais do que sentir o corpo nu de Sam sobre 
o dela, em torno dela, dentro dela.
       - Abbie, se no parar de me olhar assim, voc sabe o que vai acontecer, no sabe? - ouviu-o gemer, numa advertncia.
       - Ns podemos... podemos voltar para casa... para a minha casa - concordou, insegura, consciente do interesse do outro casal neles e da prpria e crescente 
sensao de excitao e urgncia.
       - Mas - acrescentou rapidamente - apenas... apenas para conversar sobre Cathy e o casamento,  tudo.
       - O que voc quiser - concordou Sam, mas o olhar que lhe lanou enquanto gentilmente a ajudava a entrar no carro lhe disse que sabia exatamente o que ela 
queria, e que ele tambm queria, e que no tinha qualquer relao com a discusso dos planos para o casamento de Cathy.
       S quando chegou em casa, estacionou o carro e viu as luzes do carro de Sam parando atrs do dela, se deu conta do significado pleno do convite que lhe fizera, 
mas, ento, j era tarde demais.
       Sam estava saindo do carro, e enquanto ela fazia a mesma coisa e parava para esperar por ele, seu corpo foi tomado por uma onda de emoes que a enfraqueceu 
e a impossibilitou de se mover. Inevitavelmente, observou-o caminhar para ela, sabendo que agora era tarde demais para interromper o que comeara.
       Quando Sam a alcanou, tocou-lhe de leve o rosto e ento lhe tomou as chaves dos dedos, que pareciam incapazes de reao, segurando-lhe a mo fria com a dele, 
estranhamente confortadora e quente, enquanto destrancava a porta, e ento, quase ternamente, conduziu-a para dentro.
       Assim que a porta da cozinha se fechou, ela disse, parada ali, a voz rouca e hesitante enquanto pedia:
       - Ns realmente no precisamos falar sobre... sobre o casamento agora, no ? Afinal, Cathy e Stuart ainda nem marcaram a data.
       - Arrependida? - perguntou Sam suavemente.
       Abbie no podia fingir que no sabia o que ele queria dizer.
       - Esse foi... esse foi o objetivo do nosso encontro - lembrou ela, trmula.
       - Foi, concordo - respondeu Sam, de forma enigmtica.
       - Mas...
       - Mas o qu? - perguntou Abbie, lembrando a si mesma que era adulta e que o ataque era, em princpio, o melhor meio de defesa. No era mais uma mulher que 
se permitisse adotar um papel passivo num relacionamento, ou na prpria vida.
       - Precisa mesmo perguntar? - zombou Sam, gentilmente.
       - O que aconteceu entre ns no tornou tudo bvio?
       - Nada aconteceu - negou Abbie asperamente, tentando diminuir a tenso que lhe endurecia o corpo, ao pegar a chaleira e ench-la de gua, uma ao automtica 
que o bom senso disse que no seria uma coisa lgica ou sensata a fazer, quando se arrependia desesperadamente de ter permitido que Sam voltasse para casa com ela, 
e desejando que ele fosse embora.
       - Ah, no? Diga isso ao meu corpo - disse Sam, em tom de zombaria de si mesmo, e ento fez o corao dela parar e o pnico explodir quanto acrescentou, devastadoramente: 
- E ao seu. Afinal - continuou, a voz baixa -, o que quer que haja de errado entre ns, qualquer erro que eu tenha cometido, sexualmente as coisas sempre foram...
       Parou de falar e olhou para ela, o azul dos olhos escurecendo.
       - Tem alguma idia de como foi? - perguntou, a aspereza da voz ofendendo-a. - Dormir sozinho na mesma cama onde horas antes voc se deitara comigo, fazendo 
aqueles sons suaves e macios de prazer quando fazamos amor, emitindo aqueles deliciosos, satisfeitos arquejos que significavam que voc me queria. Tem alguma idia 
de como foi acordar numa cama vazia, fria, sem voc ao meu lado... estendendo a mo para voc durante a noite e nada encontrando? Sabia que, durante a noite, no 
sono, voc costumava se aninhar junto a mim, enrascando seu corpo no meu o mximo possvel, como se no pudesse suportar perder contato comigo? Eu costumava ficar 
l deitado, observando-a, sentindo o prazer de saber como voc era completamente minha e o quanto eu amava voc.
       Alguma coisa no modo como olhava para ela, na sombra escura dos olhos, que combinavam com o tom de profunda melancolia da voz, encheu Abbie com um misto de 
dolorosas emoes. As palavras dele despertaram sentimentos que mantivera adormecidos. No apenas dos outros, mas de si mesma tambm. Porque no conseguira suportar 
o conhecimento de que os tinha.
       Em vez disso, ela se apegou  sua raiva, precisando dela para se Sustentar, para se amparar, porque, se no o fizesse... se tivesse se permitido reconhecer 
aqueles sentimentos, aquelas outras dores, no teria sido capaz de sobreviver.
       E agora Sam a obrigava a se lembrar deles, forando-a a reconhecer uma dor to intensa e to avassaladora que instintivamente tentou afast-la e neg-la, 
o pnico a domin-la enquanto se voltava para enfrent-lo, como um animal ameaado pelo caador, exclamando amargamente:
       - No, voc no me amava. Se amasse, nunca duvidaria de mim, nunca acreditaria que eu fosse infiel a voc. Voc fala do que sentiu. O que acha que sua rejeio... 
suas acusaes fizeram comigo? Voc nunca me amou, no podia ter me amado. Voc...
       - Abbie, voc est enganada, eu...
       Quando Sam se aproximou, segurando-lhe os braos enquanto lhe falava com urgncia, Abbie reconheceu que dissera a coisa errada, fizera a coisa errada.
       - No, voc no me amava - negou. - No podia ter me amado...
       Sabia que ele ouvia o pnico na voz dela, e todo seu corpo comeou a tremer quando ele exigiu:
       - Por que diz isso? Por que  to importante para voc acreditar que no a amava? Reconheo abertamente que o pior, o maior erro que cometi em toda a minha 
vida foi negar minha paternidade, mas a ltima coisa que faria agora para amenizar esta traio seria mentir sobre meus sentimentos, sobre o amor que tinha por voc.
       - No era amor... era apenas sexo - insistiu Abbie freneticamente. - Apenas sexo...
       - Para voc, talvez - disse Sam -, no para mim... nunca para mim. Foi isso? Foi por isso que foi capaz de me abandonar to facilmente, Abbie... porque era 
apenas sexo para voc? - perguntou, a amargura evidente na voz.
       Abandon-lo to facilmente! Abbie conseguiu com dificuldade suprimir um soluo que era um pouco angstia e meio histeria. Se apenas ele soubesse... Se apenas 
soubesse o quanto havia sofrido... quanto dano lhe causara... como fora difcil continuar vivendo sem ele. A nica coisa, a nica pessoa que a mantivera de p fora 
Cathy... a conscincia de que precisava ser forte, de que precisava sobreviver pelo bem de Cathy. E mesmo ento...
       Ela estremeceu, lembrando o aviso severo que o mdico lhe dera de que se no comeasse a se alimentar adequadamente e a cuidar de si mesma corria o risco 
de perder o beb. Isso fora nas primeiras semanas depois da separao, quando at o pensamento de comida, sem pensar na viso dela, a fazia sentir fortes nuseas. 
Quando tudo o que queria era chorar e lamentar a perda do seu amor, quando tudo o que queria era fugir da carga pesada de seu corao partido e sua misria... E 
isso era o que Sam chamava de fcil...
       Fcil. Mesmo agora, depois de todos esses anos, os sons surdos da antiga dor ainda ecoavam  distncia, fazendo-a querer se encolher e tremer, se esconder 
do efeito devastador daquela ameaa, como se fosse uma criana pequena encolhida de terror ao primeiro ribombar de um trovo. Mas no o deixaria ver isso... no, 
nem por um minuto. Seu orgulho no permitiria. Erguendo o queixo, obrigou-se a olhar para ele com calma.
       - Suponho que deva ter sido. Afinal, naquela idade,  difcil ver a diferena, no ? E eu era muito inexperiente e ingnua - acrescentou, sem fazer muito 
sentido. - Sexo e amor, no que me dizia respeito na ocasio, eram a mesma coisa.
       - Mas agora, naturalmente, voc conhece a diferena.  isso? - desafiou Sam asperamente.
       Quando ouviu a raiva reprimida na voz dele, Abbie o olhou, seu corao batendo forte diante da expresso nos olhos de Sam. De alguma forma, em algum lugar, 
cometera um equvoco, e um dos grandes, reconheceu.
       Mas agora era tarde demais para lamentar ou desmentir o que dissera. Podia apenas continuar, ou desistir, e certamente no faria isso.
       - Sim, suponho que sim - concordou friamente, a voz a traindo com um leve tremor enquanto tentava se livrar da mo dele. - Seria bem estranho se no conhecesse, 
no acha?- acrescentou, para deixar bem clara sua posio.
       A ltima coisa que queria era deixar que ele descobrisse que jamais houvera outro homem em sua vida depois dele, que quando acordava no meio da noite, seu 
corpo doendo, sua cama vazia...
       - timo, ento saber exatamente o que isso  - ouviu Sam dizer enquanto, em vez de solt-la, como esperava, apertou o abrao, puxando-a contra seu corpo 
e abaixando a cabea para a dela.
       Desesperadamente, Abbie tentou virar o rosto para o lado, para fugir, para evitar o que sabia que aconteceria, mas Sam antecipara seu movimento, libertando-lhe 
o brao e segurando-lhe a cabea e o rosto, a palma contra o queixo, os dedos nos cabelos dela, obrigando-a a manter a cabea imvel.
       A sensao da respirao dele contra seu rosto a fez tremer, traindo-se, sua negativa verbal ao que estava prestes a acontecer apenas um pequeno, explosivo 
som que mostrava mais pnico do que resistncia real, reconheceu Abbie.
       - O que sua experincia lhe diz que esse sentimento significa, Abbie? - exigiu Sam selvagemente contra sua boca.
       - Sei exatamente o que  - respondeu ela igualmente selvagem. - Mas voc no pode...
       - Se sabe, ento no tenho que me justificar - interrompeu Sam, a voz profunda e rouca. - E j que no consigo enganar voc, no precisa haver fingimento 
entre ns, precisa?
       Abbie tentou dizer que, no que lhe dizia respeito, no havia motivo nenhum para que existisse mais alguma coisa entre eles, mas assim que ela abriu a boca 
Sam a cobriu com a dele. 
       Uma sensao chocante de prazer e familiaridade a engolfou, e Abbie sentiu o corpo reagir  presso exigente da boca de Sam.
       Enquanto tentava se afastar da intimidade sensual do beijo de Sam e descobriu, com uma dor que lhe atravessou o corao, que ele no s a estava impedindo 
de se afastar, mas que seu prprio corpo o estava ajudando, Abbie reconheceu, tonta, que aquele no era um beijo suave e delicado como o que um novo amante poderia 
dar; era o beijo de um homem que sabia que no precisava de carcias preliminares... o tipo de beijo permissvel, aceitvel apenas entre amantes de longa data e 
muito
       Como seus lbios podiam se abandonar assim aos dele? Como podiam se abrir, suaves, sua lngua timidamente recebendo e retribuindo as invases mais rtmicas 
e profundas da dele? Como seu corpo podia estremecer, amolecendo, rendendo-se to obviamente e to facilmente s silenciosas exigncias do beijo dele?
       O beijo dele... No era apenas um beijo que ele impunha aos seus vulnerveis e traidores sentidos, era... era... uma seduo... uma paixo... uma posse de 
tal magnitude que lhe tirava o flego, uma posse aberta e ousada, reconheceu Abbie, trmula, enquanto Sam a puxava para mais junto ainda do corpo dele. Suas mos 
lhe acariciavam as costas, passavam pela cintura, os quadris, empalmando-lhe os suaves montes das ndegas enquanto ele...
       Sob a boca de Sam, Abbie emitiu um pequeno gemido de protesto, todo o corpo estremecendo em reao, enquanto Sam respondia  conscincia do corpo dela ao 
dele com uma estocada ainda mais profunda e mais explicitamente sensual da lngua, combinada com os movimentos cada vez mais urgentes de seus quadris... a virilha 
apertada fortemente contra a vulnervel maciez do corpo dela.
       Abbie reconheceu que estava literalmente tremendo dos ps  cabea, impotente, totalmente incapaz de controlar ou esconder sua reao fsica a ele. E este 
era apenas o sinal externo de sua conscincia fsica de Sam... apenas a ponta do iceberg fsico dentro dela que ele excitara... se iceberg era a palavra correta 
para descrever uma sensao que gerava tanto calor.
       H quanto tempo seu corpo no experimentava esta instantnea e familiar pulsao dolorosa? Esse impulso intenso de abandono total, de comprimir o corpo cada 
vez mais contra o dele, de combinar os movimentos do corpo dele com os igualmente e explicitamente sensuais movimentos dela... de estender as mos para toc-lo, 
de comprimir os lbios na pele dele, naquela pequena depresso na base do pescoo, mida com as minsculas gotas de suor sexualmente gerado, de acariciar com a ponta 
dos dedos os pelos que lhe escureciam o peito, e todo o tempo sentir a prpria excitao e urgncia crescerem no ritmo que combinava com o dele, enquanto o atormentava...
       Enquanto Abbie provocara os dois com pequenas, pequenas carcias e lambidas, observando a crescente pulsao na base do pescoo de Sam, sabendo que a urgncia 
dele era igual, mais do que igual,  pulsao igualmente poderosa e muito, muito mais abertamente ertica de outra parte do corpo dele, sabendo que, quando finalmente 
abaixasse a cabea e o atormentasse naquela parte... naquele lugar... com a ponta da lngua, como estava fazendo com o pescoo dele, Sam seria totalmente incapaz 
de segurar o gemido de prazer angustiado pelo que ela estava fazendo.
       Internamente, secretamente, o desejo de Abbie seria alimentado e multiplicado pela sensao de poder que sua feminilidade lhe dava ao saber como o excitava, 
como conseguia levar ao limite o controle dele, como era intenso o grau de prazer que podia dar a ele apenas com o delicado roar de seus lbios e lngua... H quanto 
tempo? Tempo demais... demais... Abbie se ouviu gemer desamparadamente de desejo, o corpo preso no chamado poderoso de suas perigosas lembranas, dominando o mecanismo 
protetor de seu crebro, que lutava para impedir o que estava acontecendo a seu corpo.
       Instintivamente, seu corpo se aproximou ainda mais do de Sam, seus quadris repetindo o movimento dos dele, as mos escorregando pelos ombros dele, descendo 
pelas costas, sentindo os msculos endurecidos, ainda to fortes e tensos como sempre tinham sido, a cintura estreita, as ndegas...
       Abbie sentiu o calor engolf-la enquanto as mos e os dedos, ignorando o afastamento crtico do crebro, apertavam os msculos deliciosamente rijos, acariciando-os 
com intimidade ertica e familiar. O que havia nessa parte da anatomia de um homem que a tornava to atraente, que causava tanto prazer ao ser tocada, apertada?
       O mesmo instinto que fazia um homem procurar o suave calor dos seios de uma mulher?, perguntou-se Abbie em perplexidade sensual, enquanto Sam, quase como 
se tivesse lido seus pensamentos e ento agido de acordo, tomou-lhe os seios nas mos, a principio os acariciando suavemente, e a seguir com fora, enquanto a boca 
de Abbie se abria ansiosamente sob a dele, com o prazer incontrolvel e desinibido causado pela forma como a tocava, com mais urgncia, mais possessividade. Abbie 
estremeceu quando sentiu os mamilos enrijecerem em reao entusiasmada ao toque dele.
       Por que o corpo dela respondia to imediatamente, to avassaladoramente ao toque de Sam? Especialmente quando, durante todos os anos em que estiveram separados, 
ela tivera tanta certeza, estava to convencida de que, quando ele destrura seu amor, destrura tambm seu desejo por ele, sua capacidade de reagir to intensamente 
a ele. Afinal, como podia ficar to fisicamente excitada por um homem que no amava... no podia amar? Como podia ele ainda querer uma mulher que acreditava t-lo 
enganado... uma mulher em quem no podia confiar?
       Como podiam os dois estar aqui assim... juntos... seus corpos to ansiosos e desejosos um do outro como haviam sido todos aqueles anos atrs? Querendo um 
ao outro com toda a impacincia, a ansiedade intensa e a necessidade de que se lembrava to bem e que tentara tanto esquecer? Mas agora, unida  ansiedade juvenil, 
havia uma fome ainda maior... um conhecimento que derivava da maturidade e da conscincia plena de si mesmos e de sua sexualidade.
       A tmida adolescente, que havia to confiantemente permitido que Sam a ajudasse a explorar e conhecer a prpria sexualidade, fora substituda por uma mulher 
de igual potncia sexual, reconheceu Abbie, uma parceira ativa, e no passiva, na dana sensual do amor. Uma mulher cujo desejo era to forte e consumidor, que ela 
mesma se assustava com seu poder exigente.
       Sentiu que Sam comeava a libertar sua boca, a lngua se afastando da intimidade com ela, e imediatamente deixou escapar, no fundo da garganta, um som baixo 
de protesto, fechando os lbios em torno dela e sugando-a sensualmente, os dentes mordendo-lhe de leve e apaixonadamente o lbio inferior, enquanto sentia a violenta 
onda de reao que fazia o corpo dele estremecer.
       - Abbie... Abbie...
       A voz dele tinha realmente aquele tom to profundo, quase gutural, de excitao masculina e conscincia do poder feminino dela todos aqueles anos? Abbie acreditava 
que no, porque, ento, ele teria estado sempre no controle, mesmo que fosse um tipo de controle amoroso, cuidadoso, protetor. Agora, suspeitava ela, sem saber como 
adquirira esse conhecimento, ele no estava nem perto de ser o senhor da situao. Podia sentir as mos trmulas dele em seus seios, e quando as pontas dos polegares 
acariciaram seus mamilos rijos, o corpo dele reagiu com a mesma intensidade do seu ao estmulo.
       Podia sentir a respirao dele se tornar mais rpida e o corao disparar enquanto lhe atormentava a boca com beijos quentes, mordidos, sentindo no apenas 
o calor almiscarado da boca masculina, mas tambm a euforia do prprio poder de comandar a sexualidade dele.
       - Oh!, Deus, tem alguma idia do que est fazendo comigo? De quanto quis isso... ansiei por isso... do por isso... tive fome disso... de voc? - Abbie ouviu-o 
perguntar, enquanto sua boca descia pelo pescoo dele, pelo queixo. O corao de Abbie batia com fora ao reconhecer a excitao que ele sentia.
       Lembrando-se exatamente de como seus ento tmidos beijos na base do pescoo dele tinham sido um preldio... Ele se lembraria? Lembraria? E, se lembrasse, 
como reagiria agora? Ou ele...?
       O corao de Abbie pulou de excitao e incerteza quando seus lbios lhe tocaram a umidade do pomo-de-ado e ento deslizaram, midos, para baixo. Sentiu 
o calor sob a pele de Sam subitamente aumentar, queimando os dois, enquanto ele comeava a estremecer to violentamente que por um momento ela se sentiu realmente 
alarmada.
       Mas quando tentou se afastar dele, as mos de Sam a seguraram contra o corpo, enquanto implorava, os dentes cerrados:
       - Oh!, Deus, Abbie, no pare agora, pelo amor de Deus. No pare agora... Se apenas voc soubesse...
       O resto do que estava para dizer se perdeu enquanto o corpo dele convulsionava numa segunda srie de tremores contra o dela, e o desejo e a excitao de Abbie 
aumentaram para se ajustar aos dele, a ponta da lngua de Abbie passando ansiosamente pela umidade da pele dele, a mente registrando automaticamente as palavras 
que ele dizia e reagindo a elas enquanto lhe pedia com urgncia:
       - Toque-me, Abbie... Tire minha roupa... minha camisa... sim... isso mesmo... desabotoe...
       Ela tremia tanto que, no fim, teve que usar as duas mos, arrancando os botes quando no conseguia tir-los das casas, mas Sam parecia inconsciente da falta 
de jeito, dos estragos que ela fazia na camisa, o peito se expandindo rapidamente quando respirou fundo, ento ergueu as mos para mergulhar os dedos nos cabelos 
dela e pux-la para ele.
       Sentiu a espinha se curvar, o corpo dele enrijecer enquanto ela beijava a carne masculina que acabara de expor, a pele bronzeada, mais escura do que se lembrava, 
mas a textura, a sensao e o cheiro, especialmente o cheiro, eram exatamente os mesmos. Sentiu a umidade no rosto quando encostou a cabea contra o peito dele e 
o roar familiar dos pelos em sua pele, mas apenas alguns momentos depois reconheceu que a umidade era causada pelas prprias lgrimas.
       Lgrimas... dela... porqu?
       Perplexa e confusa, Abbie ergueu a mo para o rosto, mas Sam chegou antes dela, os dedos gentis, quase ternos, quando lhe tocou o rosto molhado, e ento ergueu 
os dedos at a boca, provando suas lgrimas, os olhos escurecendo quando disse, asperamente:
       - Oh!, Deus, Abbie, o que fizemos um ao outro, a ns? Por que ns...
       Abbie comeou a tremer. No queria falar sobre o que havia acontecido. No queria ressuscitar o passado e se arriscar a destruir o que estavam partilhando 
agora. No queria ter que analisar e dissecar o que havia acontecido... trazer de volta  vida a dor que sempre negara sentir. Tinha medo demais que, se o fizesse... 
uma vez que o fizesse...
       Rapidamente virou a cabea e comeou a beijar o peito de Sam. Furiosamente, quase com raiva, a princpio, depois mais lentamente, saboreando-lhe o gosto e 
a textura, enquanto suas emoes exacerbadas lhe transmitiam o sabor e o gosto familiares dele. Um pequeno mamilo estava tentadoramente perto dos lbios dela. Moveu 
a cabea ligeiramente  os deixou se fecharem gentilmente sobre eles, saboreando sua textura, passando a lngua suavemente em torno dele, e ento, mais ousadamente, 
sobre ele. Sentiu o corpo de Sam ficar tenso e ento estremecer.
       De alguma forma, suas mos haviam escorregado pelo peito dele e agora descansavam exatamente sobre seu cinto. Sentiu-o segurar a respirao quando lenta e 
deliberadamente comeou a circular-lhe o umbigo com a ponta da lngua.
       Esperou at ele comear a relaxar levemente e soltar a respirao, e ento fechou a boca em torno dele e muito, muito lentamente, comeou a sugar.
       O som produzido na garganta de Sam pareceu nascer nas profundezas de seu corpo. Os braos dele a apertaram com tanta fora que ela sentiu que o ar lhe escaparia 
dos pulmes.
       - Se voc no parar com isso agora, vou... - ouviu-o protestar, a voz rouca morrendo enquanto ela deliberadamente aumentava a presso delicadamente sensual 
da boca, a prpria ex-citao e desejo crescendo ao reconhecer o prazer que sentia por ser capaz de lev-lo, to perigosamente, ao limite do controle. Se podia excit-lo 
tanto apenas fazendo isso, como ele se sentiria... o que ele faria... o que aconteceria se o tocasse mais intimamente? Atorment-lo s um pouco mais provocantemente? 
Se ela...?
       - H apenas um modo de voc perceber o que est fazendo comigo, que  lhe dar um gostinho do seu prprio remdio - ouviu Sam lhe dizer, a voz inesperadamente 
muito mais firme, enquanto a surpreendia completamente ao tom-la nos braos e se dirigir para a porta da cozinha.
       Uma das mos a aprisionava enquanto ela se segurava nele, meio temerosa de ele deix-la cair, e a outra... a outra, percebeu ela com um pequeno susto de excitao 
nervosa, estendia-se para seu suti...
       - Para onde est indo? O que est fazendo? - perguntou, sem flego, o protesto substitudo por um pequeno arquejo de surpresa no apenas pela facilidade com 
que a carregava, mas com  deliciosa sensao de prazer de saber que s o que havia entre a sensao da mo dele em sua pele, da boca em seu corpo, era a fina seda 
do seu top.
       - Estou levando voc para a cama, onde posso lhe mostrar exatamente como  ter algum atormentando-a, brincando com voc como voc fez comigo, e quais so 
as conseqncias de um comportamento to perigoso - disse Sam, acrescentando suavemente: - A menos,  claro, que prefira ficar aqui. Esta mesa da cozinha parecer 
ter a altura certa... embora talvez, na sua idade, suas costas no agentem...
       - No h absolutamente nada de errado comigo... nem minha idade nem minhas costas - interrompeu Abbie, furiosa. - Afinal, ainda sou seis anos mais nova que 
voc, Sam, e  bem evidente que voc no  incapaz de... ou j tenha passado da idade de...
       - Adoro saber que pensa assim - disse Sam, rindo dela e acrescentando, maliciosamente: - Mas voc no deveria, talvez, deixar esses elogios para quando forem 
realmente merecidos? E eu tenho toda a inteno de merec-los - disse lentamente, e dessa vez no havia riso nos olhos ou na voz dele, Abbie observou enquanto seu 
corao dava um pulo assustador e seus mamilos, para sua consternao e constrangimento, subitamente se ergueram, to rijos que eram claramente visveis sob seu 
top.
       Sam os vira, sabia, e a viso dele focalizando a ateno neles agora, enquanto abria a boca de leve e passava a ponta da lngua no lbio superior, despertou 
uma sensao no corpo dela que a fez, de um modo chocante e envergonhado, perceber quo pouco seria necessrio para ele lhe proporcionar uma completa satisfao 
fsica.
       Seu primeiro orgasmo fora uma experincia desconhecida e avassaladora, o fim de uma lenta e terna jornada. Ter que reconhecer agora que s o pensamento do 
toque dele, da boca sugando seus sensveis mamilos, era praticamente o suficiente para ela atingir aquele objetivo to intensamente perturbador quase a amedrontava.
       - No se mova, Abbie - ouviu Sam advertir com voz rouca -, porque, se o fizer, no conseguirei chegar at aquela porta, muito menos at sua cama.
       A princpio, achou que ele havia realmente lido seus pensamentos e soubera o que estava sentindo, mas quando olhou, perplexa, para o rosto dele, percebeu 
que ele estava se referindo  prpria excitao.
       - Isso no pode estar acontecendo - protestou Abbie enquanto ele a carregava para o andar superior. - No somos um casal de adolescentes, ns nem mesmo...
       - Nem mesmo o qu? - perguntou Sam asperamente enquanto passava pela porta aberta do quarto e delicadamente a punha em p, o corpo dela to perto do dele 
que podia sentir cada centmetro dele nela. - Nem mesmo temos o direito de sentir desejo, de querer um ao outro? Quem disse? No nossos corpos, Abbie, nem nossos 
sentidos... nossas emoes... todos dizem... - repetiu ele, sua voz lenta e grossa enquanto erguia as mos e lhe segurava o rosto.
       Beijou-a lenta e gentilmente a princpio, depois com mais urgncia, como se no pusesse se impedir, como se estivesse faminto dela, como se estivesse prestes 
a morrer de fome dela, como se fosse a nica mulher que jamais quisera... como se soubesse que era o nico homem que ela jamais quisera.
       - Oh!, Deus, Abbie - ouviu-o sussurrar numa voz abafada pela angstia enquanto a boca descia pelo corpo dele, deixando uma trilha mida no tecido do top antes 
de finalmente se fechar sobre seu seio, procurando-lhe o mamilo, sugando-o, faminto, passando a lngua sobre ele, em torno dele, mordendo-o delicadamente e, oh!, 
to eroticamente que Abbie quis rasgar o top e segurar-lhe a cabea contra o corpo dela.
       Abbie no se lembrava de ter se despido, apenas do doce e selvagem prazer da nudez partilhada, do prprio reconhecimento de que tudo o que havia mudado no 
corpo dele era sua masculinidade mais poderosa, e tudo o que mudara no dela era sua reao mais intensa a ele.
       Uma vez ficou tensa brevemente, hesitante, tremendo com um misto de incerteza e anseio insuportvel quando Sam se ajoelhou diante dela e tirou sua calcinha, 
ento fez um crculo ertico de beijos em torno do umbigo, depois se movendo para baixo, e ela estremeceu violentamente de excitao e emoo quando ele mergulhou 
o rosto em seu corpo nu, sentindo-lhe o cheiro, abertamente se deliciando com a quente, mida sensao dos pelos dela contra a pele dele.
       - No - protestou Abbie, tentando rapidamente se afastar quando os lbios dele roaram a pele delicada de sua virilha. Se a tocasse agora, descobriria como 
estava mida, como estava pronta para ele... E se no tocasse...
       O pequeno gemido que lhe escapou o alertou para o que estava acontecendo. Com intenso constrangimento, ela reconheceu que o som reativara uma antiga lembrana 
dos sinais e sons de sua excitao, porque a mo dele imediatamente lhe cobriu o sexo com gentileza, como se tentasse confort-la e lhe dar firmeza, e ento, deitando-a 
na cama e acompanhando-a desavergonhadamente, exibir a prpria excitao...
       O que havia na viso daquele nico e especial homem que podia fazer uma mulher sentir os joelhos enfraquecerem? Ench-la com um misto de assombro e conscincia 
protetora  inesperada beleza de alguma coisa que era ao mesmo tempo to orgulhosamente masculina e quase ridiculamente vulnervel, to forte e, no entanto, to 
potencialmente frgil, to perigosamente fcil para a mulher certa despertar e excitar, e ainda mais perigosamente fcil para destruir e reduzir. A palavra errada, 
a ao errada... at mesmo apenas o olhar errado.
       - O que voc quer, Abbie? - ouviu Sam perguntar, a voz profunda. - Minha mo... minha boca... meu corpo...
       - Voc, eu quero voc - ouviu Abbie responder num gemido frentico, e os prprios pensamentos foram esquecidos, abafados pelo alvio de ter Sam tocando-a, 
deitando-se sobre ela, para que pudesse senti-lo todo, para que pudesse abrir as pernas e se enrolar em torno dele, silenciosamente exigindo que ele se movesse para 
mais perto dela, mais perto, mais profundamente e ainda mais profundamente, at que ela fosse capaz de acompanhar, oh!, to facilmente lembrado, o ritmo de suas 
investidas, movendo-se com elas e contra elas, as vozes se erguendo e se misturando em necessidade e excitao mtuas, em exultao e xtase mtuos, enquanto seus 
corpos explodiam num orgasmo quase imediato. E, ento, os sussurros murmurados de exausto mtua, enquanto as palavras de elogio e prazer eram murmuradas no ouvido 
um do outro...
       Abbie abriu os olhos em confuso sonolenta. Sam no estava dormindo no seu lado normal da cama. O corpo dela estava todo misturado no dele e seus cabelos 
estavam presos sob o brao dele.
       Sam... De repente, Abbie acordou completamente - Isso no era naquela poca, mais de 20 anos atrs. Isso era agora... agora... e fizera o imperdovel e o 
inacreditvel.
       E, o que era pior, no fora apenas uma vez. Para seu constrangimento, reconheceu que em algum momento adormecera nos braos de Sam, o corpo to saciado e 
exausto pelo prazer que ele lhe dera que nem tivera tempo de se afastar dele, porque ainda estava deitada onde fizeram amor pela ltima vez, naquela gostosa, confortvel 
posio que haviam descoberto nos primeiros meses de seu casamento...
       Em algum momento, Sam devia ter pegado o edredom, que haviam chutado para o lado mais cedo, quando seus atos de amor tinham sido tudo menos gentis ou delicados, 
porque estava agora sobre eles e em torno deles, cobrindo-os, e na luz fraca podia ver como suas roupas estavam jogadas e espalhadas pelo cho do quarto...
       Fez um movimento para se afastar, mas no sono Sam a apertou contra ele. Realmente devia acord-lo, dizer a ele... realmente devia... Abbie bocejou e ento 
bocejou de novo; a tentao de se aninhar de novo contra o corpo dele era avassaladora demais para ser ignorada. Afinal, qual era o perigo agora? De manh discutiriam 
o que havia acontecido, reconheceriam que tinha sido um erro... alguma coisa que era melhor esquecer, ignorar...
       Uma reao fsica entre eles, que nenhum deles fora realmente capaz de controlar e que, suspeitava, os pegara desprevenidos. Passar uma noite de sexo apaixonado 
com o ex-marido podia no ser a coisa mais sensata que j fizera na vida, reconheceu Abbie, mas havia circunstncias atenuantes e sabia que era uma coisa que nunca 
mais faria de novo. Tinha o direito de cometer erros, no tinha?, perguntou corajosamente  prpria conscincia, que a atormentava.
       Ele no a ama, lembrou a si mesma. Voc no o ama. Talvez, admitiu ela, mas haviam se amado uma vez, e aquela noite... Aquela noite o qu? Aquela noite havia 
sucumbido a uma necessidade, um desejo, um anseio que nem mesmo sabia que sentia?
       Era tarde demais para se arrepender do que havia acontecido, disse a si mesma, cansada. Tudo o que podia fazer agora era tentar diminuir os danos, e isso 
inclua no entrar em pnico por alguma coisa que no podia mudar, pelo menos at Sam acordar e eles conversarem racionalmente sobre a situao... o que no tinha 
probabilidade de acontecer se insistisse em acord-lo agora, quando estava dormindo to profundamente.
       Amanh, suspeitava, ele estaria to ansioso para esquecer o que acontecera quanto ela. Amanh... bocejou de novo e fechou os olhos, o corpo junto ao de Sam, 
finalmente relaxando no sono.
       Ao lado dela, Sam abriu os olhos e olhou para o rosto de Abbie, sua prpria expresso sombria. Teria feito a coisa certa, ou havia estragado tudo? Quando 
ela o olhasse pela manh, seria com dio ou... ousaria ele se deixar ter esperana no impossvel?
       Gentilmente, muito gentilmente, tomou o corpo adormecido de Abbie nos braos, bem perto do dele, intimamente perto do dele, e segurou-o fortemente.
       
       
       
     Captulo Sete
       
       
       - Me... Me, por que o carro do papai est estacionado a fora? Por que... Oh!
       Abbie se sentou rapidamente na cama, segurando com fora o edredom sobre o corpo nu, o rosto queimando com uma onda escarlate de culpa e constrangimento quando 
Cathy invadiu o quarto e parou, assombrada, a boca aberta num "O" redondo de choque enquanto olhava os dois ocupantes da cama de sua me.
       - Oh! - repetiu, mas dessa vez o rosto estava aberto num sorriso de imensa e maliciosa alegria, enquanto olhava do rosto vermelho e constrangido de Abbie 
para o de Sam, impassvel e controlado.
       - Oh!, isso  maravilhoso, excelente... apenas esperem at eu contar a Stuart o que aconteceu. Oh!, estou to feliz!, Quando aconteceu, quando vocs dois 
decidiram ficar juntos de novo? E sem dizer nada... como puderam manter isso em segredo? Oh!, isso  maravilhoso... Oh!, me, estou to emocionada...
       Lgrimas de felicidade encheram os olhos de Cathy e lhe escorreram pelas faces enquanto corria at a cama e abraava os dois, primeiro Abbie, depois Sam, 
antes de se voltar e correr para a porta, dizendo sobre o ombro enquanto saa:
       - Stuart est esperando l embaixo. Eu o fiz me trazer aqui porque estava to preocupada com voc, me, voc parecia to deprimida. Se apenas soubesse o que 
estava acontecendo! Apenas espere at eu contar a ele sobre isso... apenas espere at eu contar a todo mundo...
       - Cathy - protestou Abbie, conseguindo finalmente controlar o choque o suficiente para encontrar a voz, mas era tarde demais; podia ouvir Cathy contando a 
Stuart, excitada, o que acontecera... ou pelo menos o que pensava ter acontecido.
       - Stuart est to contente quanto eu - anunciou ela, reaparecendo na porta momentos depois. - No vamos ficar, foi apenas uma visita rpida, e tenho certeza 
de que vocs dois no vo se incomodar - acrescentou maliciosamente, com um olhar de censura brincalhona para as roupas dos pais ainda espalhadas de modo to denunciador 
pelo cho. - Divirtam-se - aconselhou, com um sorriso. - E, lembrem-se - acrescentou com uma advertncia divertida -, sempre faam sexo seguro.
       Sexo seguro. Abbie podia ouvir Cathy rindo enquanto corria pela escada. Ao lado dela, ouviu Sam limpar a garganta e ento se desculpar, a voz rouca.
       - Sinto muito... devia ter pensado nisso a noite passada, mas... bem, no  realmente um problema para mim, desde que...
       - Desde que o qu? - desafiou Abbie amargamente, mas mantendo a voz baixa para que Cathy no os ouvisse. - Desde que sentiu que estava tudo bem presumir que 
eu teria tomado as precaues necessrias?
       Podia sentir o comeo da reao ao que havia acontecido. Uma sensao de impotncia irritada e raiva tomava conta de Abbie, enquanto pensava nas conseqncias 
do que acontecera.
       - Bem, infelizmente, no  o caso. Apesar do que voc parece pensar, e obviamente bem diferente da sua, minha vida no inclui o tipo de... intimidade... o 
tipo de vida sexual que torna isso necessrio - concluiu, rgida.
       No sabia bem por que a convico evidente de Sam, de que ela deveria automaticamente estar usando algum tipo de controle de natalidade a magoava tanto, mas 
magoava.
       - Alm disso - acrescentou, furiosa, deixando a voz subir um pouco quando ouviu a porta de trs se abrir e fechar e depois o som do motor do carro, anunciando 
que Cathy e Stuart haviam sado -, no que me diz respeito, temos coisas muito mais importantes para nos preocupar do que a chance improvvel... uma chance extremamente 
improvvel... de eu conceber um filho seu pela segunda vez.
       Pela primeira vez desde que Cathy havia invadido o quarto Abbie conseguiu olhar diretamente para Sam. Como ela, ele havia se sentado imediatamente na cama 
assim que Cathy entrara, mas, ao contrrio dela, no fizera esforo nenhum para cobrir sua nudez com o edredom... nenhuma expresso de culpa no rosto dele sob a 
proteo inadequada.
        luz clara da manh, seu torso parecia to firme e musculoso como ela sentira na noite anterior. Havia um pequeno hematoma na base do pescoo - reconheceu 
Abbie, sentindo o calor lhe queimar o corpo quando se lembrou de como o conseguira -, e sua boca tinha aquela aparncia ligeiramente inchada decorrente de ter sido 
muito apaixonadamente e intensamente beijada... como a dela. Tocou os lbios com a ponta da lngua, experimentalmente, e o rosto ficou ainda mais vermelho.
       - Qual  o problema? - perguntou Sam, franzindo a testa. - Dolorida?
       Dolorida? Abbie olhou fixamente para ele, o rubor se acentuando apesar de seus esforos para control-lo.
       - Qual  o problema? - repetiu ela. - Precisa mesmo perguntar? Voc ouviu Cathy... Acho que agora toda a cidade j a ouviu. Ela pensa que voc e eu... que 
ns...
       - Estamos dando uma segunda chance ao nosso relacionamento? - sugeriu Sam.
       Abbie percebeu que ele parecia extraordinariamente despreocupado, a falta de reao de Sam de alguma forma aumentou sua j crescente sensao de pnico e 
raiva.
       - Voc a ouviu - repetiu ela. - J contou a Stuart... e agora est a caminho de contar a todo mundo. Por que voc no disse alguma coisa a ela... a impediu...?
       - Por que voc no disse? - replicou Sam. Abbie olhou para ele fixamente.
       - Como o qu? - perguntou ela. - Como, s porque ela nos encontrou juntos na cama, isso no significou... no significa... voc sabe o que estou tentando 
dizer - acusou Abbie, desviando os olhos dele.
       Irritava-a se sentir to em desvantagem em relao a ele, que ela devia ser a que apertava protetoramente e defensivamente o que era, afinal, seu edredom, 
enquanto ele ficava l, recostado nos travesseiros, como se fosse um acontecimento perfeitamente normal para eles o fato de terem passado a noite juntos e ento 
serem descobertos na cama pela filha.
       Enquanto ela dava de ombros com petulncia, o edredom escorregou mais um pouco, revelando o estmago musculoso e chato. Havia outro pequeno, traioeiro hematoma 
perto de seu umbigo - reconheceu Abbie, incapaz de tirar os olhos da pequena marca roxa. Quantas outras haveria? perguntou-se desconfortavelmente, o rosto enrubescendo 
enquanto se movia, incapaz de aceitar a evidncia fsica de sua paixo e desejo.
       - O que ? - ouviu Sam perguntar, e ento, quando olhou para seu rosto ruborizado voltado contra ele, pde sentir o divertimento na voz dele quando murmurou:
       - Ah, sim, sem banhos comunitrios para mim pelos prximos dias, hmm? Especialmente quando h outras...
       - Que outras? - perguntou Abbie, a cabea se virando para olhar para ele com raiva. - Onde...
       - No me diga que j esqueceu - brincou Sam. - Mas  claro, se realmente quer que eu refresque sua memria...
       Ele fez o gesto de se descobrir completamente, mas Abbie o impediu, o rosto queimando num vermelho quente e constrangido, quando se lembrou exatamente onde 
havia mordido to deliberadamente a sedutora maciez da carne masculina, e a pequena trilha de marcas que, no tinha dvida, deixara ao longo da parte interna de 
suas coxas.
       - O que vamos fazer, Sam? - perguntou, impotente, incapaz de continuar a esconder sua ansiedade e vulnerabilidade. - Cathy acha que nos reconciliamos... que... 
que estamos fazendo planos para ficarmos juntos novamente.  isso que est contando a todo mundo, e sabemos que no  verdade, que o que aconteceu foi apenas... 
apenas...
       - Apenas o qu? - desafiou Sam, a voz, de repente e inesperadamente dura, como se estivesse tentando adverti-la sobre alguma coisa. Sobre uma interpretao 
errada do que havia acontecido entre eles. Sobre a presuno de que, porque haviam feito amor, feito sexo, isso significava alguma coisa a mais... significava que 
ele ainda alimentava sentimentos por ela, ainda a amava.
       Pensaria ele realmente que era idiota o bastante para se iludir, achando que, como ficara sexualmente excitado, isso significava que ficara tambm emocionalmente 
excitado? Ela no aprendera, da maneira mais dura possvel, que amor era uma emoo que no podia existir entre eles?
       - Apenas sexo - respondeu Abbie, a voz sem emoo, orgulhosa por sua voz no tremer, traindo o que estava realmente sentindo.
       - Apenas sexo - repetiu Sam asperamente. - Compreendo. Me diga uma coisa, Abbie: quantos homens voc teve "apenas sexo" desde que voc e eu...
       - Voc no tem o direito de me fazer este tipo de pergunta - interrompeu Abbie, furiosa. - Nenhum direito. Voc gostaria que eu lhe fizesse o mesmo tipo de 
pergunta? No gostaria, no ? - disse ela, respondendo  prpria pergunta.
       - Voc me surpreende, Abbie, sabia? - disse Sam com ironia pesada. - Hipocrisia  a ltima coisa que esperava de voc.
       Hipocrisia? Abbie ficou tensa. O que ele estava tentando sugerir? Teria adivinhado que mentira para ele quando dissera que a noite anterior tinha sido "apenas 
sexo", que sabia que, para ela... Respirou fundo, o corao disparado enquanto enfrentava a verdade que tentara evitar desde que o vira na noite passada.
       No estava ainda apaixonada por Sam, negou ferozmente. Como poderia? Depois de tudo o que ele fizera... depois do que tinha dito. O que acontecera na noite 
anterior fora apenas um... acaso. Uma brincadeira cruel do destino. No significara nada... nada mesmo... nada.
       - Voc estava bem feliz de vir para a cama comigo, de fazer sexo comigo - ouviu Sam dizer com amargura -, desde que isso ficasse em segredo... desde que mais 
ningum soubesse... Mais do que feliz, na verdade, se me lembro bem dos acontecimentos da noite passada. Mas quando se trata de algum saber o que aconteceu entre 
ns...
       - Sim, est bem, talvez eu seja uma hipcrita - concordou Abbie, aliviada demais por ele no ter adivinhado quais eram realmente seus sentimentos para negar 
sua acusao. - Como se sentiria se estivesse no meu lugar? Gostaria que todos soubessem o que voc e eu fizemos? Pode imaginar como vai ser aqui para mim agora? 
Para voc, est tudo bem, pode fugir de tudo, voltar para sua vida real, afastar-se de mim... exatamente como fez antes.
       Doa insuportavelmente, depois do que haviam partilhado na noite anterior, que estivessem agora brigando assim.
       - Ah!, Deus, por que Cathy teve que vir e nos encontrar? Por qu? Terei que lhe contar a verdade e...
       - Voc realmente acha que esta  uma boa idia? - interrompeu Sam com calma.
       - O que mais posso fazer? - desafiou Abbie. - Ela precisa saber a verdade mais cedo ou mais tarde. S queria ter impedido que ela espalhasse a histria para 
a metade da cidade. Posso imaginar o que os pais de Stuart vo dizer quando descobrirem... especialmente a me dele. Ela j acha que sou uma fracassada total como 
me... principalmente como a me da futura esposa de seu precioso filho.
       "No  por mim que estou preocupada,  por Cathy. Odeio pensar que a me de Stuart a est criticando, encontrando falhas nela, culpando-a pelo que considera 
meus fracassos. No momento, Cathy est apaixonada demais para compreender os problemas que poder ter que enfrentar com a me de Stuart, e detesto saber que, provavelmente, 
eu os estou tornando ainda piores para ela."
       - Se Cathy sente qualquer outra coisa a no ser amor e um enorme orgulho de voc e de tudo o que fez por ela, ento no  a pessoa que sei que  - disse Sam 
com firmeza. - Mas quanto  me de Stuart... j pensou que talvez, nas circunstncias, seja melhor deixar as coisas como esto?
       - Que coisas? - perguntou Abbie, cheia de suspeita.
       - J que Cathy acredita que estamos tentando restabelecer nosso relacionamento, talvez seja melhor deixar que ela... e todo mundo... continue a acreditar 
nisso - explicou Sam -, pelo menos por enquanto. Acho que ser mais fcil deixar que, no futuro, nosso novo "relacionamento" comece a ter problemas e finalmente 
termine, do que forar Cathy a aceitar uma verdade que ela obviamente no quer ver. Ser mais fcil para ela, mais fcil para todo mundo e mais fcil para ns tambm.
       - Voc faria isso? Fingiria que ns... que a noite passada... que estamos planejando ficar juntos de novo? Faria esse sacrifcio pelo bem de Cathy? Por qu? 
- perguntou, incrdula. - Quando...
       - Talvez eu sinta que devo a ela um ou dois sacrifcios - disse Sam, a voz sombria. - E alm disso...
       - No, no diga mais nada, o que quer que seja, no quero ouvir - interrompeu Abbie, furiosa.
       Teria ele idia do quanto o que acabara de dizer... o que as palavras dele haviam revelado... a chocara emocionalmente? O quanto doa saber que estava preparado 
para fazer sacrifcios pelo bem de Cathy, sabendo que queria proteg-la dos potencialmente desagradveis e maliciosos boatos sobre o que acontecera, enquanto, ao 
mesmo tempo, no reconhecia, de modo nenhum, o fato de que ela tambm poderia precisar de proteo desses mesmos boatos? Mas,  claro, ela no tinha importncia, 
nunca tivera. Como poderia, quando tudo o que significava para ele era algum capaz de despertar seus instintos masculinos mais bsicos, algum que o excitava fisicamente, 
mas no o tocava emocionalmente?
       - Abbie.
       Congelou quando o sentiu tocar levemente seu brao e o puxou, inconsciente da dor nos olhos de Sam quando viu a forma como se afastava dele... um sinal evidente, 
se precisasse de algum, de que j estava arrependida do que acontecera na noite anterior. Ao contrrio dele. Ele...
       - Lamento se a aborreci - comeou calmamente.
       Mas Abbie no o deixou continuar, seus olhos brilhavam de emoo quando voltou as costas para ele e lhe disse asperamente:
       - Voc no me aborreceu, Sam. - E acrescentou, para deixar tudo bem claro: - Voc no pode me aborrecer. Voc no tem esse poder, no mais. Para que uma pessoa 
me magoe, preciso estar emocionalmente ligada a ela.
       - Abbie - Sam comeou de novo, mas Abbie balanou a cabea.
       - Jamais convenceramos as pessoas de que estamos tentando ficar juntos de novo - continuou ela, taciturna. - Ningum vai acreditar.
       - Cathy j acredita - lembrou Sam secamente. - E pelo que posso ver, certamente parece uma soluo mais prtica para nossa atual situao... Na verdade, a 
nica soluo vivel - acrescentou, antes que Abbie pudesse negar o que estava dizendo.
       - Voc realmente pretende fazer isso, no ? - perguntou Abbie, incrdula. - Cathy ficaria envaidecida se soubesse at onde voc est preparado para ir para 
proteg-la e faz-la feliz...
       - Cathy no deve saber nunca - interrompeu Sam, curto.
       - Nunca? Por quanto tempo voc acha que podemos interpretar essa farsa ridcula? - desafiou Abbie, acrescentando: - No vai funcionar.
       - Funcionar se quisermos, e, alm disso, no ser por muito tempo, apenas at Cathy se casar - argumentou Sam.
       - O qu? - Abbie ficou abismada. - Mas eles no esto planejando se casar antes do ano que vem. Voc no pode... ns no podemos... Ah, no, Sam... - protestou. 
-  impossvel.
       - Nada nunca  impossvel - corrigiu Sam. - Difcil, pouco prtico, perigoso, tolo, talvez, mas impossvel... no.
       Contra sua vontade, percebendo o tom descontrado na voz dele e o brilho de humor em seus olhos enquanto o ouvia, Abbie sentiu o prprio senso de humor despertando, 
aliviando a tenso e a raiva. Um pequeno sorriso lhe curvou os lbios, em reconhecimento do lado ridculo da situao, do que ele estava dizendo, embora lutasse 
para suprimi-lo, para lembrar a si mesma que aquele era um homem que no passado a ferira to profundamente e que o medo que sentia de ser ferida de novo no se limitava 
apenas ao passado.
       Na noite anterior, nos braos de Sam, esquecera o quanto ele a havia ferido, e se lembrara apenas do intenso prazer de sua necessidade sensual partilhada, 
do quanto se queriam. Mas agora era madura demais, experiente demais para se iludir, pensando que a noite anterior tivera qualquer coisa a ver com amor.
       - No podemos fazer isso, Sam - protestou, c ento acrescentou, com calma: - E eu no posso...  difcil demais.
       - Seria mais fcil contar a verdade a Cathy? - desafiou Sam.
       Abbie olhou para ele e engoliu com dificuldade, sabendo quando era derrotada, balanando a cabea enquanto admitia com relutncia:
       - No. Mas no posso mentir para todo mundo e fingir... mentir sobre um relacionamento entre ns que no existe e no pode existir - disse ela, a averso 
e a angstia evidentes em sua voz. - Aqui  o meu lar - lembrou a ele. - E minha famlia, so meus amigos, meus contatos de negcios... que voc est me dizendo 
para enganar. Como disse, para voc est tudo bem... voc pode ir embora e...
       - E o qu? Ser considerado um canalha pela segunda vez? - sugeriu Sam severamente. - Oh, sim, sei perfeitamente e exatamente o que todos pensam sobre mim 
aqui. O homem que era to possessivamente ciumento da esposa que tinha tanto medo de perd-la, que conseguiu exatamente o que queria evitar, perdendo-a por seu comportamento 
idiota. Est bem - disse a Abbie, irritado -, ento voc no pode mentir. Nesse caso, o que sugere? Contar a verdade, o que quer que ela seja?
       Abbie se sentiu incapaz de responder.
       - Bem, vamos resolver... Ou voc tem alguma outra soluo, alguma alternativa? Olhe, Abbie - disse Sam com mais gentileza -, voc viu o quanto significou 
para Cathy acreditar que estamos juntos de novo. Por que estragar tudo e criar um monte de problemas para ns, forando-a a aceitar uma verdade que ela no quer 
conhecer? Por que no a deixar ter a segurana de acreditar que voc e eu estamos reconstruindo nosso relacionamento... por que desiludi-la? Afinal, esses meses 
antes do casamento j sero difceis para ela... Eu me lembro como voc ficou tensa e ansiosa, e no tinha que lidar com a me de Stuart. Voc est feliz com o casamento 
de Cathy com Stuart, no est? - perguntou Sam, observando-a de perto.
       Perto demais - reconheceu Abbie enquanto virava a cabea para o outro lado para evitar olh-lo nos olhos.
       - Cathy o ama - respondeu, evasiva.
       -Sim, ama, e ele a ama - afirmou Sam, ainda observando-a cuidadosamente. - Ento, o que est aborrecendo voc, Abbie? - E ento destruiu sua determinao 
de no confiar nele ao acrescentar, com calma: - E no se d ao trabalho de negar que h alguma coisa. Pode ter sido h muito tempo, mas isso no altera o fato de 
que houve uma poca em que eu conhecia cada nuance de cada expresso que lhe surgia no rosto... e o que ela significava.
       Teria sido mesmo to transparente para ele, to vulnervel?, perguntou-se Abbie, abalada. Se fosse assim...
       - Abbie - insistiu Sam.
       - Est bem, se precisa saber: estou preocupada com o relacionamento de Stuart com a me... com o fato de que ela tem uma influncia to forte sobre toda a 
famlia.
       - Ela tem? - Sam no parecia convencido. - Tive a impresso de que Stuart  um jovem muito seguro, que toma as prprias decises sobre sua vida. Ele ama Cathy 
e...
       - Sim, ele a ama agora - concordou Abbie. - Mas e se... se houver uma situao em que Cathy precise confiar nele, na lealdade dele, saber que ele ser forte 
o bastante para apoi-la, proteg-la, para... para am-la, no importa o que ou quem? - perguntou apaixonadamente. - E se...
       - Isso no  sobre Stuart e Cathy, ? - interrompeu Sam asperamente. -  sobre voc e eu.  sobre o que aconteceu entre ns, e o fato  que, a seus olhos, 
eu no tive a lealdade, a fora, a confiana para acreditar em voc...
       - No quero falar sobre isso... sobre ns - disse Abbie, a voz baixa. - Voc diz que Stuart e Cathy se amam e eu sei que  verdade, mas uma vez voc e eu 
nos amamos... acreditamos que nos amvamos, e veja o que aconteceu.
       Abbie respirou fundo e continuou:
       -  preciso mais do que apenas desejo fsico para construir um bom casamento. Afinal - acrescentou, angustiada -, voc e eu provamos a noite passada que  
possvel desejar algum, querer algum, sem... No quero isso para Cathy - disse, incapaz de terminar o que estava prestes a revelar, consciente demais de como era 
frgil seu controle quando se tratava de verbalizar exatamente como se sentia sobre o que havia acontecido entre eles. - No quero que ela acorde uma manh e descubra 
que o homem que ama, em quem confia...
       - No  um homem de verdade - terminou Sam, asperamente, quando a voz dela desapareceu.
       - Sabia que voc no entenderia - disse Abbie, desafiando-o.
       - Ao contrrio, compreendo bem demais - respondeu Sam com tristeza. - Mas Stuart no  como eu, Abbie, e Cathy no  voc, e eles precisam ser deixados sozinhos 
para enfrentar seus riscos, construir seu futuro. Tudo o que podemos lhes dar  nosso apoio e nosso amor.
       - E voc acha que deixar Cathy acreditar que estamos voltando a ficar juntos vai ajudar nisso? - desafiou Abbie.
       - Sim - confirmou Sam.
       Ele j estava saindo da cama e Abbie virou a cabea depressa, sem querer v-lo se afastar dela, deix-la. Na noite passada, tudo tinha sido to diferente, 
parecera to certo, mas agora, esta manh, tinha que enfrentar as conseqncias de sua voluntria recusa de ver a verdade.
       Quando viu o modo como Abbie virava a cabea, tirando-o de sua linha de viso, da mesma forma que o tirara do corao, Sam se perguntou por que tivera a esperana 
de que a noite anterior pudesse mudar as coisas.
       Sim, ela reagia sexualmente a ele e Deus sabia o quanto ainda a queria, mas para ele era diferente; ele a queria emocionalmente... Deus, e quanto! Ela realmente 
no adivinhara como fora difcil para ele se impedir de lhe dizer como se sentia, o quanto sentia e por tanto tempo.
       Reconheceu, zombando de si mesmo, que tinha sido um idiota, e no pela primeira vez. Na noite anterior, conseguira despertar de novo o desejo que Abbie tinha 
por ele e as lembranas de como havia sido bom fazer amor no passado, mas esta manh evocara um conjunto inteiramente diferente de lembranas nela. Esta manh, fora 
dor que lhe causara, que lhe dominara a mente, e no o prazer que haviam partilhado.
       
       
       
     Captulo Oito
       
       
       - Bem, voc  cheia de segredos, no ?
       Abbie se encolheu quando ouviu o tom de questionamento na voz de Fran. A amiga ligara alguns segundos antes, obviamente j sabendo que Sam passara a noite 
com ela, e Abbie estava feliz por ele ter j ter sado e no estar ali para ver seu rosto ruborizado e os olhos cheios de lgrimas enquanto Fran continuava:
       - No que esteja totalmente surpreendida. Apesar de todos os seus protestos esses anos todos, sempre tive uma suspeita secreta de que voc ainda o amava. 
Afinal, vocs estavam to, to apaixonados, e quando se pensa sobre isso, sabe-se que seria impossvel que esses sentimentos tivessem sido totalmente destrudos. 
Mas deve ter sido to romntico, vocs dois ficarem juntos de novo... Como se fossem jovens novamente, s que ainda melhor... No que pudesse ser muito romntico 
para mim uma segunda vez... no com minha celulite e as marcas de gravidez - acrescentou Fran, meio desanimada. - Mas voc tem mais sorte, ainda tem um corpo fabuloso...
       - Corpo fabuloso ou no, isso no tem relao nenhuma com uma boa vida sexual - Abbie sentiu a necessidade de dizer.
       - No, talvez no, mas certamente ajuda a banir algumas inibies indesejadas - Fran riu, acrescentando diretamente: - Vamos dizer assim, estaria muito mais 
interessada em ginsticas no quarto se no tivesse quadris to cheios de gordura. Se quer minha opinio, esta  a vantagem que uma menina de 20 anos realmente tem 
sobre uma mulher de 40. Ela pode fazer isso em qualquer posio que quiser, sem se preocupar de o parceiro entrar em choque quando olhar seu corpo nu. Tudo est 
onde deve estar, enquanto na nossa idade...
       - Estamos na faixa dos 40, Fran, no na dos 80 anos - lembrou Abbie secamente.
       - E, ento, foi bom? - perguntou Fran maliciosamente.
       - Apenas, de acordo com o que ouvi, quando Cathy descobriu vocs, pareciam to cansados que mal tiveram a energia para erguer a cabea do travesseiro, e Sam 
parecia o primeiro homem a andar na lua...
       - Aquilo no foi cansao, foi constrangimento - interrompeu Abbie severamente, e ento acrescentou, em voz baixa:
       - Onde voc ouviu aquilo... sobre Sam, quero dizer?
       - No supermercado - informou Fran alegremente. - Sabe aquela menina gordinha e bonita, com rabo-de-cavalo? Bem, ela me contou...
       - Lesley - informou Abbie, furiosa. - Ela  uma das minhas temporrias. Vou mat-la...
       - Por que matar o mensageiro? - brincou Fran, ento acrescentou: - Por que voc ficou constrangida? Aposto que Sam no ficou. Aposto que ele...
       Rapidamente Abbie cortou o que Fran estava prestes a dizer, informando sem sinceridade:
       - Olhe, tenho que sair.
       Quando desligou o telefone, Abbie estava literalmente tremendo, com raiva, e constrangida. As duas emoes derivadas da sensao de perda do poder de controlar 
o que estava acontecendo com ela, interna e externamente.
       Fran no foi a nica a telefonar para Abbie; teve que atender muitas outras ligaes, de pessoas claramente curiosas para saber o que estava acontecendo. 
No meio da tarde, j cansada, estava prestes a tirar o telefone do gancho quando Cathy ligou.
       - Me, finalmente... estou tentando telefonar para voc h horas - reclamou Cathy, mas antes que Abbie pudesse lhe dizer por que no conseguira fazer a ligao 
ou reclamar de tantas pessoas j saberem sobre a "reconciliao" entre ela e Sam, Cathy continuou, excitada: - Stuart e eu vamos ver a casa de novo e queremos que 
voc venha conosco.
       Tomou flego e continuou:
       - A cozinha  um pouco escura e acho que ficar muito melhor se a aumentarmos um pouco e acrescentarmos um pequeno espao para o caf-da-manh que sirva tambm 
como um conservatrio, como voc fez, mas Stuart tem medo de que fique caro demais. Eu lhe disse o quanto vai valorizar a casa. Ali, me, estou louca para voc v-la 
- disse Cathy, entusiasmada. - Tem tanto potencial.
       Abbie sentiu a raiva desaparecer enquanto ouvia o entusiasmo na voz de Cathy.
       - Vou adorar ir com voc - aceitou -, mas estava a ponto de tomar banho e me vestir e no quero atrasar vocs. Seria melhor se encontrasse com vocs l?
       - No, isso no  um problema - garantiu Cathy. - Temos que ir primeiro  imobiliria pegar as chaves e podemos apanhar voc na volta, se estiver bem para 
voc.
       - Perfeito - confirmou Abbie.
       Tudo bem, ento Cathy tinha sido indiscreta ao espalhar o fato de que ela e Sam supostamente estavam juntos novamente, mas tinha sido bom ouvir aquela nota 
especial de felicidade na voz da filha e partilhar aquela proximidade especial entre me e filha - admitiu Abbie dez minutos depois, enquanto estava no chuveiro 
tomando banho.
       Acabara de sair e se enrolara na toalha quando ouviu a porta da cozinha abrir.
       - Pode subir - chamou ela -, estou quase pronta!
       Enxugando-se rapidamente, tirou a toalha e abriu a cmoda para pegar uma lingerie. Tinha acabado de vestir a calcinha quando ouviu uma batida na porta do 
quarto.
       O pequeno som a assustou um pouco. Cathy normalmente nunca batia... outra indicao do fato de que a filha estava crescendo e se afastando dela!
       - Entre, meu amor, no precisa bater - protestou Abbie automaticamente.
       Mas no foi Cathy quem abriu a porta e ficou l de p, observando seu corpo seminu e os cabelos despenteados. Foi Sam!
       De forma instintiva e ridcula, Abbie descobriu que estava cruzando os braos defensivamente sobre os seios nus, o rosto, o corpo ruborizando de forma traidora 
enquanto perguntava, abalada:
       - O que voc est fazendo aqui? Onde est Cathy?
       - Ela e Stuart foram diretamente para o chal, ela me pediu para vir apanhar voc. Estava com medo de os pais de Stuart chegarem l antes deles e no queria 
deix-los esperando.
       Todo o prazer que sentira inicialmente com a perspectiva de ver o chal havia desaparecido quando Abbie percebeu que no eram apenas ela, Cathy e Stuart que 
iriam at a casa.
       - O que quer dizer? Cathy no disse que outras pessoas tambm iriam ver o chal - protestou. - Pensei que seria apenas eu... ns... - Mesmo antes de ver a 
compaixo indesejada nos olhos de Sam, Abbie sabia que sua voz e a expresso de seu rosto haviam denunciado seus sentimentos.
       - Acho que isso era o que Cathy pretendia no comeo - disse Sam, com tato. - Mas voc sabe como essas coisas crescem...
       - Ah, sim, eu sei - concordou Abbie dolorosamente. -Ah, no precisa olhar para mim desse jeito... no preciso que tenha pena de mim, Sam - disse, com raiva, 
e acrescentou, abruptamente: - Mudei de idia sobre... sobre ver a casa. Por favor, diga a Cathy que telefonarei e faremos planos para ver a casa juntas um outro 
dia.
       - No.
       - No? - Enquanto repetia sua calma recusa de levar a mensagem a Cathy, Abbie olhou para Sam com raiva e confuso.
       - Voc no pode deixar de ir, Abbie - disse Sam com gentileza. - Cathy quer voc l; est ansiosa para voc ver a casa. Ela pode ser adulta, mas ainda precisa 
do seu amor e da sua aprovao.
       - Precisa? - perguntou Abbie, amarga. - Como voc sabe? Cathy lhe disse?
       - No precisou dizer - afirmou Sam calmamente. -  bvio para mim o quanto voc significa para ela.
       - ? Bem, certamente no  bvio para mim, mas estava esquecendo que, como pai de Cathy, voc, sem dvida, conhece bem seus pensamentos e sentimentos, um 
conhecimento que me  negado.
       Mesmo antes de ver a chocada compaixo, rapidamente escondida, nos olhos de Sam, ouviu-o perguntar:
       - Abbie, o que  que est errado?
       Abbie amaldioou sua lngua traioeira, mas era tarde demais. Sam j cruzava o espao entre eles, tomava-lhe os ombros nas mos... seus ombros nus - percebeu 
Abbie, enquanto o corpo ficava tenso e ela erguia as mos para empurr-lo. Mas a ao foi lenta demais e sentiu o calor do corpo dele atravs da camisa de algodo 
que roou seus seios nus, tornando-lhe a pele mais sensvel do que j estava  promessa do calor, da rigidez masculina que seu corpo percebia sob o tecido macio 
da camisa. Abbie congelou, temendo se afastar dele, sabendo que, se o fizesse, Sam perceberia a rigidez traioeira de seus mamilos. O que estava acontecendo com 
ela? Por que estava reagindo a ele assim? Por que seu corpo estava se lembrando da intimidade fsica entre eles como se tivesse sido alguma coisa especial, alguma 
coisa mgica, alguma coisa rara, a ser preservada como um tesouro, quando seu crebro j dissera ao corpo vezes sem conta que tudo aquilo tinha sido simplesmente 
luxria?
       O pnico que sentira ao acordar pela manh e descobrir Sam na cama ao lado dela voltou. Lembrou-se de como era estar de novo nos braos de Sam e soube que, 
por mais que tentasse negar, no era apenas seu corpo que reagia a ele, e dessa vez no havia como evitar a mensagem que lhe enviava,
       Como podia ainda amar Sam depois do que ele fizera, depois da maneira como a magoara? No teria o instinto de preservao? Sena realmente possvel separar 
o homem do seu crime? Am-lo enquanto odiava o que fizera e, por amor... o qu?... perdo-lo? Continuar a am-lo?
       Foi apenas sexo, apenas sexo, disse Abbie a si mesma freneticamente. No era possvel que ainda amasse Sam, no queria am-lo ainda, porque se amasse... se 
amasse... Seu corpo comeou a tremer, as mos gentis de Sam segurando-a, esquecidas, enquanto a profundidade e a intensidade de seus pensamentos e emoes angustiantes 
a tomavam.
       No podia ainda amar Sam, negou miseravelmente, o corpo trmulo de agitao, porque, se o amasse, ele a magoaria de novo, e dessa vez... dessa vez... Antes 
tinha juventude e necessidade de proteger a filha que estava ao lado dela, como sua aliada; agora no tinha nada disso. Agora estava vulnervel demais.
       - Abbie... Abbie, est tudo bem - ouviu Sam dizer enquanto a tomava nos braos e a apertava contra o corpo, os braos em torno dela como se... como se quisesse 
proteg-la... como se realmente se importasse com ela, e por ela... o que era totalmente impossvel, lembrou Abbie a si mesma, tonta, enquanto se entregava  tentao 
de deix-lo abra-la e confort-la.
       - Eu compreendo, realmente compreendo como voc se sente... o que est passando, acredite - ouviu-o dizer. -  claro que se sente magoada, irritada, ressentida, 
cautelosa com a influncia da me de Stuart sobre Cathy; mas est enganada ao pensar que Cathy no precisa de voc, que no a valoriza.
       Ele pensava que Cathy era a responsvel por sua fraqueza fsica, sua vulnerabilidade - reconheceu Abbie. No compreendera o efeito que ele causava sobre ela, 
e obviamente no podia ter o mesmo efeito sobre ele, admitiu, exausta, de outra forma no haveria como ele pudesse continuar a segurar nos braos seu corpo praticamente 
nu sem... sem...
       Deu um pequeno arquejo ao perceber a direo que seus pensamentos estavam tomando, que seu desejo tomava, sabendo, desesperadamente, que se ele eliminasse 
a pequena distncia entre a parte inferior de seus corpos e a apertasse ainda mais junto a ele, se ele passasse as mos sobre suas costas nuas e beijasse o lado 
exposto de seu pescoo, se a carregasse para a cama, a cama que haviam partilhado to, to recentemente... Totalmente abalada pelo que estava sentindo, Abbie conseguiu 
controlar seus pensamentos.
       - De verdade? - perguntou a Sam calmamente, forando-se a olh-lo nos olhos. - Ela realmente me valoriza, Sam? Continuaria a me valorizar, voc acredita, 
se soubesse a verdade sobre o que aconteceu entre ns? - perguntou com amargura.
       - Voc no est sendo justa consigo mesma ou comigo - disse Sam. - O que tivemos... o que fizemos... - Cerrou o cenho e desviou o olhar do rosto dela.
       Quando Abbie acompanhou o olhar sombrio de Sam, percebeu que ele olhara brevemente para seus seios nus e respirou fundo, como se at ento no tivesse percebido 
que estava praticamente nua.
       - No posso ir ao chal. No posso ir l sabendo que ela ter contado aos pais de Stuart,  me de Stuart sobre ns; sabendo o que eles estaro pensando. 
-Abbie entrou em pnico.
       - Prefere que eles pensem por que no estamos l? - perguntou Sam, a voz profunda.
       Abbie olhou para ele, uma pequena ruga na testa, sem compreender.
       Ele estava, reconheceu, definitivamente olhando para o corpo dela agora, consciente de sua nudez. Afinal, Sam no precisara eliminar a distncia entre eles 
para ela perceber que Sam estava excitado.
       Homens eram diferentes de mulheres nessa questo... capazes de ficar excitados fisicamente por mulheres de quem no gostavam ou que queriam. A excitao de 
Sam agora era simplesmente uma reao masculina  viso de um corpo nu de mulher, lembrou a si mesma; no havia nada pessoal nisso. Nada pessoal na maneira como 
o rosto dele ficou levemente vermelho e sua voz baixara para uma rouquido de calor masculino.
       - Se no formos ao chal agora, todos vo pensar que  por que no agentamos ficar longe um do outro depois que nos descobrimos de novo.
       - Voc est louco, eles vo pensar que ns... ns...
       - Estamos fazendo amor - sugeriu Sam suavemente.
       - No podemos deixar que pensem isso - protestou Abbie, em pnico. - Preciso me vestir...
       Quando olhou desconcertada para a cama, onde estavam o suti e o vestido, Sam seguiu seu olhar.
       - No se d ao trabalho de usar suti - disse ele suavemente. - Apenas o vestido, ser mais rpido.
       - Mais rpido? - Abbie olhou para ele. No se lembrava da ultima vez que no usara suti.
       De repente seu rosto ficou vermelho, traindo-a. Sim, podia, e tinha ento sido sugesto de Sam, como era agora... embora por razes bem diferentes. Ento 
seus seios eram bem firmes e empinados para justificar esse comportamento, mesmo se sentindo consciente demais. Agora...
       - Eu... eu no poderia - comeou a protestar, mas Sam j a havia soltado e caminhado at a cama, para pegar o vestido.
       Era um chemisi de algodo preto, muito discreto, que chegava at as panturrilhas, com enfeites em cor creme e uma linha de botes pequenos em toda a frente. 
Era um vestido que usava com freqncia em encontros de negcios menos formais... Bastante elegante para ela parecer profissional sem ser intimidadora demais. E 
certamente nunca, jamais, pensara que fosse uma roupa sexualmente provocante at ver o modo como Sam o segurava, olhando para aqueles pequenos botes.
       - Todos vo perceber - protestou, mas sua voz era apenas um sussurro e j estava andando em direo a Sam, pegando o vestido e colocando-o, virando as costas 
para ele enquanto tentava abotoar os pequenos botes.
       - No, no vo - garantiu Sam, rodeando-a para ficar em frente a ela e empurrando-lhe delicadamente os dedos trmulos enquanto terminava de abotoar o vestido 
para ela.
       - Mas voc saber - protestou Abbie, a voz registrando sua perplexidade ao perceber que podia se comportar dessa maneira, que podia, com tanta facilidade 
e docilidade, aceitar o que ele sugerira.
       - Ah, sim, eu saberei - concordou Sam, e dessa vez, certamente, no estava imaginando quando ele roou delicadamente a ponta do polegar sobre um mamilo rijo, 
ento se curvou para beijar o vale entre os seios, antes de abotoar todos os botes.
       Pelo menos a jaqueta creme que geralmente usava sobre o vestido lhe deu um pouco mais de proteo, escondendo o fato de que estava sem suti - pensou Abbie 
enquanto calava os sapatos e saa depressa do quarto. E, se tivesse sorte, Cathy e os outros ficariam to cansados de esperar por eles que j teriam ido embora!
       Apenas,  claro, que esperaram, ainda estavam l.
       E a me de Stuart, que olhava com desagrado o jardim maltratado do chal, foi, previsivelmente, a primeira pessoa a v-los quando chegaram. O sorriso com 
que recebeu Sam foi visivelmente mais caloroso do que o que dirigiu a ela - percebeu Abbie, enquanto tentava resolutamente esconder seus sentimentos e tratar a outra 
mulher com uma cordialidade que sabia no ser real.
       A me de Stuart era mais velha do que ela pelo menos 12 anos, mas sempre a fazia se sentir mais como uma estudante levada do que uma adulta responsvel.
       - Fiquei to contente com a novidade que Cathy me trouxe. .. de que voc e o pai dela conseguiram resolver seus... problemas - disse a Abbie num sussurro 
confidencial enquanto Sam se virava para conversar com o pai de Stuart. - Eu sei,  claro, que separaes, e at mesmo divrcios, so muito comuns atualmente, mas 
quando se trata de uma ocasio como um casamento,  muito difcil resolver os problemas que causam.
       Fez uma pausa para olhar para Abbie e acrescentou:
       - Vocs esto realmente planejando se casar de novo antes de Stuart e Catherine? De qualquer maneira, acredito que vo ficar juntos - continuou, enquanto 
Abbie olhava para ela, muda, com um misto de raiva e choque. - Ficar muito melhor ns convites - continuou, aparentemente sem perceber as manchas vermelhas de raiva 
no rosto plido de Abbie. - Catherine me disse que est pensando em ter um caf-da-manh em Ladybower. E um lugar maravilhoso, mas pessoalmente sempre achei que 
h alguma coisa to mais pessoal num caf-da-manh realizado nos prprios jardins.
       - Tenho certeza de que acha - Abbie conseguiu dizer com os dentes cerrados. - Mas, infelizmente, os "jardins" que cercam minha casa... - Pelo canto do olho, 
Abbie viu Cathy, que se reunira a Sam e ao pai de Stuart, morder com fora o lbio inferior e parecer ansiosa, ento, em vez de completar o comentrio sardnico 
e defensivo que comeara a fazer, lembrou a si mesma de que a felicidade da filha era muito mais importante do que seu orgulho e disse, com calma: - Infelizmente, 
o jardim do meu chal  pequeno demais para construir uma marquise. J viu o interior da casa? - perguntou, fazendo um esforo herico para ser agradvel e evitar 
qualquer assunto controvertido. 
       - Ah, sim, fomos os primeiros a v-la, Stuart queria a opinio do pai imediatamente. 
       A opinio do pai ou a aprovao da me?, perguntou-se Abbie amargamente.
       - Tem um bom tamanho e  bem construda - continuou a me de Stuart, antes de acrescentar, com desprezo: - Mas uma casa geminada. O pai de Stuart acha que 
ele est sendo modesto demais. Nenhuma de nossas filhas aceitaria menos do que uma casa isolada... Mas,  claro, suponho que tudo depende do que voc est acostumado 
a ter. Tenho que dizer que achei os aposentos muito pequenos, mas suponho que Catherine esteja acostumada com isso.
       Mortificada com o fluxo quente de lgrimas queimando no fundo dos olhos ao ouvir o desprezo com que a outra mulher falava do lar que to amorosamente construra 
para a filha, Abbie teve que se virar... as mos nos bolsos da jaqueta bem fechadas.
       Mentalmente, desejou que a filha, que certamente ouvira o comentrio, viesse em sua defesa, mas Cathy lhe deu as costas e comeou a falar com o pai de Stuart 
rapidamente e com muita energia sobre os planos de aumentar a cozinha e acrescentar uma garagem nova e uma lavanderia ao lado da casa.
       - Sempre achei que  um erro fazer muita coisa neste tipo de propriedade - dizia a me de Stuart. - Elas no tm muito valor, e, como j disse a Stuart, agora 
que as meninas se casaram e se mudaram, realmente no h motivo para que ele e Catherine no morem conosco por algum tempo, enquanto economizam e procuram alguma 
coisa mais adeq... um pouco maior.
       Agora foi a vez de Cathy lanar um olhar suplicante a ela - viu Abbie, o corao doendo com a tenso e ansiedade que percebia no rosto da filha, e negou rapidamente:
       - Ah, no, isso...
       - Este  um convite maravilhosamente generoso, Anne. - Interrompeu Sam com calma, sorrindo, caloroso, para a me de Stuart. - Especialmente porque voc e 
George devem estar ansiosos por ter algum tempo s para vocs. Entretanto, pessoalmente, acho que no far mal nenhum a estes jovens terem que lutar um pouco... 
como tenho certeza que voc e George devem ter lutado quando se casaram.
       Enquanto Abbie observava com um misto de raiva e espanto, viu a me de Stuart reagir  sutil lisonja de Sam como um gato sendo acariciado; o olhar que deu 
a ele, em resposta ao comentrio, ligeiramente malicioso e complacente.
       - Bem, sim, ns trabalhamos muito - concordou. - Os pais de George tinham uma casa enorme quando nos casamos, mas George foi o primeiro a sair de casa, e 
certamente no havia como sermos convidados para morar com eles. No, tivemos que fazer as coisas do modo mais difcil...
       - E veja s o sucesso que fizeram de suas vidas - disse Sam, caloroso. - Um exemplo que, tenho certeza, Stuart e Cathy querem seguir. No devem mim-los demais 
- acrescentou afrontosamente, ou assim pensou Abbie. Seria ela a nica a perceber o que ele estava fazendo?, perguntou-se, indignada, quando viu a maneira como a 
me de Stuart se mostrava orgulhosa e arrumava os cabelos, traindo-se. - De outra forma, serei forado a fazer a mesma coisa, e antes de percebermos os dois estaro 
nos jogando uns contra os outros.
       - Ah, no, Stuart jamais faria uma coisa assim - negou a me dele imediatamente em defesa do filho. Do filho dela... no da filha dela - percebeu Abbie com 
amargura.
       Mas a me de Stuart continuava:
       - Entretanto, voc tem razo - concordou graciosamente, ainda sorrindo para Sam. - E George realmente est planejando algumas viagens para ns quando ele 
se aposentar. Mas ainda acho que podem arranjar coisa melhor do que isso - acrescentou, a testa franzida. - A cozinha especialmente  to pequena e escura... embora 
saiba que isso no tem muita importncia hoje em dia. Desde que haja lugar para um freezer e um microondas, moas modernas parecem no se preocupar demais.
       Moas modernas. Abbie respirou fundo, ansiosa para perguntar: e os rapazes modernos? Como se adivinhasse o que ela estava pensando, o que estava querendo 
dizer, Sam de repente virou a cabea e lhe lanou um olhar de advertncia, com um pequeno movimento de cabea.
       Abbie se sentia insuportavelmente irritada por ter sido ele a salvar Cathy da ameaa de ter que viver com a futura sogra e no ela, e ficou muito tentada 
a ignorar o olhar de advertncia que ele lhe lanara e dar vazo  raiva, mas o bom senso lhe mostrou que a pessoa que sofreria mais, se fizesse isso, seria Cathy, 
ento se virou para a filha e, reunindo toda sua fora de vontade, disse to naturalmente como pde:
       - Vamos ento, querida, me mostre a casa...
       - Eu tiraria esta jaqueta se fosse voc - aconselhou a me de Stuart. -A casa est muito empoeirada. Sempre achei creme uma cor to pouco prtica; azul-marinho 
 muito mais til.
       Abbie no respondeu; estava ocupada demais em tentar esconder seu constrangimento com o modo como o pai de Stuart se adiantara para ajud-la a tirar a jaqueta.
       "No se d ao trabalho de usar suti", sugerira Sam, e s Deus sabia por que fizera o que ele pedira.
       Stuart e o pai dele podiam no perceber que seus seios estavam nus sob o algodo leve do vestido, mas no tinha um pingo de esperana de esconder isso dos 
olhos penetrantes da filha sem a proteo da jaqueta - reconheceu Abbie, o corao apertado quando, com relutncia e desconforto, deixou que o pai de Stuart a ajudasse 
a tir-la.
       A tentao de cruzar os braos protetoramente sobre os seios, como fizera quando Sam entrara inesperadamente em seu quarto, foi to grande que mal resistiu. 
Cathy j havia olhado para a me com os olhos muito abertos e depois olhou de novo, os olhos arredondando um pouco. Enquanto Abbie sentia o rosto se cobrir de rubor 
constrangido, Sam calmamente se afastou do pai de Stuart e se aproximou, ficando em p ao lado dela de tal maneira que seu corpo a escondia um pouco, fazendo-a se 
sentir imediatamente aliviada e mais segura. Aliviada? Mais segura? Com Sam? Impossvel.
       - Vamos entrar formalmente pela porta da frente ou pela porta dos fundos, como uma famlia? - ouviu Sam brincar com Cathy enquanto punha a mo no brao da 
ex-esposa e a guiava em direo  casa, como se fossem realmente um casal, como se realmente estivessem juntos... reconciliados... um casal... amantes...
       Abbie engoliu com dificuldade, incapaz de olhar diretamente para Sam ou para qualquer outra pessoa, mas muito especialmente para Sam. O que temia que ele 
pudesse ver nos olhos dela?, perguntou-se asperamente, mas j sabia que era uma pergunta que no queria responder.
       Meia hora depois, quando ela e Cathy estavam sozinhas na pequena e escura cozinha da casa, Abbie tocou com gentileza o brao da filha e lhe disse, tentando 
confort-la:
       - No se preocupe com as crticas da me de Stuart, querida. Acho que esta casa tem muito potencial.
       Para sua mortificao, Cathy se afastou dela, dizendo de forma sinttica:
       - A me de Stuart no est criticando; apenas tentando ajudar. E eu gostaria que voc... Voc e papai vo se casar antes do meu casamento? - perguntou Cathy, 
mudando de assunto.
       Ainda tentando lidar com a mgoa que a rejeio de Cathy, sua opinio e a defesa que fizera da me de Stuart lhe causaram, Abbie no confiou em si mesma para 
responder.
       - Sua me e eu ainda no fizemos planos concretos, mas, quando fizermos, voc ser a primeira a saber.
       Abbie se virou depressa. No ouvira Sam entrar na cozinha. Para um homem to grande, seus passos eram desconcertantemente leves.
       - Voc no se esquecer de que o estamos esperando para o almoo, no ? - lembrou a me de Stuart a Sam quando ela tambm entrou na cozinha.
       - No, estaremos os dois l - prometeu Sam, enquanto Abbie prendia a respirao. Certamente, Sam entendera, assim como ela, que o convite era apenas para 
ele!
       Mas a me de Stuart estava agora reconhecendo o novo papel de Abbie na vida de Sam, e com um sorriso ligeiramente forado, concordou:
       - Sim,  claro... vocs dois. Ser timo.
       Foi Cathy que deu o golpe final ao desconforto de Abbie com a tarde, enquanto acompanhava os pais at o carro de Sam, aproveitando que seu pai estava conversando 
com Stuart, para dizer baixinho e com raiva  me:
       - Gosto de como as coisas esto entre voc e papai, me, mas devia... devia ter se vestido adequadamente. Quero dizer, este tipo de coisa parece to deselegante... 
especialmente na sua idade... e a me de Stuart certamente percebeu.
       Enquanto ela e Sam andavam at o carro, Abbie no sabia com certeza qual emoo era mais forte... mgoa ou raiva.
       
       
       
     Captulo Nove
       
       
       Abbie ficou em silncio ao lado de Sam enquanto ele a levava para casa, dizendo apenas quando ele parou em frente ao chal:
       - Obrigada. No h necessidade de voc entrar comigo...
       - Temos muito a conversar - disse Sam.
       - Como o qu? - Abbie questionou. - A espcie de roupas que Cathy espera que eu use para almoar na casa dos pais de Stuart?
       Sam olhou para ela gravemente.
       - Isso foi culpa minha, e lamento, embora a viso destes seus deliciosamente femininos seios tenha sido a nica parte agradvel de uma tarde totalmente desagradvel.
       - Se est tentando me culpar por isso... - comeou Abbie, agressiva.
       - No estou culpando ningum - tranquilizou-a Sam. - Mas  bvio que Anne tem muito medo de voc... e isso faz com que Stuart e Cathy se sintam na obrigao 
de proteg-la.
       - Ela tem medo de mim? - exclamou Abbie. - Como diabos chegou a essa concluso? Quando tudo o que ela fez praticamente a tarde toda foi me criticar e tentar 
me diminuir?
       Para sua irritao, viu que Sam sorria para ela.
       - Ah, vamos, Abbie - desafiou -, voc  inteligente demais, boa demais em avaliar personalidades para ser enganada por um comportamento to defensivo. Precisa 
se perguntar por que ela se defende tanto? Considere tudo do meu ponto de vista. Tudo o que ela fez com a vida dela foi ficar em casa, cuidando do marido e criando 
os filhos, enquanto voc...
       - Ela pensa que sou uma pssima me... que negligenciei Cathy e cuidei em primeiro lugar das minhas prprias necessidades - protestou Abbie, mas Sam estava 
balanando a cabea.
       - No, isso  o que ela tenta fingir que pensa - disse ele com firmeza -, mas na realidade  muito claro que tem pavor de perder Cathy e Stuart para voc, 
teme sua influncia sobre as vidas deles.
       - O qu? Mas isso  ridculo - objetou Abbie.
       - E? - perguntou Sam, acrescentando firmemente: - Olhe, vamos continuar esta conversa dentro de casa. Como j disse, h muitas coisas sobre as quais temos 
que discutir...
       - Que coisas? - perguntou Abbie, irritada, embora reconhecesse internamente que ele estava certo.
       Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para ela.
       Depois do vazio triste e a falta de uso da futura primeira casa de Cathy e Stuart, a acolhedora leveza da cozinha de Abbie se tornou incrivelmente visvel. 
Sam olhou em torno apreciativamente e disse a ela com real admirao:
       - Voc sempre teve um dom especial em transformar uma casa num lar.
       - Eu no chamaria isso de dom especial - negou Abbie. - Acredito que  alguma coisa que  quase uma segunda natureza para muitas mulheres. Da mesma maneira 
que alguns homens gostam de mexer com coisas mecnicas - acrescentou, com um olhar de ironia.
       - Ah, sim, a mquina de fazer caf - concordou Sam com um sorriso. - Aquilo foi um erro, admito...
       - Um erro? Foi muito mais do que isso quando explodiu, cobrindo a cozinha que eu acabara de decorar com p molhado de caf - corrigiu Abbie, a boca se contorcendo 
num comeo de sorriso que logo se transformou numa gargalhada.
       Com Sam do outro lado da cozinha, seus olhos se encontraram quando ambos se lembraram do incidente, uma pequena cena dos primeiros dias de seu casamento.
       No comeo, Abbie havia chorado quando vira a devastao que a exploso do bule de caf causara em sua nova cozinha, mas Sam lhe garantira que no houvera 
dano permanente, e ela lhe permitira arrast-la para cima, para longe da cena da devastao, para "verificar se havia danos l".
       No havia,  claro, mas, uma vez no andar superior, fora fcil para Sam convenc-la a ir para o quarto.
       Lembrou-se de ele ter dito que o p molhado de caf que lambera da pele dela tinha o sabor mais delicioso e afrodisaco.
       Agora, ela balanou a cabea com tristeza.
       - Honestamente, no foi minha culpa, a mquina estava mesmo com defeito - alegou Sam.
       - Com certeza, estava mesmo - concordou Abbie, com uma nova risada, os olhos brilhantes.
       - Ento eu cometi um equvoco... um erro - admitiu Sam, com um ar de mgoa fingida. - Todos tm direito de cometer um erro.
       - Um erro. - A risada morreu nos olhos de Abbie.
       Ela, parecia, tinha cometido muito mais do que um erro e um equvoco no que dizia respeito  filha... Erros demais, que no permitiriam que o afastamento 
que se estabelecera entre ela e Cathy pudesse algum dia desaparecer.
       - O que foi... o que est errado? - perguntou Sam suavemente quando viu a dor substituir a felicidade e a diverso nos olhos dela.
       - Estava apenas pensando que alguns erros no podem ser esquecidos ou perdoados - disse Abbie, dando-lhe as costas para que ele no pudesse olhar para ela, 
subitamente aborrecida consigo mesma por ser to vulnervel e emocional demais para confessar a ele seus temores.
       Por que se importaria se Cathy se afastasse dela? No que dizia respeito a ele, isso seria benfico. Era uma tola em deix-lo perceber o que estava pensando... 
o que estava sentindo. Era mais tola ainda por deix-lo entrar em casa com ela.
       - Abbie, se est se referindo ao que aconteceu entre ns, eu sei que...
       - Entre ns! - cortou Abbie asperamente, balanando a cabea, a voz embargada quando lhe disse: - No... estava falando sobre Cathy... sobre os erros que 
cometi com ela, os equvocos.
       No podia evitar, sabia que suas emoes a dominariam. Por que isso estava acontecendo com ela, com ela entre todas as mulheres, quando se recusara to determinadamente 
a se deixar dominar por suas emoes em pblico, quando, no importava o quo desesperadamente infeliz se sentia, sempre conseguira manter as lgrimas na privacidade 
da prpria solido e do seu travesseiro?
       - Os erros que cometeu com Cathy? - Sam estava franzindo o cenho, a voz preocupada. - Abbie, voc no cometeu nenhum, foi uma me exemplar... Olha, por que 
no vamos para a sala de estar? Farei uma bebida quente para ns e podemos conversar sobre tudo...
       - Que bem faria conversar sobre isso? - protestou Abbie, mas j estava se virando para a porta interna e abrindo-a, entrando em sua pequena e bonita sala 
de estar, com suas janelas francesas dando para o jardim.
       Escurecera o bastante para ela precisar acender as luzes dos abajures... a lmpada do lustre seria muito forte, reveladora demais. .. e estava frio o suficiente 
para acender a lareira a gs.
       Como a sala era muito pequena, ela a decorara com cores naturais e fibras... algodo macio e cnhamo, e sua descoberta, numa venda de garagem, de um pesado 
e antigo sof Chesterfield, recuperado e coberto com tecido adamascado creme que comprara por um preo irrisrio porque tinha um pequeno e quase invisvel defeito.
       Acabara de recuperar o sof a tempo de celebrar os 18 anos de Cathy, e se lembrara de como se sentira orgulhosa da pequena festa que preparara apenas para 
adultos para celebrar a ocasio e de como Cathy havia elogiado sua inteligncia.
       - A coisa mais inteligente que j fiz na vida foi voc - dissera ento  filha amorosamente... e pensara mesmo isso. Ainda pensava. A mais inteligente e a 
melhor!
       E a magoava saber que todo o orgulho e amor pela filha era agora algo que Cathy achava mais uma carga do que uma alegria.
       Constrangera Cathy, decidiu, quando se encolheu sobre o sof, enrolando-se em posio fetal, tirando os sapatos para colocar os ps sob o corpo... uma coisa 
que fazia apenas quando estava se sentindo particularmente vulnervel e infeliz. Cathy preferia ter uma me como a de Stuart.
       Uma me cujo nome no tivesse que ficar solitrio, com tanta evidncia, no convite de casamento. Uma me que era uma prova viva da slida segurana que proporcionara 
 famlia. Uma me cuja coleo de fotografias inclua uma foto num porta-retratos de prata do casamento dela, ao lado de outra das bodas de prata; esta era a espcie 
de me que Cathy queria, e no ela, sem casamento, marido e suti.
       Um pequeno soluo de tristeza e culpa passou pelos lbios de Abbie, rompendo o silncio na pequena sala e fazendo com que Sam, que acabara de entrar, colocasse 
cuidadosamente as duas canecas de caf que estava carregando sobre uma pequena mesa lateral.
       - Abbie, voc no pode realmente acreditar que Cathy teria preferido ter uma me como Anne - ele a criticou com gentileza, enquanto se sentava ao lado dela, 
tomando-lhe as mos antes que ela pudesse evitar, segurando-as calorosamente na dele.
       - No posso? - perguntou, mais uma vez assombrada com a aparente capacidade de Sam de ler seus pensamentos e internamente reconhecendo que seria uma indignidade 
e certamente impossvel tentar libertar as mos do calor da mo dele.
       - Voc  tudo o que uma criana pode querer numa me - continuou ele, a intensidade de sua voz fazendo-a esquecer que no o havia autorizado a lhe prender 
as mos e a olhar diretamente nos olhos dele para procurar algum sinal de que estava secretamente zombando dela; mas no havia nenhum.
       - Voc fez tanto, conquistou tanto...
       - Fiz? - duvidou Abbie, cansada. Lgrimas emocionadas brilharam nos olhos dela. Tentou erguer uma das mos para limp-las, e ento percebeu que Sam ainda 
as segurava.
       Enquanto o medo das prprias emoes a tomava, ela exclamou, asperamente:
       - Solte-me, Sam...
       - Queria poder - respondeu Sam, a voz profunda. - Por Deus que queria poder.
       E ento, antes que o impedisse, ele a puxou para mais perto, beijando primeiro uma, depois a outra das mos que mantinha presas, a seguir, cada plpebra mida, 
que ela fechara com fora, defensivamente, contra as prprias lgrimas e a viso de Sam to intimamente perto.
       Era culpa dele que tudo isso estivesse acontecendo a ela, culpa dele de ela no estar mais no controle total de sua vida, culpa dele de suas emoes estarem 
to  flor da pele, to intensas como no ficavam em anos... culpa dele que agora, em vez de enrijecer o corpo contra ele e rejeit-lo completa e totalmente, estava, 
ao contrrio, aninhando-se nele, mais perto dele, a boca suavizando em dolorosa ansiedade sob a dele.
       As mos agora estavam livres, enquanto ele a tomava nos braos, puxando-a para to perto dele que estava praticamente sentada em seu colo, o corpo junto ao 
dele, e suas mos, as mos que deveria ter usado para empurr-lo, estendendo-se para ele.
       - No deveramos estar fazendo isso...
       Ouviu-se dizer as palavras e soube, to certamente quanto Sam, que eram apenas palavras vazias, destinadas apenas a um ritual social sem significado ou intensidade. 
Isso se expressava em sua linguagem corporal, a linguagem corporal que a fazia se debruar sobre o corpo de Sam, suas mos, de uma forma ou outra, tendo encontrado 
o caminho sob a camisa dele, para apertar e acariciar os msculos slidos e vibrantes de suas costas, enquanto deixava a cabea cair para trs, no eterno convite 
feminino  crescente urgncia da boca de Sam sobre a dela, dentro da dela, na carne macia do seu pescoo.
       Abbie j sentia o corpo respondendo ao dele, dando-lhe as boas-vindas, querendo-o, suas necessidades turbulentas, fortes e exigentes demais para a mente controlar 
ou reprimir.
       O conhecimento do quanto o queria fez seu crebro se recolher em silncio surpreso, incapaz de resistir ou protestar quando Sam comeou lentamente a desabotoar 
seu vestido, beijando demoradamente cada centmetro de carne que expunha.
       Por que estava se comportando de forma to irresponsvel, to... to... perigosamente? Certamente, apenas uma mulher apaixonada se comportava desse modo, 
uma mulher motivada e incentivada pelo amor.
       Amor. Abbie sentiu o estremecimento da aceitao de seus sentimentos comear nos dedos dos ps e seguir por todo o corpo, to eletrificante e poderoso como 
o mais forte dos relmpagos, abalando-lhe o corpo num espasmo visvel de rejeio, fazendo-a gritar em negao gutural e levando Sam a erguer a mo e tomar-lhe o 
rosto, seu polegar acariciando-lhe amorosamente a pele enquanto perguntava, rouco:
       - O que  que est errado?
       O que est errado?
       Abbie fechou os olhos contra a onda quente de lgrimas traioeiras. Tudo estava errado, e como no podia estar, quando era to incapaz de analisar corretamente 
a situao, o toque de um homem, confundir o que era apenas desejo fsico sem emoo com amorosa ternura?
       Quando era to incapaz de olhar a verdade de frente, honestamente, e admitir os prprios sentimentos, o que precisara chegar at agora, at isso, para verdadeiramente 
compreender que a raiva, o dio, a averso a Sam, que alimentara por tantos, tantos anos, tinham sido uma mentira, sentimentos que se forara a acreditar serem reais, 
como uma forma de proteo. Reconheceu com desespero que no odiava Sam, amava-o. Mas ele no a amava, mesmo se seu tolo corao e sua ainda mais tola mente quisessem 
acreditar no contrrio.
       - Abbie, por favor, no chore, meu amor. No suporto ver suas lgrimas... no suporto ver voc magoada...
       Podia ouvir as palavras de Sam, sentir-lhe o toque gentil no rosto enquanto lhe enxugava as lgrimas, mas estava entorpecida demais com o choque, imersa demais 
na dor da descoberta, para registrar o que ele estava dizendo, o que estava fazendo... at sentir a boca dele cobrir a sua.
       Foi suave, a princpio, mas ento se tornou mais intenso, carregado de tanta urgncia, tanto desejo faminto, tanta necessidade dela, que todas as suas boas 
intenes desapareceram no conhecimento do quanto o amava e como podia ser preciosa e passageira essa doce-amarga intimidade com ele, e ento, antes que pudesse 
se impedir, estava retribuindo a urgncia de seu beijo, uma mulher agora, no uma menina, seu corpo sabendo o prazer que ele podia lhe dar, sabendo o prazer que 
ela podia dar a ele.
       Mais tarde, reconheceria que podia ter sido Sam que lhe desabotoara todo o vestido, mas sabia que fora ela que o tirara, expondo os seios nus e inchados para 
o calor do fogo e da ainda mais quente, sufocante carcia visual de Sam em sua pele brilhante e nos mamilos rosados.
       E, certamente, no precisou de encorajamento para arquear as costas em convite sensual a suas mos e lbios ansiosos, enquanto silenciosamente, e depois no 
to silenciosamente, pedia que ele acariciasse e sugasse seus mamilos to sensveis e desejosos. Os dedos dela lhe acariciavam ritmicamente o crnio, mergulhados 
na densa escurido dos cabelos dele, enquanto lhe oferecia os seios e sussurrava frases sem sentido de prazer e desejo.
       Em algum momento, deve ter dito que queria que seu corpo estivesse to acessvel a ela como o dela estava a ele, embora no se lembrasse de t-lo feito, porque 
ele fez uma pausa no beijo que lhe dava e ento, com a boca ainda sobre a dela, comeou a desabotoar a camisa com uma das mos, a outra ainda envolvendo o lado do 
rosto, os dedos acariciando-lhe a pele, como se fosse incapaz de suportar o pensamento de no toc-la.
       Uma das coisas que a haviam chocado e excitado, quando ela e Sam se tornaram amantes pela primeira vez, fora o modo como ele se recusara a fechar os olhos 
e a proibir que ela os fechasse, insistindo que mantivessem o contato do olhar. No queria que se fechassem em si mesmos, longe um do outro atrs das plpebras fechadas, 
dissera ele ento, e agora, como se o corpo dela ainda respondesse ao dele como fizera tantos anos atrs, ela achou impossvel fechar os olhos, no olhar para ele; 
assim, quando o viu, na periferia da viso, mexendo com impacincia nos botes da camisa, sentiu no rosto, no corpo todo, o sangue correr com mais rapidez e calor 
ao registrar sua impacincia.
       No fim, teve que ajud-lo. Seria isso ou correr o risco de ele arrancar os botes, destruindo a camisa - disse a si mesma mais tarde para justificar seu prprio 
comportamento ilgico.
       Mas, ento, fora ela a sussurrar que queria v-lo, toc-lo, sentir-lhe a pele junto a dela - admitiu, o rosto ainda mais vermelho quando Sam lhe lembrou, 
a voz presa na garganta, o que exatamente ela dissera, colocando a palma da mo contra a dela, envolvendo-lhe os dedos com os dele para levar-lhe a mo at seu corpo 
e coloc-la sobre seu fogo.
       Isso no devia estar acontecendo, disse Abbie, tonta, no com ela e no com Sam, no assim. Este era o material da mais sensual e romntica das fantasias... 
o sonho realizado de cada mulher. Ser tocada, abraada, acariciada, ser lenta e deliciosamente amada por um homem, o homem que apenas tinha que olhar para ela daquela 
maneira especial para fazer todo o seu corpo se desmanchar.
       No era de admirar que em todos os anos em que estiveram separados nunca tentara descobrir por que achara impossvel reagir sexualmente a outro homem. Seu 
corpo conhecia a verdade, mesmo se sua mente a tivesse ignorado e negado.
       Rapidamente, Abbie parou de beij-lo, no mais capaz de sustentar a intimidade do contato entre seus olhos, com medo de que Sam pudesse ver nos olhos dela 
o que agora sabia estar escrito bem no fundo de seu corao.
       Enquanto acariciava a lisa, mida coluna do pescoo dele com os lbios, sabia que no era apenas paixo que fazia seu corao bater to freneticamente.
       Ouviu Sam gemer quando lambeu o suor que se acumulara na pequena cavidade na base do pescoo dele; gemeu com mais fora quando ela circulou com a ponta da 
lngua o pequeno mamilo, atormentando-o, e ento, muito delicadamente, lambeu-o e sugou, primeiro, um, depois o outro.
       - Agora voc sabe como  quando faz isso comigo - disse ela com ousadia, observando os msculos no pescoo dele enrijecerem e o suor cobrir sua pele j mida.
       - E voc - desafiou Sam, a voz um sussurro profundo. - Sabe como  quando me toca? Como me sinto, como me faz sentir, as coisas que me faz querer fazer?
       Enquanto olhava para ele, aturdida, consciente da alta voltagem sensual da excitao que ele deliberadamente construa dentro dela, sabendo que o que estava 
lhe dizendo era to sexualmente excitante para ela como era obviamente para ele, ele a tomou nos braos, tirou-lhe as roupas completamente e ento, antes que pudesse 
impedi-lo, ele abaixou a cabea e lhe beijou gentilmente a curva do ventre.
       - Sinto muito, sinto muito... sinto muito no ter acreditado em voc - Abbie ouviu-o dizer, a voz embargada. - Por Deus, queria ter acreditado, Abbie, por 
Deus, queria que as coisas tivessem sido diferentes, que eu no tivesse jamais rejeitado voc e Cathy.
       A voz ficou traioeiramente ainda mais embargada, e, enquanto repousava o rosto no ventre dela, Abbie sentiu a pele ficar molhada, e ento ele ergueu a cabea 
e olhou para ela, mostrando-lhe os sinais visveis de sua emoo e remorso, as lgrimas que era homem demais para esconder dela.
       O corao de Abbie doeu subitamente com uma emoo semelhante. Instintivamente, ela estendeu os braos e abraou seus ombros.
       - Voc teve o que pensava ser um bom motivo para no acreditar em mim - ouviu-se dizer, e reconheceu, numa sbita onda de surpresa, que realmente sentia o 
que estava dizendo, que, pela primeira vez, era possvel no apenas admitir, mas genuinamente aceitar a razo por que se recusara a acreditar que Cathy era filha 
dele.
       - Nenhum motivo poderia jamais ser bom o bastante para me fazer duvidar de voc - ouviu-o dizer, a voz abafada. - Devia ter confiado em voc... acreditado 
em voc...
       - Voc havia feito uma vasectomia - lembrou Abbie. - No que lhe dizia respeito, era impossvel que eu tivesse concebido um beb seu...
       - Voc diz isso como se realmente acreditasse - disse Sam, sombrio. - No posso lhe pedir perdo, Abbie... como pode me perdoar se eu no me perdo? E o perdo 
no pode apagar todos esses anos de dor que existem entre ns, pode? Sou um ser humano, e, portanto, imperfeito. Mas como todo mundo; quero ser aceito... amado com 
minhas imperfeies, no apesar delas.
       Fez uma pequena pausa, suspirou e ento disse:
       - Mas no devamos estar discutindo isso agora. Na verdade, no devamos estar falando de qualquer coisa agora. - A voz de Sam mudou, ficou mais lenta e mais 
profunda, enquanto abaixava a cabea e lhe beijava o ventre de novo.
       Mas dessa vez sua boca se moveu, desceu, e, apesar de seu desejo cerebral de impedi-lo, de lhe dizer que no havia objetivo no que estavam fazendo, que no 
havia futuro para eles, o corpo dela j respondia ao que ele estava fazendo.
       Abbie comeou a tremer enquanto seu autocontrole ficava abalado e desaparecia, varrido pela doce sensualidade da crescente seduo ntima da boca de Sam nela, 
como se a boca a reconhecesse enquanto a redescobria, reconhecesse todos os pequenos e involuntrios sinais que diziam a ele o quanto o que estava fazendo lhe dava 
prazer, o quanto a fazia quer-lo. Familiaridade nem sempre causava cansao ou desdm - admitiu Abbie aturdida pela torrente de desejo doloroso que a invadiu. Algumas 
vezes acendia um fogo que queimava tanto, to intensamente, que ameaava...
       Ela emitiu um pequeno e angustiado arquejo de xtase insuportvel quando a boca de Sam cobriu gentilmente a parte mais sensvel dela.
       No teve conscincia, no reconheceu ter gritado o nome dele, ter implorado, exigido que a preenchesse com seu corpo e continuasse a preench-la at ambos 
estarem completos e saciados, mas sabia que tinha feito isso pela resposta que recebeu.
       Tudo o que sabia era que, na segunda vez em que seu corpo explodiu no ritmo convulsivo do orgasmo, Sam o partilhou com ela. Partilhou e a elogiou por ele, 
cobrindo-a de beijos e de ternas palavras de agradecimento, acariciando-lhe a pele, segurando-a bem junto ao corpo, abraando-a com fora por muito, muito tempo 
depois do clmax de seu prazer partilhado ter amainado.
       Foi apenas quando ela estava prestes a dormir nos braos dele que ele finalmente se mexeu, sussurrando suavemente:
       - Se ficar aqui por mais tempo, vamos dormir, e a ltima coisa que quero agora  ser encontrado por nossa filha de novo amanh de manh... especialmente...
       Abbie olhou para ele angustiada e o interrompeu.
       - Voc est indo embora? Mas... - Rapidamente mordeu o lbio. O que esperava? Que ele ficasse a noite toda de novo? Que fossem para cima juntos, dormissem 
juntos, como se os ltimos vinte e poucos anos no tivessem acontecido... como se, na verdade, ainda estivessem casados... fossem ainda um casal?
       - Voc quer que eu fique? - perguntou Sam.
       Abbie balanou a cabea. A ltima coisa de que precisava agora era que ele adivinhasse como se sentia. Era bvio que, no que dizia respeito a ele, tudo o 
que sentia por ela era um tipo muito masculino e no emocional de desejo fsico, um resto da luxria do passado, sem dvida. Enquanto ela...
       - No,  claro que no, estava apenas...
       Rapidamente se afastou dele e comeou a se vestir, subitamente sentindo frio, tornando-se consciente de si mesma.
       Mas o frio externo de sua pele nua no era nada quando comparado com o gelo interno que lhe apertou o corao recm-exposto e vulnervel.
       Sam tambm estava se vestindo e, quando se levantou, voltou-se para ela e disse, hesitante:
       - Sabe, a idia de Cathy pode no ser m... ns nos casarmos de novo. Se apenas...
       - Por qu? Porque ficaria melhor nos convites para o casamento? - perguntou Abbie enquanto piscava com fora para impedir que as lgrimas de dor lhe corressem 
dos olhos.
       -  esta a nica razo que pode encontrar? - perguntou ele rapidamente.
       - Bem, certamente tudo ficaria muito mais fcil para Cathy e para a me de Stuart - disse Abbie. - Infelizmente, no sou to pouco egosta como voc, Sam. 
Para eu me casar de novo, teria que saber que amo e sou amada, to profunda e completamente que nada nem ningum... - Parou, incapaz de continuar.
       - Estou ouvindo o que voc diz, Abbie - disse Sam secamente. - No se preocupe, entendi a mensagem. Voc nunca mais vai querer se casar comigo de novo, porque 
no consegue confiar em mim, no sabe se eu a magoaria de novo. Certo?
       Parou, olhou para ela, a expresso dos olhos impenetrvel, e continuou:
       - Ah, est tudo bem, sou um adulto e tive que aprender algumas lies bem difceis na vida. No precisa me explicar que uma mulher plenamente madura tem suas 
necessidades e o direito de satisfaz-las quando e onde quiser, sem que seu parceiro espere juramentos de amor eterno por ele. Peo desculpas se deixei minhas emoes 
me dominarem,  outra boa razo para eu no passar a noite aqui - acrescentou agressivamente. - Pela manh eu provavelmente estaria...
       No completou o que estava prestes a dizer e, em vez disso, virou-se para a porta, parando apenas para comentar:
       - Pelo bem de Cathy, temos que continuar com isso at o fim, mas imagino que, no que nos diz respeito, quanto antes ela e Stuart se casarem e ns pudermos 
seguir nossos caminhos diferentes, melhor.
       Depois que ouviu o som do carro de Sam desaparecer, Abbie reconheceu que havia uma dzia ou mais de coisas que poderia ter dito a ele. Uma dzia ou mais de 
respostas duras, que lembrariam a ele que essa idia estpida de fingirem que o equvoco de Cathy, de que haviam se reconciliado, fora dele, no dela. Mas o choque 
que sofrera com a aspereza da briga, acontecendo to depressa depois da intensa intimidade partilhada, a deixara sem defesa, vulnervel demais para suportar a dor 
que sentia, quanto mais para brigar tambm.
       E o pior de tudo, admitiu ela, uma hora depois, enquanto se enrolava numa pequena e miservel bola sob o edredom e abraava o travesseiro, era que se Sam 
aparecesse milagrosamente na cama ao lado dela agora, ela teria... ela teria...
       Enquanto as lgrimas desciam sem obstculos por seu rosto, Abbie deu vazo a toda a sua angstia e dor com um grito desesperado de puro sofrimento.
       
       
       
     Captulo Dez
       
       
       Abbie suspirou. Esta noite, ela e Sam participariam de um jantar formal oferecido pela me de Stuart. Abbie no queria ir, mas sabia como Cathy reagiria se 
tentasse faltar ao compromisso.
       Fizera um esforo para conversar com Cathy sobre a perda da proximidade que haviam sempre partilhado, mas era bvio que Cathy ainda no a perdoara pelo que 
considerara um mau comportamento da me durante a visita para ver a casa que pensavam em comprar.
       - Sei que voc e papai esto juntos de novo e compreendo que voc deve... - comeara Cathy, quando Abbie tentara conversar com ela sobre o que havia acontecido. 
- Mas no v, me, que... bem, que... algumas coisas so... inadequadas?
       - Ela est constrangida, confusa e zangada consigo mesma por se sentir assim - explicara Sam prontamente, quando finalmente conseguira convencer Abbie a confessar 
o que a estava preocupando. - Os sinais visveis da sexualidade dos pais pode ser constrangedor para os filhos adolescentes ou adultos jovens...
       - Mesmo hoje em dia? - protestara Abbie, incrdula.
       - Mesmo assim - dissera Sam. - Especialmente quando, como Cathy, uma filha adulta no cresceu vendo ou aceitando os pais partilhando seu amor fsico.
       - Ela no pareceu constrangida aquela manh em que nos encontrou juntos na cama - Abbie comentou.
       - No, mas ento provavelmente ficou eufrica demais para ter conscincia de outra coisa alm da alegria de nos ver reconciliados. Agora  bem diferente. 
No se preocupe com isso - aconselhou -, vai voltar a ser a mesma depois de se acostumar  idia.  uma jovem inteligente e certamente ficar consciente da ambivalncia 
e das contradies do que est sentindo agora.
       - Mas ela est certa - admitiu Abbie -, eu no devia ter sado daquele jeito. No quando...
       - No quando o qu? - perguntara Sam suavemente, com uma expresso no olhar que fez o corao de Abbie bater com fora... e no foi com apreenso, no, certamente 
no com apreenso. - No quando voc tem seios perfeitos para excitar os sentidos de um homem. Macios, quentes, deliciosamente perfumados, divinos para tocar e ainda 
mais divinos para saborear, para sugar... to sensuais e desejveis de todas as maneiras que, s de saber o efeito que causam...
       - Sam, pare com isso - protestara Abbie, abalada, e ento se perguntou por que, quando ambos reagiam com uma sensualidade to extraordinria um ao outro, 
quando temia cada e todo segundo que passava ao lado dele, se ele estava junto dela lhe parecia que fazer amor com ele era to fcil e natural como respirar. E ento 
se lembrara de por que no podiam transformar em realidade aquele fingimento.
       O jantar  noite seria particularmente difcil; Anne, com certeza, faria perguntas sobre os planos dela e de Sam, perguntaria, como j fizera antes, se Abbie 
j decidira vender a prpria casa e, se j, se procurariam alguma coisa na cidade ou se mudariam para mais perto da universidade.
       - Eles me ofereceram a ctedra snior - contara-lhe Sam abruptamente trs noites atrs, quando Abbie estava preparando seu jantar e, naturalmente, o convidara 
para ficar.
       - Voc vai aceitar? - ela sondou.
       Tentara protestar contra o nmero de vezes em que ele ou aparecia para uma visita ou telefonava, mas ele simplesmente lhe lembrara:
       - Cathy achar que tudo terminou se eu no fizer isso.
       - Voc poderia muito bem estar vivendo aqui - explodira ela apenas dois dias atrs, quando ele chegara logo depois de ela ter vivido uma tarde particularmente 
difcil no trabalho.
       Ento ele perguntou, suavemente:
       - Isso  um convite?
       E ela ficara to chocada que no respondera, apenas a mente gritou que no, a ltima coisa de que precisava agora era t-lo vivendo sob seu teto, quando suas 
emoes e seu corpo...
       Ficara tensa, sem querer reconhecer exatamente como seria se estivessem vivendo juntos, como seria partilhar de novo com ele aquela intimidade to especial, 
acordar pela manh enrascada no corpo dele, sabendo que ele era parte permanente da vida dela.
       Quando o desafiara sobre seus planos para o futuro e ele lhe contara sobre o cargo oferecido pela universidade, ele apenas perguntou:
       - Voc quer que eu aceite?
       Ele estava em p, perto demais dela enquanto esperava pela resposta - reconhecera Abbie, enquanto molhava nervosamente os lbios com a ponta da lngua, desejando 
que houvesse algum meio de ocultar sua expresso. No fim, conseguiu dizer secamente:
       - Seus planos para o futuro no tm relao nenhuma comigo,  a Cathy que voc deve perguntar.
       Vira o modo como os olhos dele escureceram diante de seu pequeno e traioeiro gesto de passar a ponta da lngua nos lbios, e o corpo dela reagira perigosamente 
 mensagem sensual dos olhos dele.
       Estar perto dele era como estar fisicamente drogada ou embriagada - decidira enquanto tentava combater os efeitos de como ele a fazia se sentir.
       - Afinal - no conseguira deixar de dizer irresponsavelmente -  por ela que voc est fazendo tudo isso, toda essa farsa, esse sacrifcio.
       Ridiculamente, prendera a respirao, quase como se fosse tola o bastante para ter a esperana de que ele negaria e lhe diria... lhe diria o qu?
       - Realmente no me importa que deciso voc vai tomar
       - conclura finalmente, mentindo e conseguindo lhe dar as costas enquanto dizia as palavras, reforando-as com um dar de ombros indiferente.
       - No... voc no se importa, no ? - concordara Sam calmamente.
       Ele fora embora logo depois, sem terminar o jantar... provavelmente porque queria ir  casa de Stuart e dar a notcia a Cathy - imaginara Abbie. E se recusara 
a ceder  tentao de correr para a janela da sala de estar para v-lo partir.
       Sam chegou - como Abbie sabia que chegaria - s 20 horas em ponto para apanh-la. Uma vez que Anne, como ela mesma dissera, "gostava de fazer as coisas adequadamente", 
o jantar seria formal, e o corao vulnervel de Abbie falhou quando reconheceu como Sam parecia masculinamente atraente em seu smoking.
       Ela usava um conjunto de cala de l fina e jaqueta de crepe, e, para sua irritao, percebeu que estava ruborizando de leve ao ver o modo como Sam olhava 
para ela e a aprovao nos olhos dele
       - Voc sempre foi uma jovem extraordinariamente bela, Abbie - disse ele com sinceridade. - Mas agora, como uma mulher adulta... 
       - Como uma mulher, no gosto nem preciso de cumprimentos falsamente elogiosos - interrompeu Abbie, o tom spero, mas a pulsao acelerada demais, e no conseguiu 
olhar diretamente nos olhos dele.
       - No, no penso que goste - concordou Sam gravemente. - Nem me iludo ao pensar que sou o primeiro e o nico homem a reconhecer como voc se tornou uma mulher 
to bela e serena, Abbie, nem o quanto isso combina bem com voc...
       Antes que Abbie pudesse reclamar da escolha da palavra "serena" para descrev-la, Sam continuou, suavemente:
       - Voc usa bem sua beleza e serenidade, Abbie, muito bem mesmo. A jovem com quem me casei era extremamente bela, mas a mulher na qual voc se tornou...
       Ele sacudiu a cabea antes de dizer:
       -  verdade o que dizem sobre a beleza real ser muito, muito mais profunda do que o exterior. A sua brilha em voc, Abbie; ilumina-a e a todos que esto  
sua volta.
       - Vamos... vamos chegar tarde - foi tudo que Abbie conseguiu dizer.
       Se fosse outro homem, poderia quase acreditar que suas palavras eram resultado de malcia objetiva, do conhecimento de como se sentia, mas jamais poderia 
acusar Sam de se comportar assim. Ele jamais infligiria dor deliberadamente a algum e ento se afastaria para observar a agonia que causara.
       Era um pequeno consolo, supunha, ele no ter idia de como realmente se sentia... uma atadura para cobrir qualquer ferimento em seu orgulho. Mas qual era 
o efeito de curar pequenos ferimentos enquanto emocionalmente estava sangrando at morrer?
       - Vamos chegar tarde - repetiu.
       Naturalmente, no estavam atrasados, mas Cathy e Stuart haviam chegado antes deles, e enquanto o pai de Stuart abria a porta para eles, Abbie viu a filha 
conversando com a futura sogra, o rosto vermelho enquanto refutava alguma coisa que a outra mulher dizia, fazendo Anne franzir os lbios e sacudir a cabea. As duas 
pararam de conversar quando viram que Abbie e Sam haviam chegado.
       Sobre o que - perguntou-se Abbie, inquieta - estavam conversando... ou discutindo? Era impossvel perguntar a Cathy, enquanto Anne insistia em apresentar 
Sam e ela aos aparentes convidados de honra do jantar, um casal de velhos amigos dos pais de Stuart que pareciam ter se mudado da regio alguns anos antes.
       Era bvio que aquele casal, um pouco mais velho do que os pais de Stuart, tinha sido muito bem-sucedido, e particularmente Abbie os considerou quase insuportavelmente 
presunosos, enquanto fazia o melhor que podia para responder s muitas perguntas que Mary Chadwick lhe fazia.
       Pelo canto do olho percebeu que estava sendo observada pelo nico homem sozinho na festa, que reconheceu como o primo divorciado de Anne. Tinha sido apresentada 
a ele num encontro familiar anterior, embora ele tivesse sado cedo.
       Era, como Anne se deu ao trabalho de contar a Abbie depois, a ovelha negra da famlia, embora no tivesse especificado o que ele fizera para merecer o ttulo. 
Talvez simplesmente o fato de que era divorciado fosse o suficiente - pensara Abbie com cinismo.
       Agora, quando finalmente conseguira escapar das perguntas indiscretas e impertinentes de Mary Chadwick e comeara a se afastar para voltar para junto de Sam, 
que conversava com o pai de Stuart, o primo de Anne a interceptou.
       - Nos encontramos de novo. Tive esperana de que isso acontecesse - disse ele, o humor nos olhos desmentindo a vulgaridade das palavras.
       - Deve ser o destino - brincou Abbie, contente com o alvio de uma conversa ligeira depois de ter sido interrogada to cansativa e brutalmente pela melhor 
e mais velha amiga de Anne.
       - O destino dando uma ajuda... ou melhor, um pesado empurro - concordou ele, acrescentando, com um misto de irritao e zombaria: - Voc no acreditaria 
no trabalho que tive para conseguir um convite da prima Anne para esta festa to aborrecida. Ela no me aprova, sabe, e vejo que j advertiu voc contra mim... no 
advertiu? - perguntou, a diverso aumentando nos olhos dele quando Abbie inclinou a cabea.
       Era um homem muito bonito - reconheceu Abbie -, talvez um ano ou dois mais jovem do que ela. Alto... embora no to alto quanto Sam, nem com msculos to 
firmes. Suas roupas caras escondiam o que ela suspeitava ser o comeo de uma barriga, embora desconfiasse que a vaidade dele jamais lhe permitiria admitir isso.
       Era um homem que claramente gostava de flertar. Um homem que se considerava muito  vontade com mulheres, que sempre o receberiam bem. Mas Abbie j encontrara 
seu tipo antes, em diferentes disfarces. Sua despreocupao a divertia e era lisonjeiro ser escolhida por ele, mas certamente no era o tipo de homem que algum dia 
levaria a srio.
       - Anne me contou que voc e o pai de Cathy se reconciliaram recentemente e esto prestes a se casar de novo. Diga-me que no  verdade - exigiu, dramaticamente 
-, ou me deixe persuadi-la de que a vida pode ter algumas outras opes bem interessantes - acrescentou, afrontosamente.
       - No  verdade - disse Abbie sinceramente, mas, embora sua voz fosse calma, os olhos dela refletiam a diverso do flerte que via nos dele.
       - Compreendo... ento ainda h esperana para mim, afinal? Anne  uma cozinheira maravilhosa - disse ele, a aparente mudana de assunto fazendo com que ela 
o olhasse, perplexa, at ele continuar: - Todos dizem que , ento deve ser verdade. Voc sabe cozinhar?
       - Muito bem - admitiu Abbie bem-humorada, lembrando-se do diploma de cordon bleu guardado no fundo de uma das gavetas de sua escrivaninha.
       - Maravilhoso. Vou permitir que me prove se isso  verdade... pela manh. Prefiro um caf-da-manh continental: suco fresco de frutas, quentes e frescos croissants 
e um enorme bule de caf verdadeiro. Caf-da-manh na cama  uma experincia to sensual, no acha? Todas aquelas oportunidades; todas aquelas deliciosamente quentes 
migalhas de croissant, todos aqueles...
       Abbie no conseguiu evitar; deu uma risada e ento parou quando percebeu que aqueles que estavam perto tinham parado de conversar para ouvir a conversa entre 
ela e o primo de Anne.
       Quando virou a cabea e encontrou o olhar de desaprovao de Mary Chadwick, para surpresa da prpria Abbie, ouviu-se dizer, bem claramente:
       - Caf-da-manh na cama  uma idia maravilhosa, mas para sabore-lo completamente tem que estar adequadamente composto, e as pessoas que vo tom-lo devem 
estar completamente descompostas...
       Foi uma coisa estpida, idiota, sem sentido para se dizer,  claro, e ela merecia a raiva evidente de Cathy, admitiu Abbie para si mesma mais tarde.
       Depois de ignor-la por todo o jantar, quando finalmente terminou, Cathy a seguiu at o andar superior, para onde Abbie se dirigira para pegar o xale que 
usara com o conjunto, e fechou a porta do quarto com firmeza, antes de perguntar, numa voz trmula, o que a me pensava que estava fazendo.
       - Como pode me constranger assim? - perguntou com amargura. - Comportando-se como uma... flertando daquela maneira. No s na frente da famlia de Stuart, 
mas de papai tambm. Pensei que a conhecia, me, mas estou comeando a achar que no a conheo, de jeito nenhum. Talvez, afinal, papai tivesse bons motivos para 
suspeitar que eu no era filha dele - acrescentou, imperdoavelmente.
       Abbie simplesmente permaneceu parada, olhando para a filha. Que Cathy estivesse aborrecida porque achou que Abbie a havia constrangido diante de Stuart e 
sua famlia, podia entender, mesmo se achasse que Cathy estava exagerando sobre o que, afinal, tinha sido apenas um flerte relativamente inocente, mas acus-la, 
com base nisso, de ter sido infiel a Sam...
       Nenhuma das duas ouviu a porta do quarto se abrir ou percebeu que Sam entrara at ouvi-lo dizer, severamente:
       - Cathy, chega. Sei que est aborrecida, mas isso no  justificativa para voc falar assim com sua me. O que voc disse  imperdovel.
       Ambas o ouviram surpresas; Cathy se recuperando, primeiro, para apelar para ele, a voz trmula de raiva e indignao:
       - Voc a viu, papai, viu como ela se comportou, o modo como ela... fez de si mesma um espetculo, encorajando o primo de Anne a... a flertar com ela daquele 
jeito.
       Sobre a cabea de Cathy, os olhos de Sam se encontraram com os de Abbie, mas ela desviou o olhar rapidamente, incapaz de ouvir, na voz dele, o mesmo desprezo 
raivoso que havia na de Cathy.
       - Como pde fazer isso? - perguntou Cathy, voltando-se de novo para Abbie. - Como pde me constranger, me humilhar assim, e diante dos pais de Stuart?
       Lgrimas de raiva encheram os olhos de Cathy, mas quando Abbie deu um passo  frente, automaticamente, para confort-la e pedir desculpas, Cathy recuou rapidamente, 
voltando-se para Sam.
       - Acho que nunca a perdoarei por isso - exclamou, dramaticamente.
       Foi Sam que impediu que as coisas piorassem, dizendo calmamente:
       - J disse, Cathy, chega. Sei que est aborrecida, mas este no  o lugar nem  a hora.
       - Mas voc deve ter se sentido como eu - insistiu Cathy apaixonadamente, dirigindo-se a Sam. - Voc deve ter ficado to constrangido como eu. Afinal, voc 
e mame esto supostamente reconciliados, e, no entanto, ela flerta abertamente com outro homem... e diante dos pais de Stuart...
       - No, Cathy, no fiquei constrangido - interrompeu Sam com firmeza.
       E ento, para surpresa de Abbie, cruzou o quarto e lhe tomou a mo, erguendo-a para os lbios e beijando-a gentilmente, olhando-a bem dentro dos olhos e dizendo-lhe... 
dizendo a ele, reconheceu Abbie, e no a Cathy, que agora os observava com a boca aberta de incredulidade:
       - Sabe, aprendi com meus erros, e o pior erro que cometi em toda a minha vida foi no confiar em sua me, no confiar no amor dela, no nosso amor. Esse erro 
nos causou, a ns dois e a voc, uma dor insuportvel. Custou a voc um pai e a mim a perda da mulher que amava e da filha que teria amado. Magoei sua me insuportavelmente, 
imperdoavelmente, e isso causou o tipo de misria e destruio pelas quais jamais me perdoarei.
       Parou para observar a expresso nos olhos de Abbie, ento continuou:
       - Hoje estou mais sbio, e se sua me decide se divertir numa festa muito inspida com um pouco de flerte verbal sem maldade ou segundas intenes, ento 
tem todo o direito de faz-lo, e nem voc, nem eu, nem, na verdade, mais ningum, tem o direito de critic-la por isso. Amar uma pessoa, realmente amar essa pessoa, 
tambm significa confiar nela. Eu sei que, se sua me decidir passar alguns minutos conversando ou flertando com outro homem, isso no ter o mais leve efeito no 
relacionamento dela comigo. Nada pode mudar meu amor por ela, nada pode mudar isso, nada nunca pode e nada nunca poder.
       Ao ouvir a sinceridade na voz de Sam, Abbie olhou profundamente nos olhos dele, procurando algum sinal de que suas palavras eram apenas mais uma parte da 
farsa em que estavam mergulhados para preservar a felicidade de Cathy. Mas, por mais que procurasse, tudo o que podia ver no grave e firme olhar que enfrentava sua 
ferozmente defensiva busca era um calor, uma certeza, uma mensagem que a fez esquecer no s a intensa raiva de Cathy e tambm a presena dela no quarto com eles.
       - Sam... - comeou, insegura.
       Mas Cathy tambm comeara a falar, e enquanto Abbie a olhava com mgoa, ela disse, envergonhada:
       - Desculpe, me, papai est certo... minha reao foi exagerada.  apenas que, bem, suponho que queria que voc causasse boa impresso  famlia de Stuart 
e...
       - Sua me no precisa se preocupar com a impresso que causa aos outros, nem voc - interrompeu Sam com firmeza. - Stuart ama voc como voc , Cathy...
       - Oh, sim, sei disso - concordou Cathy, e ento pareceu desconfortvel quando explicou: -  apenas que, com Stuart e a me brigando... sobre eu querer conhecer 
voc...  importante para mim, me, que vocs dois sejam amigos - apelou para Abbie. - Eu amo tanto voc e Stuart, no quero que haja... quero que vocs se amem 
e se respeitem, como eu fao...
       Abbie no conseguiu esconder sua perplexidade e seu alvio.
       - E s isso? - perguntou, balanando a cabea de leve.
       - Pensei que estava zangada comigo porque no me pareo com a me de Stuart. Pensei que voc se sentia inferior por eu no ser como ela.
       - O qu? - Agora foi a vez de Cathy parecer espantada.
       - Como pode pensar isso? - protestou. - Deveria saber que  a mais maravilhosa e preciosa me que qualquer pessoa poderia ter - disse Cathy, emocionada. - 
Fiquei to magoada por voc e Stuart no se darem bem, especialmente quando sei como vocs dois so realmente especiais. S queria que Stuart a visse como realmente 
, e que voc compreendesse que, quando entrou em contato com papai, ele no fez isso para aborrecer voc. Ele s fez isso por mim... porque achou que me faria feliz.
       - Ah, Cathy - disse Abbie, a voz embargada, ento abraou-a e a soltou, dizendo-lhe com firmeza: - Voc est certa, ele  uma pessoa muito especial e no 
lhe dei o valor que tem, mas prometo que a partir de agora eu o farei, e tambm prometo que no a constrangerei mais flertando - acrescentou, generosa.
       - Bem, voc pode flertar - riu Cathy -, mas apenas com papai... e  melhor eu ir - acrescentou. - Stuart deve estar se perguntando onde estou...
       - Bem, ns tambm estamos saindo - disse Sam enquanto Cathy se dirigia para a porta e a abria. - Vemos voc amanh.
       Abbie mal esperou que Cathy fechasse a porta antes de se voltar para Sam e exigir:
       - Sam?
       Mas, mais uma vez, no teve chance de terminar o que queria dizer, porque Sam lhe tomara as duas mos e as colocara gentilmente contra seu peito, onde as 
segurou, coberta pelo calor das mos dele, e olhou-a nos olhos.
       - Eu disse a verdade, voc sabe, sobre amar voc... - comentou, a voz rouca.
       - Isso... isso no pode ser verdade - protestou Abbie, tremula.
       - Mas  - garantiu Sam. - Talvez esta no seja a hora para lhe dizer isso, mas sempre foi e sempre ser a verdade. Amei voc todos esses anos, quando ramos 
jovens, e todos esses anos vazios em que ficamos separados... e amo voc agora. Por que acha que voltei?
       - Para ver Cathy - disse Abbie, a voz muito baixa.
       - Para ver Cathy - concordou -, e por sua causa. Voc, com certeza, sabia - desafiou ele suavemente. - Percebeu como me sentia quando a tocava, quando fizemos 
amor?
       - Pensei que fosse apenas sexo - admitiu Abbie dolorosamente.
       - Apenas sexo? - Sam questionou, zombando de si mesmo.
       - Ah!, Abbie...
       - Voc disse que faria sacrifcios... por Cathy, e eu pensei... - Voc pensou que levar voc para a cama era um deles. Foi assim para voc? - perguntou Sam 
suavemente.
       As mos dele no mais prendiam as dela, que, agora, por algum motivo estranho, pareciam muito felizes em repousar possessivamente no peito dele, enquanto 
as dele lhe acariciavam o rosto, a pele, puxando-a para mais perto do corpo dele, e os pequenos tremores que seu toque sempre evocava, e que ela pensara ter sob 
total controle, se tornaram visveis, tremores sensuais de resposta  proximidade dele.
       Era impossvel no olhar para a boca de Sam, e, tendo feito isso, se tornou ainda mais impossvel para ela no eliminar a pequena e ltima distncia entre 
eles com um pequeno som entre um suspiro e um apelo, o rosto dela se erguendo automaticamente para o dele, os lbios entreabertos.
       - Abbie, Abbie, amo tanto voc, e estou to cansado de ser covarde, de ter medo de arriscar perder o pouco de voc que tenho, confessando a voc como me sinto. 
Esta nossa farsa, sobre ressuscitar nosso amor, no  uma mentira para mim. No posso ter a esperana de que voc me perdoe, e certamente no espero que voc esquea 
o passado, nem que coloque as necessidades de Cathy ou as minhas e os meus desejos emocionais acima dos seus, e se so apenas as chamas renovadas da paixo fsica 
que partilhamos no passado que fazem voc reagir to intensamente a meus braos, ento preciso que me diga, porque apenas desejo fsico nunca ser o bastante para 
mim...
       - Nem para mim - admitiu Abbie, a voz trmula. - Eu... foi por isso que... pensei que era assim para voc... apenas... apenas uma paixo fsica...
       Ela tentou protestar quando ele comeou a beij-la, lembrando-lhe que estavam na casa de outra pessoa e que poderiam ser facilmente interrompidos por outros 
convidados, que viriam pegar os casacos para partir, mas a sensao da boca de Sam se movendo sobre a dela, as investidas intensas, apaixonadas, de sua lngua, o 
conhecimento de que o desejo que sentia nele era fruto do amor e no da luxria, tornaram-lhe impossvel resistir por muito tempo, e apenas muitos minutos depois 
ela conseguiu lhe dizer, rouca:
       - Sam, eu o amo muito, sempre amei. Como pude deixar voc partir? Como consegui viver todos esses anos sem voc?
       - Foi minha culpa - disse Sam, muito srio - minha e...
       - No, ns dois somos culpados - interrompeu Abbie com firmeza -, ns dois cometemos erros.
       - Ah, Abbie, no mereo sua generosidade - protestou Sam asperamente enquanto a tomava nos braos de novo, e quando Abbie olhou para ele, viu a leve umidade 
de lgrimas nos olhos dele.
       - Ah, Sam - ela sussurrou, emocionada.
       - Ah, Abbie - ele replicou, levando a mo que ela erguera para seu rosto mido aos lbios e lhe perguntando: - Voc me considerar menos homem se lhe confessar 
que estas esto longe de ser as primeiras ou as nicas lgrimas que derramei por sua causa? De ter chorado por voc e para voc... enquanto ficava deitado  noite 
na minha cama, sofrendo por voc, amaldioando-me, desejando poder voltar ao passado e recomear, acreditar em voc. Mas advirto que agora, Abbie, dessa vez  para 
sempre, por toda a eternidade, infinitamente... por toda a vida e alm da vida.
       - Sim - concordou Abbie enquanto erguia o rosto para o beijo dele. - Sim, sim. Ah, sim, Sam. Sim...
       - Vamos sair daqui - sugeriu Sam com urgncia enquanto abaixava a cabea para beij-la. - H algumas coisas, alguns votos que apenas posso fazer em particular... 
De preferncia em algum lugar com o tipo de privacidade que inclui uma cama... uma cama bem grande. Coisas que podem, se tivermos sorte, tomar muito tempo para serem 
ditas e feitas... um tempo extremamente longo - acrescentou, significativamente.
       Abbie riu e sussurrou, feliz:
       - Sei exatamente o lugar...
       - E amanh de manh, quando voc acordar nos meus braos, no haver volta... nenhuma rejeio, nenhuma recusa de aceitar meu amor? - perguntou Sam.
       - No - confirmou Abbie, o corao nos olhos quando o olhou com calma e confiana. - Voc disse que no podemos esquecer o passado, Sam, mas podemos us-lo 
para construir nosso futuro juntos; podemos usar os erros que cometemos para construir para ns um futuro mais forte e um amor mais forte. No podemos esquecer o 
passado, mas podemos aprender com ele.
       - Vamos para casa - sussurrou Sam, os olhos escuros com a emoo que o dominava.
       - Sim, vamos para casa - concordou ela suavemente.
       Enquanto Sam a segurava nos braos, Abbie soube que, dessa vez, quando fizessem amor, no precisaria esconder nada, no haveria medo de expressar e revelar 
seus sentimentos, nenhuma necessidade para nenhum dos dois esconder um do outro o que realmente sentiam.
       
       
       
       
       
       
       
     Eplogo
       
       
       - Olhe para minha me e meu pai - pediu Cathy afetuosamente ao novo marido. - Qualquer um pensaria que eles  que acabaram de se casar, no ns.
       - Bem, eles esto casados h apenas seis semanas - lembrou Suart quando ambos se voltaram para observar Abbie e Sam, que partilhavam um longo beijo.
       - Mmm... isso foi bom - murmurou Sam satisfeito, enquanto acariciava com o nariz o calor do pescoo de Abbie.
       Ele riu quando ela o empurrou com gentileza, lembrando:
       - Este  o dia do casamento de nossa filha, lembre-se.
       - Mmm... e, oficialmente, voc e eu ainda no tivemos nossa lua-de-mel - informou ele de volta.
       Haviam decidido esperar at depois do casamento de Cathy para fazer uma viagem de dois meses  Austrlia.
       Sam queria que Abbie conhecesse o pas que fora seu lar nos anos em que viveram separados, e havia alguns assuntos de que ele precisava cuidar, algumas coisas 
que precisava fazer, algumas pontas que precisava amarrar antes de assumir o cargo de catedrtico snior na universidade.
       Abbie se sentiria feliz se eles adiassem o prprio casamento para depois do de Cathy; afinal, estavam vivendo juntos desde o dia em que declararam seu amor 
um pelo outro. Mas Sam lhe dissera com muita firmeza que queria a segurana de saber que estavam casados. Assim, muito discretamente, mas muito amorosamente, casaram-se 
de novo numa cerimnia simples para a qual convidaram apenas a famlia e amigos mais prximos.
       O casamento de Cathy foi uma coisa bastante diferente.
       Abbie ficara impressionada ao descobrir o quanto o hotel, de que se lembrava como um lugar to romntico, havia mudado desde que Sam a levara l para sua 
primeira noite juntos. Ele reservara a mesma sute no torreo para eles quando visitaram o hotel antes do casamento de Cathy, para cuidar da recepo, mas... concordaram 
que o lugar no era mais o mesmo.
       Era muito maior agora, com instalaes para conferncias e lazer, e se tornara um local ideal para uma recepo de casamento.
       Enquanto Sam lhe tomava a mo e eles foram se encontrar com os outros, ela sorriu amorosamente para ele. Tanto havia mudado desde que ele a trouxera aqui 
como uma virgem nervosamente excitada, e, no entanto, de algum modo, bem pouco mudara.
       Seu amor, o amor que ela achara ter sido destrudo para sempre, se mostrara maravilhosamente forte e firme. Enquanto olhava para Cathy atravs do salo, to 
radiantemente feliz enquanto ficava em p ao lado de Stuart, Abbie fez uma pequena orao para que o amor deles se mostrasse igualmente forte.
       - Voc tem muito medo por eles, no tem? - sussurrou, emocionada, a me de Stuart ao lado dela. - Tanto medo e, no entanto, ao mesmo tempo, tanta... humildade. 
Isso a faz se lembrar... - fez uma pausa e olhou para o marido.
       - Sim, faz - concordou Abbie com gentileza.
       Ela e a me de Stuart haviam se tornado, se no amigas ntimas, pelo menos boas aliadas. Depois de conversar com Sam, Abbie criou coragem e foi at a casa 
dos pais de Stuart para conversar com a me dele.
       A conversa foi muito produtiva e ajudou a esclarecer muitas coisas. Anne admitira o que Sam j havia adivinhado... que ela sentia inveja e medo de Abbie por 
causa de suas conquistas no mundo fora de casa.
       Conheciam-se muito melhor agora, e quando chegasse o momento, que Abbie sinceramente esperava que no demorasse, em que ambas partilhariam o dom especial 
de amar seus netos, um lao adicional entre elas seria construdo e ambas o valorizariam, seriam aliadas nisso, no inimigas.
       O sorriso de Abbie aumentou. Esta noite, quando estivessem nos braos um do outro na privacidade de seu quarto, ela diria a Sam o quanto o amava, o quanto 
valorizava esta segunda oportunidade de partilhar o amor. E ele lhe diria a mesma coisa, ambos com e sem palavras.
       E a filha deles, se soubesse da intensa paixo fsica que existia entre eles, ficaria, sem dvida, surpreendida e um pouco chocada.
       Abbie sorriu secretamente para si mesma. Havia, afinal, algumas coisas que Cathy, apesar de toda a sua aparente maturidade, ainda era jovem demais para saber... 
Algumas coisas, alguns prazeres que, se a vida fosse generosa com ela, como fora com sua me, poderia descobrir para si mesma.
       
           1 Sigla para Voluntary Service Overseas (Servio Voluntrio no Exterior), organizao de jovens que passam temporadas fazendo trabalhos sociais em pases 
pobres. (N.)

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